Caminho de Santiago: 13 Mitos ao longo do Caminho / The Way: 13 Myths Along the Way

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PT / EN (Please scroll down for the English translation) 


1. Parque natural

Tantas são as críticas de que vários troços dos Caminhos são por estrada, zonas industriais, zonas residenciais, etc. De facto, o Caminho não é um passeio num parque natural. Há zonas naturais de rara beleza, mas as áreas visualmente menos atractivas também fazem parte, tal como o bonito e o feio fazem parte da vida.

2. Planos

Pesquisar informação sobre o Caminho é óptimo (albergues, distâncias, pontos de abastecimento, etc.), assim como levar um plano definido, mas estar aberto a alterar diária e continuamente o plano, é melhor ainda. É aprender a dar espaço aos imprevistos, à vontade momentânea de parar ou continuar para uma etapa mais adiante, de disfrutar da companhia de alguém que encontra ou simplesmente de contemplar a natureza. Quanto mais longa a duranção do Caminho, mais importante se torna a flexibilidade nos planos previamente definidos.

3. O “meu” caminho

“Eu preciso fazer o meu Caminho”. E assim deverá ser, cada um tem as suas próprias motivações e aprendizagens a retirar da experiência. No entanto, o “meu” caminho não significa isolar-se dos demais, fazer com que os outros cumpram as suas vontades ou sobrepor-se aos demais. O “meu” caminho por vezes pode significar estar só e noutras alturas caminhar com o grupo; fazer a minha vontade ou abdicar dela em prol dos outros; parar ou continuar; dar ou receber.

4. Pessoas

São inúmeras as pessoas que percorrem diariamente o(s) Caminho(s) e, não podemos esperar que, apenas por serem peregrinos, sejam boas pessoas. São pessoas, apenas isso, com o bom e o menos bom, tal como cada um de nós. Por vezes o cansaço físico, o desespero, as dores, as noites mal dormidas, podem acentuar o que de pior temos, mas responder na mesma moeda, ali (como em lugar algum) é a melhor resposta. É deixar passar o momento e logo ganhamos outra imagem dessa pessoa, bem mais positiva e, possivelmente, mais fidedigna.

5. Encontrar respostas

O Caminho tem a sua própria dinâmica e, no geral, sobrepõe-se à nossa própria vontade. No Caminho Francês encontrei uma holandesa, mãe de 4 filhos, que foi à procura de silêncio e tempo para escrever um livro. A meio do percurso, dizia-me (com algum pesar e sentido de humor) que ainda não tinha escrito uma linha e que nunca tinha encontrado e falado com tantas pessoas na sua vida. Quando fui fazer o Caminho Português há dois anos, decidi partir de Lisboa, pois sabia ser um percurso menos movimentado em número de peregrinos e apetecia-me estar só. Na Catedral, em Lisboa, o ponto simbólico de início do Caminho, conheci uma americana com quem viria a caminhar junto até Barcelos. Os planos mudaram radicalmente. :)
É um cliché mas, “não se encontra o que se procura, encontra-se o que se encontra” e não tem de ser necessariamente mau. Provavelmente, se as respostas que pretendíamos não apareceram da forma que queríamos ao longo do Caminho, irão surgir mais tarde, já de regresso a casa.

6. Rituais

Por norma, não ligo muito a rituais, especialmente quando me parecem que tendem a se tornar superstições.
Ao longo do(s) Caminho(s) não é excepção e existem vários, não fazendo ideia das suas origens que, sinceramente, duvido que sejam tão ancestrais assim. De qualquer forma, desde que não prejudiquem ninguém, satisfaz quem os pratica e não incomoda os demais.
No entanto, o hábito de deixar pedrinhas em certos locais, assim como fitas, papelinhos e outras lembrancinhas, apesar da forte carga emocional de quem os deixa em pontos simbólicos, vistos de uma forma fria e objectiva (e sem querer ferir susceptibilidades), são resíduos/lixo. Uma coisa é deixá-los na Cruz de Ferro (Caminho Francês) em que o acesso é fácil através de viatura e proporciona uma limpeza contínua do espaço (e já digo isto com alguma condescendência), outra é deixá-los, por exemplo, na cruz da Serra da Labruja (Caminho Português) em que o acesso é bem complicado e apenas por via pedestre. Com as diferentes condições climatéricas, os objectos voam, partem-se, derretem-se, espalham-se, deterioram-se e tornam-se em poluição.
Apesar de todo o simbolismo que envolve estes actos, há que ter uma maior consciência dos mesmos para o meio envolvente.


7. Cães

A existência e receio dos cães vadios é um assunto recorrente. De facto, existem alguns, mas na maioria dos casos não são uma ameaça. Os cães que estão presos e “dentro de portas” são os mais barulhentos e ameaçadores, quanto aos outros, desde que lhes demos espaço e não actuemos de forma agressiva, continuam pacificamente na sua vida.
Ter os bastões à mão apenas como prevenção dá segurança e em caso de real necessidade, que remédio senão utilizar!
Até hoje, já apanhei um outro susto (mais por estar distraída) do que uma real ameaça, ao longo dos vários Caminhos.


8. Peso

São várias as motivações que levam as pessoas a percorrerem o Caminho e perder peso é uma delas. Já vi nalguns grupos relacionados com Santiago, comentários a denotar alguma decepção pelos (parcos) resultados. Tal como representado no filme “The Way” pelo personagem holandês, não é apenas por caminhar algumas horas por dia (e a comer as belas iguarias gastronómicas como se não houvesse amanhã) que irá obter resultados.
Será mais fácil notar diferença quem habitualmente não tem hábitos de actividade física, pois a mudança é abrupta (de sedentário a caminhante de várias horas por dia), mas, ainda assim, só a partir de certa duração (diria 2 semanas) é que efectivamente se nota maior diferença quando existe algum cuidado no regime alimentar. Ainda assim, depende muito do metabolismo de cada pessoa.
Ter em atenção de que para quem caminha diversas horas diariamente, é necessário ingerir um número de calorias suficiente para ter energia para continuar a caminhar de forma saudável.


9. Descanso

Se há situação onde o descanso é essencial, é ao longo do Caminho e logo desde o primeiro dia. Apesar do entusiasmo de quem começa a caminhar, fazer algumas pausas (ainda que forçadas) tornam-se cruciais para prevenir acumulação de cansaço e tensão muscular que resultará posteriormente em mazelas. Em Caminhos de longa duração é mesmo necessário saber escutar o corpo e ter este aspecto em atenção!


10. Dificuldades

Não há necessidade de procurar pelas dificuldades, elas irão acabar por aparecer. Mesmo que esteja fisicamente muito bem treinado, poderá ser a chuva a incomodá-lo, a presença de alguém ou um assunto mal resolvido do passado que, de repente, vem ao de cima.
Vi há pouco tempo uma frase algures que dizia “Peregrinar não é penitenciar-se”. Se (ou quando) as dificuldades surgirem, é tentar ultrapassá-las, mas chegar a Santiago sem queixas, não tem menos valor por isso.


11. Albergue grátis

“Não há almoços grátis” é a primeira coisa que ouvimos num curso de Economia. Se há albergues que sobrevivem com donativos, há que respeitar isso. Donativo não é gratuidade, há contas (custos fixos) que têm de ser pagos: água, luz, manutenção do espaço, etc.
Além disso, é crucial estimar o local onde pernoitamos. Estragar, sujar, levar algo que não nos pertence é um abuso e falta de respeito não só para os que trabalham em prol do caminho, como para os peregrinos que irão ficar nesse local posteriormente.
O albergue poderá ser a nossa casa apenas por um dia, mas é a casa de muitos durante todo o ano.


12. Hospitaleiros

Não são nossos criados, nem estão para nos servirem. Muitos estão de forma voluntária e colaborar com um albergue representa trabalho e responsabilidade extra no seu dia-a-dia. Se nos sabe bem ser bem recebido e mimado, a eles também serve de conforto para continuarem na sua missão.


13. Chegar a Santiago – o dia

É o dia mais ansiado e, no entanto, o mais “sui generis” de todo o Caminho. É um dia repleto de emoções: a alegria da chegada, o alívio de não ter de caminhar mais, o objectivo a que nos propusemos concretizado, mas também a revisão mental de tudo o que foi vivido ao longo de vários dias, da tristeza da despedida de tantos que foram nossos companheiros, do voltar à rotina do dia-a-dia e da eterna pergunta “E agora?”, como continuar a colocar em prática tudo o que de bom foi aprendido?

Ver também: Caminho de Santiago: Preparação – 10 Mitos

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EN

1. Natural park

So many critics say that several sections of the Way are by road, industrial zones, residential areas, etc. In fact, the Way is not a walk in a natural park. There are natural areas of rare beauty, but visually less attractive areas are also part, just as the beautiful and the ugly are part of life.

2. Plans

To search information about the Path is great (hostels, distances, points of supply, etc.), as well as taking a plan, but being open to a daily and continually changing plan is even better. It is to learn to give space to unforeseen events, the will to stop or continue to a stage further, to enjoy the company of someone that you just met or simply to contemplate nature. The longer the duration of the Path is, the more important the flexibility becomes in the previously defined plans.

3. To do”my” way

“I need to do my Way.” And so it should be, each one has its own motivations and something to learn from the experience. However, the “my” way does not mean isolating oneself from others, making others fulfill their wills, or overcoming others. The “my” way can sometimes mean being alone and at other times walking with the group; do my will or give it up for others; stop or continue; give or receive.

4. People

There are countless people who walk the Path(s) daily, and we can not expect that just because they are pilgrims, they are good people. They are people, just that, with the good and the less good, just like each of us. Sometimes physical fatigue, despair, pain, bad nights sleep, can accentuate the worst we have, but to respond in the same way (as nowhere) is not the best answer. It is letting go of the moment and soon we get another image of that person, much more positive and possibly more trustworthy.

5. Find answers

The Way has its own dynamics and, in general, overlaps with our own will. On the French Way, I met a Dutch mother of four who was looking for silence and time to write a book. Half way through, she told me (with some regret and sense of humor) that she had not yet written a line and that she had never met and talked to so many people in her life. When I went to do the Portuguese Way two years ago, I decided to leave from Lisbon, because I knew it was a less crowded route and I wanted to be alone. In the Cathedral, in Lisbon, the symbolic point of the beginning of the Way, I met an American  pilgrim with whom I walked along to Barcelos (+/- 450km). The plans have changed radically. :)
It is a cliché but, “you do not find what you are looking for, you find what you find” and it does not have to be necessarily bad. Probably, if the answers we intended did not appear the way we wanted along the Way, they will come later, on our way home.

6. Rituals

As a rule, I do not care much about rituals, especially when it seems to me that they tend to become superstitions.
Along the Path (s) is no exception and there are several, having no idea of ​​their origins, which I sincerely doubt they are so ancestors. In any case, as long as they do not harm anyone, it satisfies those who practice them and does not bother others.
However, the habit of leaving little stones in certain places, as well as tapes and other souvenirs, despite the strong emotional load of those who leave them in symbolic points, seen in a cold and objective way (and not wanting to hurt susceptibilities), are waste / garbage. One thing is to leave them at the Iron Cross (French Way) where access is easy by car and provides a continuous cleaning of the space (and I say this with some condescension), another is to leave them, for example, in the cross of Serra da Labruja (Portuguese Way) where the access is very complicated and only by pedestrian route. With the different climatic conditions, the objects fly, break, melt, spread, deteriorate and become pollution.
In spite of all the symbolism that involves these acts, it is necessary to have a greater awareness of them for the surrounding environment.

7. Dogs

The existence and fear of stray dogs is a recurring subject. In fact, there are some, but in most cases they are not a threat. Dogs that are trapped and “inside doors” are the loudest and most menacing dogs, as long as we give them space and do not act aggressively, they continue peacefully in their lives.
Have the walking poles by hand just as prevention gives safety and in case of real need… use it!
To this day, I have caught some frights more for being distracted than a real threat, along the various Paths.

8. Weight

There are many motivations that lead people to walk the Camino and lose weight is one of them. I have already seen in some groups related to Santiago, comments to denote some disappointment by the (meager) results. As represented in the film “The Way” by the Dutch character, it is not only for walking a few hours a day (and eating the beautiful gastronomic delicacies as if there were no tomorrow) that you will get results.
It will be easier to notice the difference who usually does not have habits of physical activity, since the change is abrupt (from sedentary to walker of several hours per day), but, nevertheless, only from a certain duration (I would say 2 weeks) there is a greater difference when there is some care in the diet. Still, it depends a lot on each person’s metabolism.
Bear in mind that for those who walk several hours daily, it is necessary to ingest a sufficient number of calories to have energy to continue walking in a healthy way.

9. Rest

If there is situation where rest is essential, it is along the Path and right from the first day. Despite the enthusiasm of those who start walking, taking a few pauses (even if forced) becomes crucial to prevent accumulation of fatigue and muscle tension that will later result in malaise. In long-term paths it is even necessary to know how to listen to the body and to have this aspect in mind!

10. Difficulties

There is no need to look for difficulties, they will eventually appear. Even if you are physically very well trained, it could be the rain bothering you, the presence of someone or an ill-sorted subject from the past that suddenly comes up.
I recently saw a phrase somewhere “Pilgrimage is not penance”. If (or when) the difficulties arise, it is necessary to try to overcome them, but arriving in Santiago without complaints, has no less value for it.

11. Albergue (Pilgrim’s hostel) for free

“There are no free lunches” is the first thing we hear in an Economics course. If there are shelters that survive with donations, you have to respect that. Donation is not gratuitous, there are bills (fixed costs) that have to be paid: water, electricity, space maintenance, etc.
In addition, it is crucial to estimate where we sleep. To spoil, to get dirty, to take something that does not belong to us is an abuse and a lack of respect not only for those who work for the path, but also for the pilgrims who will stay there later.
The hostel may be our home just for a day, but it is the home of many all year round.

12. Hospitallers / Hospitaleiros

They are not our servants, nor are they to serve us. Many volunteer and collaborating with a hostel represents extra work and responsibility in their day-to-day lives. If it is well for us to be welcomed and spoiled, our atittude is also a comfort to continue their mission.

13. Arrive in Santiago – the day

It is the most desired day and, nevertheless, the most “sui generis” of the whole Way. It is a day full of emotions: the joy of arrival, the relief of not having to walk any further, the objective we set ourselves to achieve, but also the mental review of everything that has been experienced over several days, the sadness of farewell of so many who were our companions, of returning to the routine of the day to day and the eternal question “And now?”, how to continue to put into practice all that has been learned?

See also: The Way: Preparation – 10 Myths

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6 thoughts on “Caminho de Santiago: 13 Mitos ao longo do Caminho / The Way: 13 Myths Along the Way

  1. O Caminho Francês foi o meu sonho de quase uma vida, em 2017 fiz o português desde Valença. Foi na mesma um sonho realizado, porque como diz fui-me adaptando. Espero poder voltar a reviver o meu sonho. Adorei.

    • Lúcio, olá! :)
      Esta “assertividade” vai chegando ao longo dos anos, com muitos erros cometidos (e falsas ideias perpetuadas). Tem sido uma aprendizagem pelo contacto e observação de pessoas, que tal como tu, contribuem com tanto para o Caminho.
      Obrigada por tudo!!
      Abraço

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