Caminho de Santiago: os desafios futuros / The future challenges

PT / EN (English version, please scroll down)

IMG_20200519_204657

O mundo, num curtíssimo espaço de tempo, fez com que tivéssemos de alterar muitos dos nossos hábitos. Com maior ou menor resistência e aceitação, vimos a nossa liberdade e planos serem alterados. Agora que, aos poucos, voltamos a projectar o futuro, a pergunta mais recorrente é: “Quando irá reabrir o Caminho?” No entanto, uma resposta clara e peremptória é apenas pura adivinhação. O que hoje é verdade, amanhã poderá já não ser.
Por agora, as notícias são de que: as fronteiras entre Portugal e Espanha continuam encerradas; a quarentena (14 dias) é obrigatória aos estrangeiros que cheguem a Espanha; a mobilidade entre regiões espanholas ainda não é total, pois estão em diferentes fases de desconfinamento.

Além disto, alguns albergues já encerraram definitivamente em Espanha (por falta de sustentabilidade económica), saiu recentemente um manual de boas práticas para funcionamento dos albergues, mas na prática as incertezas ainda são muitas.

O Caminho que conhecemos, relativamente ao seu funcionamento e logística, a curto e médio prazo não voltará a ser o mesmo. Será assim até ser encontrada uma vacina ou medicamento? Não sabemos. Irei tentar resumir algumas ideias/reflexões/partilhas/questões que fui vendo em vários sítios e, sobretudo, muito apoiada nos vídeos das conferências organizadas pelo Albergue Cidade de Barcelos(“Quanto tempo pode o Caminho esperar?” a 2 de Maio e “Albergues em tempo de pandemia” a 16 de Maio)

bac

Fonte imagem: Albergue Cidade de Barcelos

  • Massificação: o que até Março de 2020 era considerado um problema pelo aumento contínuo do número de peregrinos no(s) Caminho(s) de Santiago e o desvirtuar da sua essência, deixou de ser uma questão com o desaparecimento dos peregrinos devido ao confinamento.
  • Perfil dos peregrinos no futuro: Numa primeira fase serão sobretudo portugueses e espanhóis dada a proximidade geográfica. Depois, irá naturalmente aumentar o número de outros peregrinos do continente europeu.
    Os peregrinos portugueses ainda são poucos, representando cerca de 5% daqueles que percorrem os Caminhos Portugueses.
  • Alerta dos sintomas mais comuns, que embora possam variar de pessoa para pessoa, são: tosse seca, febre, falta de ar, fadiga, dores de cabeça, náuseas/vómitos, dores musculares, … No entanto, a grande maioria das pessoas não acusa sintomas, daí a necessidade de consciencializar todos os peregrinos da sua conduta pessoal. Cuidar de si é cuidar de todos.
  • Sustentabilidade ecológica: Será preferível que os peregrinos geograficamente mais distantes (e que implicam viagens com custos maiores para o ambiente), que até já tenham percorrido o Caminho , optem por outras opções de percursos, mais locais (nos seus países de origem e nas suas regiões).
  • Passaporte sanitário: poderá ser uma obrigação para viajar/deslocar-se.

ALBERGUES

Algumas das medidas que poderão ou terão ter de ser impostas nos albergues:
– incentivar sentido de responsabilidade do peregrino;
– necessidade de registo de entrada;
– agendamento prévio/sistema de reserva (será o ideal nesta fase);
– ser disponibilizada informação sobre a doença e conduta a seguir;
– disponibilização de máscara e gel desinfectante;
– utilização obrigatória de máscara nos espaços comuns;
– higienização do albergue depois da partida dos peregrinos;
– pessoas com sintomas suspeitos devem ser sinalizadas (e ficar num compartimento resguardado ou dirigidas para outra infra-estrutura);
– essencial a protecção dos hospitaleiros: máscara, viseira, cuidados com a roupa;
– retirar panfletos e elementos decorativos;
– fecho da cozinha;
– reforço da limpeza de colchões, maçanetas da porta, etc.;
– percurso alternativo no check-in/recepção e interior do albergue;
– desinfecção do calçado à entrada do albergue;
– redução do número de peregrinos acolhidos;
– disponibilizar forra descartável para os colchões;
– zona com confinamento para casos suspeitos:
– não será mais disponibilizada roupa de cama;
– promoção do distanciamento social no interior do albergue (com marcação de espaços)

ASSOCIAÇÕES

Irão ter um papel acrescido na informação e apoio a divulgar:
– o Caminho, efectivamente, mudou;
– será mais dispendioso;
– os estrangeiros deverão ter um seguro de saúde e de repatriamento;
-consciencializar os peregrinos de outros países que, em caso de doença (por irresponsabilidade individual), Portugal e Espanha não têm de acarretar as despesas de saúde inerentes.

DESAFIOS

  1. Sustentabilidade económica
    Com a redução drástica do número de peregrinos que poderão ser aceites por noite no albergue, as receitas diminuem (ex., no Albergue Cidade de Barcelos, de uma capacidade de 25 lugares, irá passar para 4).
    Quem irá financiar os produtos de limpeza extra que serão necessários diariamente?
    Será suficiente para equilibrar as despesas fixas do albergue o aumento do  custo de pernoita? E os albergues que funcionam por donativo?
    Será viável ter voluntários/funcionários no alojamento para receber meia dúzia de pessoas ao longo de todo o dia?
  2. Trabalho em rede: não só entre albergues, mas também com as entidades oficiais, as unidades de alojamento privadas, com o Turismo, etc.
  3. Equilíbrio: incentivar que os peregrinos partam para o Caminho ao longo de todo o ano e não apenas no Verão, Páscoa, …
  4. Peregrino: terá de ser muito mais consciente e responsável. Provavelmente terá de transportar mais alguns itens (peso) na mochila, como máscara, gel desinfectante, talheres, etc., para evitar partilhas ao longo de todo o percurso.
    Além disso, o Caminho terá de ser melhor planeado, com a verificação dos alojamentos disponíveis, assim como de outros serviços. Infelizmente, alguns acabarão por encerrar a curto/médio prazo.
    Quem poderá continuar a percorrer os Caminhos com o aumento dos custos diários bem acima do que até ao momento estávamos habituados?

As dúvidas ainda são muitas quanto ao futuro, mas a boa vontade em tentar fazer o melhor, mantém-se. Nem sempre irá ser possível, é um facto. Fica a certeza, no entanto, de que o Caminho transforma-se, reorganiza-se, mas não desaparece.
Que continue a imperar o bom senso em todas as frentes.

BOM CAMINHO!

PS: Mais sugestões, questões, desafios, rectificações, são bem-vindos.

___

EN

The world, in a very short space of time, meant that we had to change many of our habits. With more or less resistance and acceptance, we saw our freedom and plans being changed. Now that, little by little, we are projecting the future again, the most frequent question is: “When will reopen the Way of St James?” However, a clear and imperative answer is just pure guesswork. What is true today, tomorrow may no longer be.
For now, the news is that: the borders between Portugal and Spain remain closed; quarantine (14 days) is mandatory for foreigners arriving in Spain; mobility between Spanish regions is not yet complete, as they are in different stages of deflation.

In addition, some hostels have already closed definitively in Spain (due to the lack of economic sustainability), a manual of good practices for the operation of the hostels has recently come out, but in practice there are still many uncertainties.

The path we know, in terms of its operation and logistics, in the short and medium term will not be the same again. Will it be like this until a vaccine or medicine is found? We do not know. I will try to summarize some ideas / reflections / shares / issues that I have seen in various places and, above all, very much supported in the videos of the conferences organized by Albergue Cidade de Barcelos (“How long can the Path wait?” On 2 May and “Hostels in time of pandemic ”on 16 May)

  • Massification: what until March 2020 was considered a problem due to the continuous increase in the number of pilgrims on the Camino (s) de Santiago and the distortion of its essence, is no longer an issue with the disappearance of pilgrims due to confinement.
  • Profile of pilgrims in the future: In a first phase, they will be mainly Portuguese and Spanish given the geographical proximity. Then, the number of other pilgrims on the European continent will naturally increase.
    Portuguese pilgrims are still few, representing about 5% of those who travel the Portuguese paths.
  • Warning of the most common symptoms, which, although they may vary from person to person, are: dry cough, fever, shortness of breath, fatigue, headache, nausea / vomiting, muscle pain,… However, the vast majority of people do not report symptoms, hence the need to make all pilgrims aware of their personal conduct. Taking care of yourself is taking care of everyone.
  • Ecological sustainability: It is not sustainable to continue with an exponential growth curve in the number of people who come to Caminhos. Those who have done it 1, 2 times, look for other alternative routes, more local (in their countries of origin and in their regions).
  • Health passport: it may be an obligation to travel / get around.

HOSTELS

Some of the measures that may or will have to be imposed:
– encourage pilgrim’s sense of responsibility;
– need to check in;
– previous booking / reservation system (this will be ideal at this stage);
– information on the disease and conduct to be made available;
– availability of a mask and disinfectant gel;
– mandatory use of a mask in common spaces;
– cleanliness of the hostel after the departure of the pilgrims;
– people with suspicious symptoms must be flagged (and stay in a sheltered compartment or directed to another infrastructure);
– protection of hospitable people is essential: mask, visor, care for clothes;
– remove pamphlets and decorative elements;
– kitchen closing;
– enhanced cleaning of mattresses, door handles, etc .;
– alternative route at check-in / reception and inside the hostel;
– disinfection of shoes at the entrance to the hostel;
– reduction in the number of pilgrims received;
– provide disposable cover for the mattresses;
– confined area for suspected cases:
– bed linen will no longer be available;
– promotion of social distancing within the hostel (with booking spaces)

ASSOCIATIONS

They will have an increased role in the information and support to disseminate:
– the Path has indeed changed;
– it will be more expensive;
– foreigners must have health and repatriation insurance;
– make people aware that, in the event of illness (due to individual irresponsibility), Portugal and Spain do not have to incur costs.

CHALLENGES

  1. Economic sustainability
    With the drastic reduction in the number of pilgrims who may be accepted per night at the hostel, revenues decrease (eg at Albergue Cidade de Barcelos, with a capacity of 25 places, it will change to 4).
    Who will finance the extra cleaning products that will be needed daily?
    Will it be enough to balance the hostel’s fixed expenses with the increased cost of overnight stays? What about hostels that work by donation?
    Is it feasible to have volunteers / staff in the accommodation to receive half a dozen people throughout the day?
  2. Networking: not only between hostels, but also with official entities, private accommodation units, with Tourism, etc.
  3. Balance: encouraging pilgrims to set out on the Way throughout the year and not just in summer, Easter,…
  4. Pilgrim: you will have to be much more aware and responsible. You will probably have to carry a few more items (weight) in your backpack, such as a mask, disinfectant gel, cutlery, etc., to avoid sharing along the way.

In addition, the Way will have to be better planned, with the verification of the available accommodations, as well as other services. Unfortunately, some will end up closing in the short / medium term.
Who will be able to continue walking the Paths with the increase in daily costs well above what we were used to?
There are still many doubts about the future, but the willingness to try to do the best remains. It will not always be possible, it is a fact. It remains certain, however, that the Way is transformed, reorganized, but does not disappear.
May common sense prevail on all fronts.

BUEN CAMINO!
Safe journey!

PS: More suggestions, questions, challenges, rectifications are welcome.

2 thoughts on “Caminho de Santiago: os desafios futuros / The future challenges

  1. The dorms are obviously a matter of large concern. Would it not be possible if the weather is fine to have some of the beds outside ??

  2. Pingback: It’s Summertime!! – Clearskies Camino

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s