“After- Party”: Santiago e Finisterra

PT / EN

Desperto sem o auxílio do despertador, o corpo já tem a sua rotina e antes de fazer qualquer movimento, fico a assimilar tudo o que foi vivido na véspera, quero ter a certeza que não foi um sonho. Não, o espaço que me rodeia não deixa sombra de dúvidas.

Apesar de nos encontrarmos cedo para o pequeno-almoço, hoje é tudo feito ao sabor do momento. Temos tempo para uma passeata pelo centro histórico, practicamente sem movimento, uma nova visita à catedral e o regresso para ir buscar as mochilas. Despedimo-nos do Gordon que vai directo para o aeroporto. Esta segunda despedida foi-me mais fácil, talvez porque tenha havido uma anterior completamente inesperada e, por isso, mais profunda ou, simplesmente, porque desta vez houve tempo para me ir mentalizando, era apenas o rumo natural das coisas.

Eu e o Antonio decidimos ir até Finisterra por um dia, nenhum de nós estava com vontade de fazê-lo a pé, mas queríamos conhecer o mítico local. Ele tinha programado ir hoje, eu daí a um par de dias, mas como as condições climatéricas previstas eram de agravamento do tempo, decido ir hoje também e, assim, sempre tenho companhia. Antes de seguirmos para a estação de autocarros, passo pela Oficina do Peregrino para deixar os meus bastões junto de dezenas de outros. Foram fiéis companheiros,imprescindíveis em variadíssimas situações, mas nesta fase já não são úteis, chegaram ao fim gastos com menos 10 cm de altura!

Chegamos a Finisterra depois de 3h de autocarro! O céu está carregado e sopra um vento frio. À nossa saída do autocarro, esperam-nos vários “comerciais” com propostas de alojamento. Confesso que esta experiência foi-me desagradável, embora reconheça alguma utilidade, mas talvez pudesse ser feita de forma mais organizada, sem nos sentirmos carne para abutres ansiosamente à espera… Nada como um banho de realidade, já não somos encarados apenas como peregrinos, agora somos turistas!
As 24 horas passadas em Finisterra foram sobretudo para descansar! Para nossa felicidade, mal lá chegamos decidimos ir até ao farol (ida e volta são cerca de 6km), pois já no regresso começou a chover para quase não mais parar. Mesmo com vento, frio e núvens carregadas, é um passeio agradável, mas nada comparado com as fotos lindíssimas que vejo constantemente os peregrinos partilharem (uma bela desculpa para lá voltar noutra ocasião). Entramos no farol, não carimbo por não ter levado a credencial, vamos até à ponta, vemos a bota, o famoso marco a assinalar o quilómetro zero, damos uma voltinha por ali e regressamos. Devido à chuva que se fazia sentir, pouco mais fazemos, além de ir jantar ao final do dia. E que belo jantar, o último grande momento de partilha com o Antonio, palavras que jamais serão esquecidas!

De volta a Santiago. É dia de reencontros, abraços, sorrisos, partilhas! Santiago de Compostela deveria ter como alcunha a cidade dos abraços (sejam pelos reencontros, sejampelas despedidas). Tão bom voltar a ver a Krystyna, a Sandrine, o Marco, o Michel, o Loïc e a Armel, a Manuela, a Monique, a Sabrina, o Daniel, o Alberto, o Luis e ainda conhecer novos peregrinos, os amigos dos amigos, o primo do Antonio que chegou do Caminho Francês, a Jenny uma amiga dele de outro caminho e que agora se reencontram, enfim, belos momentos!

Lembram-se do Avô e da Neta que encontrei quase diaramente ao longo do Caminho Sanabrês? Estou com a Krystyna, Antonio, Sandrine e Marco, num café com a esplanada envidraçada, quando os vejo passar do lado de fora, olhamos todos e acenamos. Eles reconhecem-nos, levantam os braços em jeito de cumprimento e a neta dá um salto e abana os braços, em sinal de euforia, conseguiram, eles conseguiram!! Não chegamos a falar mais uma vez, mas fico tão feliz por sabê-los chegados a Santiago, pela sua conquista!

No albergue, procuro uma mesa com a intenção se escrever um pouco, mas ainda antes de começar, senta-se uma peregrina à minha frente com vontade de falar. É brasileira, percorreu o Caminho Francês completo e é a primeira pessoa que oiço dizer que não gostou da experiência, foi uma “perda de tempo”. Após a surpresa inicial, pois nunca ninguém tinha sido tão crú assim, interesso-me verdadeiramente para tentar perceber o que possa ter corrido mal. “Foi tudo negativo? Não houve bons momentos?”, pergunto. Diz-me que houve alguns, mas muito raros. “Então porque não desistiu se estava a ser tão negativa a experiência?” Responde que se tinha comprometido fazia muito tempo, ter vindo à Europa tinha representado um esforço extra tanto em logística, como financeiro e da ausência da família, por isso não queria desistir. “Nos momentos de maior dificuldade não encontrou quem ajudasse?” Encontrou. “Nos albergues não conviveu com outros peregrinos?” Conviveu. “Não fez nenhuma amizade?” Fez, mas poucas. “Não teve com quem falar?” Teve. “As paisagens não eram bonitas?” Eram. “Teve sempre dores nos pés e bolhas como agora?” Não. “Acha mesmo que foi uma perda de tempo e não poderá retirar nenhuma aprendizagem do tudo o que viveu?” Talvez, mas diz que poderia aprender o mesmo noutra experiência qualquer, menos exigente fisicamente. Pergunta-me se gostei do meu caminho, se tenho alguma história para contar. “Se tenho alguma história?! Eu só tenho histórias!” Depois de uma conversa algo longa, parece-me um pouco mais animada. De facto, o Caminho depende apenas dos olhos de quem o vê, da gestão das expectativas de cada um (por isso, cada vez mais, repudio a ideia de passar a imagem de que são tudo rosas, não são, nem lá, nem em sítio algum), daquilo que nos propomos a dar sem estar à espera de receber, pois só assim tudo o que vier será um extra.

No Domingo, antes de me despedir de Compostela, volto à Catedral, para assistir à Missa. Já tinha estado três vezes em Santiago e em nenhuma delas, nas missas celebradas, houve o Botafumeiro. Desta vez, ocorreu o oposto, em todas elas (e fui a várias), tive a possibilidade de assistir a esse momento! E nunca é de mais, é sempre comovente.
No final da Missa, depois da comunhão, olho para o lado e vejo uma cara conhecida. Espero que termine a celebração e vou ter com ela, é a Marta, uma amiga do Porto, que ao longo da Páscoandante me pediu informações várias sobre o Caminho, mas não sabia se teria oportunidade de percorrê-lo. Agora encontrava-a ali, acabadinha de chegar após uma semana no Caminho Português, que alegria, por ela, pela sua conquista e pelo reencontro num sítio tão especial!

Por fim, um último reencontro com um casal de amigos, João e Dulce, que fizeram a gentileza de ir ter comigo a Santiago e dar boleia de regresso ao Porto, mais um presente inesperado!

Nas vezes anteriores que cheguei a Santiago, sempre fiz questão de ir embora num curto espaço de tempo, por não querer ficar a fazer turismo. Desta vez, também não me apeteceu ser turista, mas senti necessidade de ficar uns dias extra para assimilar tudo antes do regresso. Deambulei pelo centro, passei longo tempo na Catedral e nas escadas da mesma a apreciar a Praça de Obradoiro, relembrando o momento que em 2006 me fez querer peregrinar a pé até ali e tentar sentir um pouco daquelas emoções que via num grupo de jovens de t-shirts amarelas acabados de chegar, descansei e convivi com todos os peregrinos que fui reencontrando, em especial com o Antoine. O tempo passou a correr, não consegui fazer tudo a que me tinha proposto, mas para isso, o tempo seria sempre insuficiente.

Despedi-me do Sr. S.Tiago com um até já, Ele saberá melhor do que eu quando voltará a ser o meu regresso.

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

(Translation in progress… google translation for now) :\

Awake without the help of the alarm clock, the body already has his routine and before you make any move, I assimilate all that was experienced yesterday, I want to make sure it was not a dream. No, the space around me leaves no doubt.
Despite the early meet for breakfast, today is all done at the whim of the moment. We have time for a march through the historic center, practically motionless, a new visit to the cathedral and the return to fetch the bags. We parted Gordon that goes straight to the airport. This second farewell was me easier, perhaps because there has been a completely unexpected earlier and therefore deeper or simply because this time there was time to go visualizing me, it was just the natural course of things.
Me and Antonio decided to go to Finisterra for one day, none of us was willing to do it on foot, but we wanted to know the local mythical. He was scheduled to go today, I there a couple of days, but as the expected weather conditions were worsening weather, decided to go today also and thus always have company. Before we go to the bus station, step by Pilgrim Workshop to leave my sticks together dozens of others. They were faithful companions, essential for diverse needs, but at this stage are no longer useful, come to an end spending under 10 cm tall!
We come to Finisterra after 3h bus! The sky is loaded and blows a cold wind. On our way out of the bus, wait on the various “trade” with housing proposals. I confess that this experience was unpleasant to me, while acknowledging some use, but could perhaps be done in a more organized way, without feeling meat for vultures eagerly waiting … Nothing like a reality check, we are no longer seen only as pilgrims now we are tourists!
The past 24 hours in Finisterre were mainly to rest! To our happiness, barely we got there we decided to go to the lighthouse (round trip is about 6km), because even in the back started to rain for almost not stop. Even with wind loaded cold and clouds, it is a nice ride, but nothing compared to the gorgeous photos to constantly see the pilgrims share (a nice excuse to go back there another time). We enter the lighthouse, no stamp for not having taken the credential, let’s go to the end, we see the boot, the famous landmark to mark the kilometer zero, we take a little walk around and we return. Because of the rain that was felt, do little more, and go to dinner in the evening. And what a fine dinner, the last great moment of sharing with Antonio, words that will never be forgotten!
Back in Santiago. It is a day of reunions, hugs, smiles, shares! Santiago de Compostela should be to nickname the city Hugs (are the reunions, farewells sejampelas). So good to see Krystyna, Sandrine, Marco, Michel, Loïc and Armel, Manuela, Monique, Sabrina, Daniel, Alberto, Luis and still meet new pilgrims, friends of friends the cousin of Antonio that came the French Way, the one his friend Jenny another way and now meet again at last beautiful moments!
Remember Grandfather and Granddaughter found almost diaramente over Sanabrês Way? I’m with Krystyna, Antonio, Sandrine and Marco, a cafe with glazed terrace, when I see them go outside, we looked at all and waved. They recognize us, raise their arms in fulfillment of way and granddaughter jumps and shakes his arms in excitement signal failed, they succeeded !! We did not get to speak again, but I’m so happy to know they arrived in Santiago, for his achievement!
In the hostel, try a table with the intention to write a little, but before you start, sits a pilgrim before me in the mood to talk. It is Brazilian, come full French Way and is the first person I hear say that did not like the experience, it was a “waste of time”. After the initial surprise, because no one had ever been so raw so I’m interested to truly trying to understand what may have gone wrong. “It was all negative? There were good times? “I ask. It tells me that there were some, but very rare. “So why did not give up if it was to be so negative experience?” Answer that had undertaken long ago, have come to Europe had represented an extra effort both in logistics, such as financial and the absence of the family, so do not want to give up . “In times of greatest difficulty found no one to help?” Found. “In the hostels do not socialized with other pilgrims?” He lived. “He made no friends?” He did, but few. “I did not have to talk to?” He had. “The landscapes were not beautiful?” They were. “He always had sore feet and blisters like now?” No. “Do you really think it was a waste of time and can not withdraw any learning everything that lived?” Maybe, but says he could learn even another experience any less physically demanding. Asks me if I liked my way, if I have a story to tell. “If I have some history ?! I just got stories! “After a long conversation something, it seems to me a bit more lively. In fact, the way depends only on the eyes of the beholder, management expectations of each (so increasingly repudiate the idea to give the impression that everything is roses, are neither there nor in site any), what we propose to give without being waiting to receive, because only then whatever comes will be an extra.
On Sunday, before you say goodbye to Compostela, I return to the Cathedral to attend the Mass. Already had been three times in Santiago and in none of them, celebrated the Mass, there was the Botafumeiro. This time, the opposite occurred, in all of them (and have been to several), I had the chance to watch this time! And it’s never over, it’s always moving.
At the end of the Mass, after Communion, I look to the side and see a familiar face. I hope to end the celebration and I will have with her, Martha, a friend of Porto, which over the Páscoandante asked me many things about the way, but did not know if he had the opportunity to visit it. Now he found her there, acabadinha arrived after a week in the Portuguese Way, that joy, for her, for their achievement and the reunion in a place so special!
Finally, a last reunion with a couple of friends, John and Dulce, who were kind enough to meet me and give Santiago a ride back to the port, plus an unexpected gift!

In previous times I came to Santiago, always made sure to go in a short time, for not wanting to get to sightsee. This time, neither I wanted me to be a tourist, but felt the need to stay a few extra days to digest everything before the return. I wandered the middle, spent long time in the Cathedral and on the stairs just to appreciate the Obradoiro Square, recalling the time in 2006 made me want to wander walk up there and try to feel a bit of those emotions he saw a group of young people t Yellow -SHIRTS just arrived, rested and lived with all the pilgrims who have been rediscovering, especially with Antoine. The time spent running, I could not do all that I had proposed, but for this, the time would always be insufficient.
I took my leave of Mr. S.Tiago with an even longer, he’ll know better than me when we will return to my return.

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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