Camino Sanabrés: 38. Xunqueira de Ambía – Ourense. A vaidosa! / So vain!

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Etapa 38: Xunqueira de Ambía – Ourense (22 km)

Ontem quando chegamos ao albergue, já havia poucas camas disponíveis e acabamos por ficar num quarto de 4 lugares, espaço destinado a pessoas com necessidades especiais. O quarto, embora mais privado, não tem a parede divisória completa até ao tecto, portanto compartilhamos os ruídos da camarata mesmo ao lado. Assim, quando os madrugadores despertam e alguém decide acender as luzes, também nós despertamos involuntariamente. Arrumo as coisas e vou até à cozinha comer o meu iogurte antes de sairmos. Encontro o Daniel, com cara ensonada, àquela hora é demasiado cedo para o seu sistema funcionar. “Então, dormiste na rua?” Ontem à noite, por precaução, ele tinha colocado um saco-cama na rua, pois tencionava ir até ao centro da povoação conviver um pouco e, como sempre, não tinha hora de regresso. Para não o correr risco de ficar no exterior ao frio, já tem esta artimanha apurada desde que começou em Sevilha. É um noctívago convicto e à conta destes serões com as pessoas locais nos bares tem histórias divertidas para contar. Não, esta noite também teve sorte e não dormiu no exterior, ficou no pavilhão ao lado, mas como os peregrinos que lá ficaram também já estavam de saída, veio para o albergue aproveitar a cama, que sempre é mais confortável.

Hoje estamos novamente quatro a caminhar juntos, mas em vez da companhia da Krystyna, temos a da Sandrine. Aproveitamos, pois assim que chegar a Ourense teremos menos contacto com ela, já que o namorado chega hoje para fazerem a última parte do trajecto juntos. Acho bonito o seu gesto, apesar de não ter tanta disponibilidade de tempo para tirar férias, ao menos quis experimentar um pouco do que é o caminho para compreender a experiência vivida por ela.

As pequenas povoações sucedem-se, nem sempre é perceptível em qual estamos, pois saímos de uma e já estamos noutra, mas algures perto de Penelas (8,7 km), paramos num bar. Aliás, todos os peregrinos pararam ali!

Depois do estômago confortado, seguimos caminho e por algum tempo sigo lado a lado com a Sandrine (que faz o favor de ir mais devagar para me acompanhar). A sua história suscita-me interesse, é cristã, mas converteu-se já em idade adulta, o que suscitou alguma surpresa no seio da sua família. Gosto do fervor, da convicção, do percurso feito por ela um pouco contra a corrente, no fundo, bem diferente do meu. A certa altura digo-lhe que sou “má cristã”, pelas incertezas, pelas quedas, pelas dificuldades. “Luisa, isso é fazer caminho e ser cristão é fazer caminho, não é um dado adquirido.” Palavras simples que transformam um momento banal em epifania e ecoam até hoje na minha memória.

Voltamos a fazer uma mini-pausa, sentados numas escadas de um prédio, algures em Reboredo (15,4km). Não pedi, mas o Antonio notou que estava em maiores dificuldades (hoje o percurso é descendente, o pior para caminhar por todas as maleitas acumuladas) e sugere que paremos, com anuição geral. Na verdade, hoje a etapa é curta, maioritariamente por estrada (ou seja, piso regular), não temos pressa de chegar ao final e mesmo com todos os atrasos, chegaremos a tempo da Sandrine esperar pelo Marco na estação. Está tudo controlado!

Depois de uma rodada de chocolate, voltamos ao caminho. É pouco interessante, mas já sabíamos que assim seria ou não estívessemos a atravessar os arredores de uma grande cidade, Ourense, a última antes de chegarmos a Santiago. Desta feita sigo com o Antonio, uma longa conversa sobre nada que prossegue sobre tudo. Ele é um comunicador nato, facilmente empatiza com os outros e, por isso, as pessoas partilham com ele as suas histórias num tão curto espaço de tempo, mas quando toca a falar dele próprio, a conversa é outra. Já caminhamos há muito tempo, falamos muito, mas os momentos de partilha com ele são uma verdadeira conquista e hoje, tive mais um desses presentes. :) Mas a curiosidade é mútua, neste aspecto, somos parecidos. “Não sei porque vieste fazer o caminho, mas nota-se que para ti não é um simples passeio, há qualquer coisa de maior que te faz continuar a andar ainda que nessas condições.” Pois há, Antonio, pois há! :)

Chegamos a Seixalbo (18,2 km), encontramos um bar e decidimos parar novamente. Definitivamente hoje estamos mandriões ou então, só queremos mesmo disfrutar um pouco mais da companhia da Sandrine. Para o Gordon, será a última vez que estão juntos, para mim e o Antonio, ainda temos encontro marcado em Santiago, vantagens de se ficar uns dias extra por lá!

Finalmente em Ourense despedimo-nos da Sandrine e procuramos o albergue. Quando chegamos, ainda temos de esperar, pois a abertura do mesmo é daí a meia-hora e, penso que pela primeira vez desde Sevilha, temos de fazer fila (de mochilas). No Caminho Francês (e mesmo no Português, mais na parte espanhola) isto é uma constante, mas aqui (ainda) não. Há algumas caras novas, mas a maioria dos peregrinos são conhecidos, o que dá sempre um ar mais familiar à estadia.

Assim que pousamos as coisas, decidimos ir ao centro almoçar e dar uma volta. Os rapazes querem aproveitar a permamnência na cidade para irem às tão afamadas termas. Ai deles que não aproveitem, já que nos últimos tempos só falam disso!
Visitamos a Catedral de San Martiño, percorremos as ruas do centro histórico, tudo tão cuidado e limpo, passamos pelo mercado, agora já quase a fechar e por Las Burgas, as fontes de águas termais a 67 graus de temperatura. O Gordon duvida que esteja tão quente e decide meter a mão, escaldou-se, claro! Voltamos à Plaza de la Magdalena donde partem os comboios turísticos para as termas  e depois deles irem embora numa animação tal, rumo sem pressa em direcção ao albergue. As ruas estão vazias, é hora da siesta, apenas nalguns pontos continuam alguns pintores com os seus cavaletes a dar destaque a algum pormenor da cidade. Está a decorrer um concurso de pintura e os trabalhos têm de ser entregues até ao final da tarde. Vou passando por alguns e observando os seus trabalhos, é interessante a inciativa.

Aproveito a tarde para descansar, ir ao supermercado, lavar a roupa e visitar o fabuloso Claustro de San Francisco, paredes meias com o albergue, gratuito e que vale mesmo a pena a visita!

Pergunto ao hospitaleiro por lojas de desporto, é a minha última oportunidade de arranjar um calçado decente. Ele arranja-me um mapa, assinala a maior loja especializada ali nas proximidades ou outra mais distante no centro comercial. Decido arriscar a que fica mais perto, pois o horário de funcionamento é mais limitado. Quando saio do albergue, só tenho meia hora até a loja fechar (atrasei-me demasiado devido às máquinas de lavar e secar e como estava responsável também por alguma roupa dos rapazes, não tinha como sair mais cedo). Bom, vou de mapa na mão, no passo mais acelerado que consigo, mas acabo mesmo é por ir perguntando às pessoas pelas indicações, bem mais fácil do que tentar decifrar o mapa (nem todas as ruas estão bem sinalizadas). Chego à loja, faltam 10 minutos para fechar. Não há muita escolha por ali para calçado de caminhadas e para o meu número só há um último par. Rosa?! Bom, que seja! É confortável, adapta-se bem aos pés, o preço é razoável, está decidido! Não me lembro de alguma vez ter comprado umas sapatilhas tão depressa. Já as levo calçadas para começar a habituá-las aos pés.

Encontro-me com o Gordon, tinham chegado há pouco das termas. O Antonio tem a visita de uns primos que andavam por ali perto e nós vamos a um café. Está super zen e maravilhado com as termas! Quando vê o meu novo calçado, fica contente, “finalmente!”. Aliás, a chegada ao albergue é uma alegria partilhada com muitos dos peregrinos que me perguntavam sempre para quando umas novas sapatilhas. Procuro primeiro pelo Michel, foi o que mais tentou resolver a situação, depois pelos dois amigos espanhóis que resgataram a minha sapatilha perdida em Asturianos e todos os outros. Nunca me senti tão materialista ao longo deste caminho, mas, de facto, isto não é um luxo, mas um bem de primeira necessidade (vá, de segunda).

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

Stage 38: Xunqueira de Ambía – Ourense (22 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 Yesterday when we got to the hostel, there were few beds available and we ended up staying in a room of 4 beds, space for people with special needs. The room, though more private, do not have the full partition wall to the ceiling, so we share the noises of the dormitory next door. So when the early birds awaken and someone decides to turn on the lights, we also wake up involuntarily. Tidy things and go into the kitchen eating my yogurt before we left. Against Daniel, with sleepy face, that time is too early for your system work. “So you slept on the street?” Last night, as a precaution, he had put a sleeping bag on the street, as intended to go to the center of the village live a little and, as usual, had no time to return. Not to be at risk of being outside in the cold, already has this trick accurate since it began in Seville. It is a nocturnal convinced and the account of these evenings with local people in bars have funny stories to tell. No, this evening also was lucky and did not sleep outside, stood in the pavilion next door, but as the pilgrims who were there also were already out, came to the hostel take the bed, which is always more comfortable.
Today we are again four to walk together, but instead of Krystyna company, we have the Sandrine. We take, as soon as you get to Ourense we will have less contact with her since her boyfriend arrives today to do the last part of the journey together. I think your beautiful gesture, despite not having much available time to take a vacation at least wanted to try a little of what is the way to understand the experience for her.
Small towns succeed, it’s not always noticeable in which we are, as we left over and we are already in another, but somewhere near Penelas (8.7 km), we stopped at a bar. Incidentally, all the pilgrims stopped there!
After comforted stomach, followed path and for awhile follow side by side with Sandrine (which makes you please slow down to follow me). Their story raises interest me, a Christian, but has converted it into adulthood, which caused some surprise within his family. Like fervor, the conviction, the route taken by it a little against the current, deep, very different from mine. At one point I tell you that I am Christian “bad”, the uncertainties, the falls, the difficulties. “Luisa, this is to make way and be a Christian is to make way, is not a given.” Simple words that turn a banal moment epiphany and echo today in my memory.
Again make a mini break, sitting on a ladder of a building somewhere in Reboredo (15,4km). I did not ask, but Antonio noticed he was in great difficulties (now the route is down, the worst to walk by all the accumulated ills) and suggests that we stop with general anuição. In fact, today the stage is short, mainly by road (ie regular floor), we do not rush to get to the end and even with the delays, will arrive in time for Sandrine wait for Marco at the station. It’s all controlled!
After a round of chocolate, we return to the path. It is somewhat interesting, but we knew that would be so whether or not we were going through the outskirts of a big city, Ourense, the last before we get to Santiago. Following this time with Antonio, a long conversation about nothing goes about everything. He is a born communicator, easily empathize with others and therefore people share with him their stories in such a short space of time, but when it comes to talk of himself, the conversation is another. We have come a long time, talked a lot, but the moments of sharing with him is a real achievement and today I had another one of those present. :) But curiosity is mutual, in this respect, are similar. “I do not know why you came to the road, but it is noted that for you is not a simple walk, there is something more that makes you keep moving even in these conditions.” For there, Antonio, as there! :)
We reached Seixalbo (18.2 km), we find a bar and decided to stop again. Definitely today we are idlers or so just really want to enjoy a little more of Sandrine company. For Gordon, will be the last time we are together, for me and Antonio, we still have an appointment in Santiago, advantages of staying an extra day there!
Finally in Ourense said goodbye to the Sandrine and seek the hostel. When we arrived, we still have to wait because the opening of the same is there a half-hour, I think the first time since Seville, we have to queue (backpacks). In the French Way (and even the Portuguese, the Spanish most part) it is a constant, but here (yet). There are some new faces, but most pilgrims are known, which always gives a more familiar air to stay.
Once we landed the things we decided to go to the center for lunch and a walk. The boys want to enjoy the permamnência in town to go to such famed spa. Woe to them who do not enjoy, as in recent times only talk about it!
We visited the Cathedral of San Martiño, traveled the streets of the historic center, all so carefully and clean, go through the market, now about to close and Las Burgas, the hot springs at 67 degrees temperature. Gordon doubt that is so hot and decides to put the hand, if scalded-of course! We return to Plaza de la Magdalena where depart the tourist train to the spa and then they went away in an animation such unhurried way towards the hostel. The streets are empty, it’s time for siesta, only some points are still some artists with their easels to give prominence to some detail of the city. It is running a painting competition and the work must be delivered by the end of the afternoon. I’m going through some and observing their work, it is interesting the initiative.
I take the afternoon to rest, go to the supermarket, laundry and visit the fabulous Cloister of San Francisco, half walls with the hostel free and really worth the visit!
Ask the hospitable for sports shops, it’s my last chance to get a decent footwear. He get me a map, marks the largest specialist shop near there or another farther into the shopping center. I decide to risk that is closer because the hours are more limited. When I leave the hostel, I have only half an hour before the store closes (delayed me too due to washing machines and dryers and how was also responsible for some clothing boys could not leave early). Well, I’ll map in hand, at the fastest pace I can, but I just it is to go asking people for directions, much easier than trying to decipher the map (not all roads are well signposted). I come to the store, missing 10 minutes to close. There is not much choice around to hiking shoes and my number there is only one last pair. Pink ?! Well, it is! It’s comfortable, it adapts well to foot, the price is reasonable, it is decided! I do not remember ever having bought some shoes so quickly. Already I take the sidewalks to get to habituate them to toe.
I find myself with Gordon, they had arrived just the spa. Antonio has a visit from some cousins who walked by nearby and we go to a cafe. It is super zen and marveled at the spa! When you see my new shoes, I am pleased, “Finally!”. Indeed, the arrival at the hostel is a shared joy with many of the pilgrims who asked me forever when some new shoes. Seeking first the Michel, he was the most tried to resolve the situation, then by two Spanish friends who rescued my sneaker lost in Asturianos and everyone else. I never felt so materialistic along this path, but in fact this is not a luxury but a basic necessity (well, in a second level).

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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