Camino Sanabrés: 39. Ourense – Cea. Encontro de jovens / Youth meeting

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Etapa 39: Ourense – Cea (22,1 km)

Hoje é o dia de experimentar os novos sapatinhos e pelo menos uma coisa é certa, os pés molhados não voltarei a ter até ao fim! Yupi! Aconselharam-me a levar na mesma as sapatilhas velhas, dado que as novas ainda não estão adaptadas aos pés e quando sentir maior cansaço, posso ir trocando. Tento seguir o conselho, já que na teoria, faz sentido.

Na expectativa de ver como irá correr o dia, saímos os 4 do albergue rumo à Ponte Vella, de origem romana e cruzamos o último grande rio conhecido, o Minho. Logo aqui há que optar, pois há dois caminhos. Segundo o guia, um mais curto mas com uma subida mais inclinada e outro mais acessível. Opto pelo segundo, assim como todos os outros companheiros. Segue-se uma longa avenida que aos poucos nos vai afastando do centro da cidade e quando os rapazes vêm um café aberto, querem parar para o pequeno-almoço.

Esta meia-hora de caminhada foi suficiente para perceber que a mochila se tornava incomodativa pelo peso extra das sapatilhas (este tipo de calçado é pesado, mesmo com as solas gastas!). Por isso, enquanto eles tomam o pequeno-almoço, decido pegar nas minhas velhinhas companheiras de tantas aventuras e procurar um caixote do lixo. É um momento peculiar, quase que sinto que estou a abandoná-las ali no meio do vidrão e do papelão, já que a vontade era de guardar para recordação, mas, felizmente, o sentido prático aparece de imediato. “Guardar para quê?!” Neste momento preciso de menos peso às costas para caminhar melhor. Afasto-me em direcção ao café e 20 passos depois, atrás de mim oiço uma senhora a chamar com as minhas velhinas na mão “Niña, esqueceu-se das sapatilhas”. Agradeço a atenção, mas elas tinham ficado no sítio certo.

De volta ao caminho, depois de passar uma gasolineira, começamos a percorrer o Camiño Real. A partir daqui, durante quase 4 km é sempre a subir, nalgumas partes com um grau de inclinação exigente. Se, segundo o guia, este era o trajecto menos duro, não quero pensar como será o outro! Vale-nos estar uma manhã fresca porque o que nos espera é algo penoso, bom para despertar todos os músculos. Apesar do cansaço natural, até me sinto bem, estou animada pelo piso ser ascendente (só não precisava de tanta inclinação) e pelo novo calçado estar a corresponder ao esperado. Já no topo, a vista sobre Ourense dá-nos a real dimensão da cidade.

Um pouco mais à frente um marco de pedra indica-nos com tinta pintada que faltam 100km até Santiago (na verdade são 96,6, mas a placa indicativa foi retirada, aliás, como aconteceu em todos os outros marcos na zona da Galiza). Apesar de a minha contagem decrescente ter começado em Salamanca, os últimos 100km são simbólicos e aos poucos vai-se instalando a alegria de estar a chegar e a nostalgia do fim por tudo o que foi vivido.

Entre algumas casas, trilhos e alcatrão chegamos a Bouzas (13,1km) com direito a descanso num bar que serviu de ponto de encontro para todos os peregrinos. Quando me vêem perguntam que tal me estou a dar com as sapatilhas. Na verdade, elas adaptam-se bem, nesse aspecto não tenho razões de queixa, apesar de ser do senso comum que não se deve usar calçado novo. Mas há um “detalhe”, como passei muito tempo com as sapatilhas antigas, o corpo humano que é absolutamente magnífico na forma como se adapta constantemente ao ambiente, nos últimos tempos criou uma nova sola nos meus pés que à mínima fricção causam dor. A solução ideal seria ter umas palmilhas adaptadas, a solução possível é continuar a andar para chegar a Santiago. Como forma de aliviar os pés, a cada paragem vou tirando os sapatos, dar espaço para respirarem e não estarem tão comprimidos, o que ajuda no recomeço de cada caminhada. O Gordon pergunta-me se está tudo bem. “O melhor é nem perguntar nada.”

O tramo que se segue é bonito, primeiro num trilho entre muitas flores, depois no bosque entre árvores e com uma sombra muito apreciada. Encontramos algumas famílias a aproveitarem para passear por ali, é de facto muito agradável. Cruzamos uma ponte de pedra dos séculos XIII ou XIV e atravessamos uma mini aldeia de casas abandonadas faz muito, muito tempo.

A quase 4km do fim voltamo-nos a reunir os 4, mas logo o Gordon e o Antonio se distanciam e continuo apenas com a Krystyna. Decidimos abrandar, nenhuma das duas está em grande forma e já falta pouquinho para o final. Na pequena povoação de Viduedo, junto à igreja, e no meio dum pequenino mas bonito jardim, está uma estátua de Nossa Senhora de Fátima com os três pastorinhos. É tão bom ir encontrando referências conhecidas de vez em quando!

Agora chegamos a Casasnovas e apesar de estarmos a apenas 2 km do fim, tenho vontade de ir à casa-de-banho e beber algo bem fresco, pois hoje o dia está muito quente! Indicam-nos um bar à beira da Nacional 525 após um pequeno desvio. O dito bar é escuro, pouco arejado e não parece muito asseado, quando vejo o WC desisto da ideia de o utilizar, mas ainda assim arriscamos em beber algo. Sentamo-nos na rua e tentamo-nos abstrair da limpeza, é urgente refrescar!

A chegada a Cea foi tranquila, rumamos logo para o albergue e estranhamos não ver nenhum dos rapazes por ali, nem na lista de chegadas. Tento telefonar, nenhum deles atende, é no mínimo estranho. Terá acontecido alguma coisa? O único consolo é saber que pelo menos estão os dois, portanto se tiver acontecido algo, o outro dará apoio.

Arrumamos as coisas e vamos ao centro almoçar, encontrando pelo caminho o Alessandro que nos faz companhia. Os rapazes ligam, vêm almoçar connosco. “Então, mas está tudo bem?” Está, decidiram ficar numa casa rural uns 3km antes de Cea, pelos vistos tinham referido isso na última conversa, mas nenhuma de nós compreendeu. Preocupação desnecessária.

Depois do almoço fico um pouco com eles no centro, mas assim que têm boleia de regresso a casa, aproveitam-na e eu volto ao albergue. Chega a Sandrine e o Marco, estou curiosa para saber como correu o seu primeiro dia, ainda para mais com um início tão exigente. Está a gostar, é tudo novidade ainda, mas gosta do espírito que se vive por aqui.

A malta jovem ruma à praça central para conviver e perguntam-me se não me quero juntar. Claro, aproveitar que o tempo está a chegar ao fim! É a mesa mais jovem de sempre desde Sevilha: Luís (espanhol), Manuela (alemã), Sandrine (belga), Marco (italiano), Alberto (espanhol), Daniela (brasileira), Daniel (dinamarquês) e Monique (canadense), a menos jovem em idade, mas de espírito ninguém a bate. Conforme a tarde foi passando, mais mesas e cadeiras foram sendo adicionadas e quase todo o albergue se juntou ali. Entre alguns copos, música alta, muito disparate, conversas e boa disposição, passou-se a tarde. Os festeiros continuaram pelo anoitecer fora, eu confesso, que ao fim de 900km de paz e sossego, a música, principalmente a música alta, já era ruído a mais e com a medida certa volto para o albergue.

Antes de me deitar, ao me despedir da Monique que estava já deitada a ler qualquer coisa, faz-me sinal com a mão para me sentar na sua cama, um gesto inesperado, mas familiar de convite para um último momento. Estivemos uma meia-hora a falar sobre nada em especial, mas o seu ar maternal naquelo bocadinho encheu-me a alma e fui dormir mais confortada.

A “juventude” chegou mais tarde, mesmo em cima da hora de encerramento do albergue, muito animados, em cantorias, o que gerou alguns “Xiuuuu” de peregrinos que já dormiam. É certo que não respeitaram o silêncio, mas hoje tinha sido uma excepção. Na infinita paciência da Monique justicaria esta noite como sendo a noção da aproximação do fim do caminho, a necessidade de festejar o facto de estarem todos juntos, pois as despedidas começariam em breve (uns chegam a Santiago e vão embora no próprio dia, outros seguem para Finisterra e outros vão fazer etapas diferentes até ao fim) e a necessidade de exterirozar toda esta confusão de sentimentos. Faz todo o sentido.

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

Stage 39: Ourense – Cea (22,1 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 Today is the day to try new shoes and at least one thing is certain, wet feet do not come back to get to the end! Yup! They advised me to take the same old sneakers, as new are not adapted to toe and when you feel most tired, I can go changing. I try to follow the advice, since in theory it makes sense.
In anticipation to see how it will run the day we left the 4 hostel towards Ponte Vella, of Roman origin and crossed the last great river known, the Minho. Logo here to choose as there are two paths. According to the guide, a shorter but with a steeper rise and other more affordable. Opto for the second, and all other companions. A long avenue It follows that we will gradually away from the city center and when the boys have a café open, want to stop for breakfast.
This half-hour walk was enough to realize that the backpack became annoying the extra weight sneakers (this type of footwear is heavy, even with worn soles!). So while they make breakfast, get on my little old ladies decide companions of many adventures and look for a trash can. It is a peculiar moment almost feel like I’m there to give them up in the middle of the bottle bank and cardboard, since the will was saving to memory, but fortunately the practicality appears immediately. “Save for what ?!” Right now less weight on his back to walk better. I walk away towards the coffee and then 20 steps behind me I hear a woman calling with my velhinas in hand “Niña, forgot Sneakers”. I appreciate the attention, but they had been in the right place.
Back to the path, after passing a petrol station, we begin to walk the Camino Real. From here, for almost 4 km is always going up, some parts with a degree of demanding slope. If, according to the guide, this was the least hard path, I will not want to think like the other! Vale us to be a cool morning because what awaits us is something painful, good to wake up every muscle. Despite the natural fatigue, to feel good, I’m excited by the floor upward (just do not need as much inclination) and the new footwear to be as you expected. Already at the top, the view of Ourense give us the real dimension of the city.
A little further on a stone in March shows us painted with paint missing 100km to Santiago (are actually 96.6, but the indicative sign was removed, by the way, as in all other landmarks in the area of Galicia). Despite my countdown has begun in Salamanca, the last 100km are symbolic and gradually will be installing the joy of being to arrive and the nostalgia of the end for what was experienced.
Between some houses, rails and tar arrived at Bouzas (13,1km) with the right to rest in a bar that served as a meeting point for all pilgrims. When they see me they ask that such’m giving with sneakers. In fact, they adapt well in this respect have no reason to complain, despite being common sense that you should not wear new shoes. But there is one “detail” as spent much time with the old sneakers, the human body is absolutely magnificent in the way that constantly adapts to the environment, recently created a new soles on my feet than the minimum friction cause pain. The ideal solution would be to have a tailored insoles, a possible solution is to continue walking to reach Santiago. In order to relieve feet, each stop will taking off their shoes, make room for breathing and not be as tablets, which helps in the beginning of each walk. Gordon asks me if it’s okay. “It is best to not ask.”
The following stretch is beautiful, first on a rail between many flowers, then in the woods between trees and with a shadow greatly appreciated. We found some families to take advantage to stroll around, is very nice indeed. We crossed a stone bridge the centuries XIII or XIV and cross a mini village of abandoned houses a long, long time.
Almost 4km from the end we turn to gather 4, but soon the Gordon and Antonio move away and continue only with the Krystyna. We decided to slow down, neither is in great shape and already missing little towards the end. In the small village of Viduedo, next to the church, and among a very small but beautiful garden is a statue of Our Lady of Fatima to the three little shepherds. It’s so nice to go finding known references from time to time!
Now we come to Casasnovas and although we are just 2 km from the end, I want to go to the house-of-bath and drink something pretty cool, because today the day is too hot! They show us a bar by the National 525 after a short detour. Said bar is dark, poorly ventilated and does not look very clean when I see the WC give up the idea of using it, yet we risk drinking something. We sat on the street and try us abstract cleaning, it is urgent refreshing!
The arrival in Cea was quiet, then we headed to the hostel and wonder at not see any of the guys there, not in the arrivals list. I try to call, none of them meets, it is at least strange. Will something happened? The only consolation is knowing that at least they’re both so if something happened, the other will support.
We arrange things and go to the center for lunch, finding the way Alessandro makes us company. The boys connect, come have lunch with us. “So, that’s okay?” It is, decided to stay in a cottage about 3km before Cea, apparently had said that the last conversation, but neither of us understood. Concern unnecessary.
After lunch I get a little with them in the center but so have return ride home, enjoy it and I return to the hostel. Reaches Sandrine and Marco, I’m curious to know how was your first day, even more so with a start so demanding. Having fun, it’s all still new, but like the spirit that lives here.
The young guys heads the central square to mingle and ask me if do not want to join. Of course, take advantage of that time is coming to an end! It is the youngest usual table from Seville: Luis (Spanish), Manuela (German), Sandrine (Belgium), Marco (Italian), Alberto (Spanish), Daniela (Brazil), Daniel (Danish) and Monique (canadiense) unless young in age, but of mind no one hits. As the afternoon wore on, more tables and chairs were being added and most of the hostel joined there. Among some glasses, loud music, very nonsense, conversation and good mood, it moved the afternoon. The revelers continued the evening off, I confess, that after 900km of peace and quiet, the music, especially loud music, it was the most noise and with the right measure back to the hostel.
Before going to bed, to say goodbye to Monique who was already lying to read anything, makes me sign with his hand to sit on his bed, an unexpected gesture, but familiar invitation for one last time. We were a half-hour talking about nothing in particular, but his maternal naquelo little air filled my soul and went to bed comforted.
The “youth” came later, even on the hostel closing time, very excited, in singing, which led to some “Xiuuuu” of pilgrims who were already asleep. Certainly they did not respect the silence, but today was an exception. In the infinite patience of Monique justicaria tonight as the notion of the approaching end of the road, the need to celebrate the fact that they are all together, for the farewells begin soon (some arrive to Santiago and leave the same day, others follow for Finisterre and others will do different steps all the way) and the need for exterirozar all this confusion of feelings. It makes perfect sense.

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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2 thoughts on “Camino Sanabrés: 39. Ourense – Cea. Encontro de jovens / Youth meeting

  1. É tão bom ler os seus textos… esta última parte emocionou-me (!) a despedida é transversal a todos os caminhos independente da sua duração. Já falta pouco… como dizia um brasileiro que encontrei: Santiago tamo indo

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