Uma mochila cheia de nada / A backpack full of nothing

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Incendios

Os últimos anos têm sido de busca interior incessante. O crescente desconforto no conforto impulsiona a procura de novos caminhos. Apesar dessa necessidade, nada é vivido sem a ansiedade e angústia inicial pelo desconhecido. Peregrinar rumo a Santiago de Compostela foi apenas uma dessas experiências.

Os vários trajectos percorridos ao longo dos últimos anos ao longo do caminho de Santiago, maioritariamente por períodos de média/longa duração (+/- 1 mês), de mochila e com todos os bens essenciais (e alguns, muito poucos, supérfluos) contidos nesse pequeno espaço (40 litros), fizeram com que criasse, errada e presunçosamente, a ideia de estar pronta a viver com pouco.

Chegou o dia em que surgiu o teste. Um fogo ateado numa pequena área nos arredores da cidade estendeu-se a outras zonas derivado ao vento, ganhando proporções inimagináveis.
Noite não dormida, estado de alerta constante, notícias menos agradáveis de amigos a surgirem e ver recantos da ilha a serem destruídos numa fúria esfomeada, moldaram em mim um estado de espírito pouco invejável.

CPerante este cenário e por prevenção em caso de fuga, urgiu preparar uma pequena mochila com os bens essenciais. Inicialmente, ingénuamente, pensei que seria uma tarefa mais simples. Estava habituada a preparar a mochila e nunca senti falta de nada já em viagem. Da última vez, em Maio passado, de partida para o Caminho Português de Santiago, até tinha preparado a mochila de véspera, um pouco à pressa por outros afazeres se terem sobreposto.

O cenário antes hipotético, tornou-se realidade, o Inferno chegou-nos à porta. Pegámos na mochila e rumámos a porto seguro, certos de que nada iria sobrar.
Entre um turbilhão de sentimentos díspares e uma sensação de fragilidade vincada, sobressaiu o alívio de estarmos juntos, bem e em segurança.

Mentalmente, comecei a rever o conteúdo da minha mochila e de que forma aquelas coisas seriam realmente úteis nos tempos vindouros. Pouco a pouco, pareceu-me ter esquecido tudo o que realmente era essencial… Como era possível?! Como poderia viver um mês inteiro com uma mochila apenas e, nesse momento, tudo parecer faltar?
Apercebi-me que ao fazer aquela sacola pensei no futuro, um futuro que naquele momento já não existia, pelo menos não daquela forma. O que precisava mesmo era de presente e, para isso, não me tinha preparado. Como começar a pensar num novo futuro inexistindo o presente?  …

Por aí, com frequência, ouvi: “A vida tem de continuar. É preciso retomar a vida normal.”
E continuou.
Regressei ao trabalho  e logo um casal de turistas (portugueses) pediu uma informação que não era da minha competência. Expliquei que o patrão estava ausente nesse dia, por força das circunstâncias das últimas 48h. Disseram estar a par, a última semana tinha sido passada na Madeira, mas não mostraram qualquer empatia. “Que azar, era mesmo com ele que queríamos falar.” Estavam de regresso a casa no dia seguinte. Voltei a explicar que o assunto pode ser tratado por telefone ou e-mail, sem qualquer prejuízo para o que pretendiam. Alheios às explicações apenas repetiam continuamente: “Que azar, é mesmo preciso ter azar!”
Fiquei a olhá-los certa de que se aquela é a normalidade, não quero embarcar nunca!

Nota final:
Felizmente, apesar do cenário e do susto vivido, comigo, família e amigos, correu tudo pelo melhor. Até os estragos foram relativizados perante as circunstâncias. No entanto, o rescaldo demorará algum tempo. Alguns alicerces que julgava mais sedimentados foram sacudidos: o suposto minimalismo, a caminhada na Fé e o sentido de “normalidade” do dia-a-dia. Como em todos os abalos, vislumbra-se uma oportunidade de (continuar a) fazer Caminho.

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EN (google translated.. sorry, soon will get it better)

A backpack full of nothing

The last few years have been unceasing inner search. The growing unease in the comfort drives the search for new paths. Despite this need, nothing is lived without the anxiety and initial anxiety about the unknown. Pilgrimage route to Santiago de Compostela was just one of those experiences.
The number of journeys made over the last few years along the way to Santiago, mostly for periods of medium / long term (+/- 1 month), backpack and all the essentials (and some, very few, superfluous) contained in that small space (40 liters), made created, and presumptuously wrong, the idea of being ready to live with little.

The day came when the test came. A fired on a small area on the outskirts of the city was extended to other areas derived from the wind, gaining unimaginable proportions.
Night not sleep, constant alertness, less pleasant news of friends to arise and see the island places to be destroyed in a ravenous fury, shaped in me a state of unenviable spirit.
Against this background and prevention in case of leakage, urged prepare a small backpack with the essentials. Initially naively I thought it would be a simpler task. I was used to prepare the backpack and never missed anything already on the road. Last time, last May, departure for the Portuguese way to Santiago, had even prepared the day before backpack, a bit hastily for other duties if they overlapped.

The scene before hypothetical became reality, Hell has come in the door. We took the backpack and headed to safe port, certain that nothing would be left.
Among a flurry of different feelings and a sense of stark fragility, it stood out the relief to be together, safe and well.
Mentally, I began to review the contents of my backpack and how those things would be really useful in times to come. Little by little, it seemed to have forgotten all that was really essential … How could you ?! How could live a month with a backpack and just at that moment, everything seems to miss?
I realized that to make that bag thought in the future, a future that at that time no longer existed, at least not that way. What needed was present and, for this, I had not prepared. How to start thinking about a new future not existing this? …

So often heard: “Life has to continue You need to resume normal life..”
And she continued.
I returned to work and then a couple of tourists (Portuguese) asked for information that was not my responsibility. I explained that the boss was absent that day, under the circumstances of the last 48 hours. They said they were aware, the last week had been passed in Madeira, but showed no empathy. “Alas, it was the same with him that we wanted to talk.” They were back home the next day. Again I explain that it can be handled by phone or email, without prejudice to what they want. Unrelated to the explanations just continually repeat: “Alas, it is necessary to have bad luck!”
I was looking at them sure if this is normal, do not want to embark on ever!

Final note:
Fortunately, despite the setting and lived scare me, family and friends, all went for the best. Even the damage was relativized in the circumstances. However, it takes some time to wake. Some foundations that thought more sedimented were shaken: the alleged minimalism, to walk in faith and the meaning of “normal” day-to-day. As with all quakes, envisions is an opportunity to (continue to) do Way.

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4 thoughts on “Uma mochila cheia de nada / A backpack full of nothing

  1. Não é fácil encontrar palavras para, com humildade, serenidade e discernimento, após uma tragédia de tais dimensões, conseguir relatar as vivências e evidências. Bem hajas, Luísa Sousa, …por mim… …por todos… …pelo caminho… e…por Santiago!!! Ultreia —> Domingos Carneiro

    *Associação Espaço Jacobeus* (Confraria de São Tiago) Rua das Oliveiras, 26 (Edifício Junta Freguesia de São Vicente) 4710-302 BRAGA (Portugal) *WWW.JACOBEUS.ORG * NIPC | 510873154 | IBAN | PT50003507210001793433078 DELEGAÇÕES: Amarante | Barcelos | *Braga *| Faro | Fátima | Felgueiras | Guimarães | Lisboa | Oliveira de Azeméis | Ponta Delgada (Açores) | Porto | Vila do Conde | Vila Verde.

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    A AEJ, associação de âmbito nacional, reúne associados por todo o território e estrangeiro. Se pretende associar-se e participar ativamente numa Hospitalidade de Proximidade, Informação & Preparação de Peregrinos, bem como na Promoção do Caminho Português de Santiago, preencha e submeta o formulário disponível *AQUI* !

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