Camino Sanabrés: 37. Laza – Xunqueira de Ambía. Tudo o que sobe, desce! / What goes up, comes down!

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Etapa 37: Laza – Xunqueira de Ambía (33,2 km)

Hoje de manhã, antes de sair do albergue, despeço-me do Loïc e da Armel e peço para tirar uma foto, embora ainda estejamos um pouco ensonados. A Armel não se tem sentindo muito bem duma perna nos últimos dias e para não piorar, decidem abrandar o ritmo e fazer etapas mais curtas. Eles pretendem não parar em Santiago, mas seguir até Finisterra, pois moram na Bretanha (França) perto da outra Finisterra e, assim, vão de Finisterra a Finisterra, num acto simbólico.

Saímos do albergue à hora combinada (um ponto a favor entre nós é que somos todos pontuais e ninguém tem de esperar por ninguém, aliás, se assim não fosse, dificilmente teríamos continuado a sair diariamente em grupo) e percorremos os primeiros 4 km em conjunto até Soutelo Verde. Antes de chegar a esta pequena povoação, cruzamos uma vez mais um rio conhecido, desta feita, o Tâmega!

Aqui separamo-nos, o Antonio e a Krystyna seguem pelo trilho para verificarem o estado do mesmo, eu e o Gordon seguimos pela estrada. Mais à frente, em Tamicelas (6,9 km), voltamo-nos a encontrar todos. Na verdade, estivemos quase sempre perto, pois o trilho é paralelo à estrada. Desta vez, o Gordon decide ir também pelo meio da natureza e eu sigo sozinha pela estrada. Tal como nos dias anteriores, além da lama, o guia aponta para algumas partes que poderão ser mais difíceis “uma ladeira empinada” e “desnível constante”. Como não posso forçar muito a perna, opto pela estrada que embora seja um pouco menos directa, com curva e contra-curva, pelo menos permite-me manter um passo constante e sem tanto esforço. O reencontro fica marcado algures em Albergueria.

Esta etapa é simplesmente magnífica!!! Primeiro é sempre a subir durante 5,3 km (ganhando quase 400m de altitude), portanto estou muito mais confortável ao caminhar, depois está bem fresco a roçar o frio, mas não chega a tanto, até porque o sol começa a despontar, a paisagem é fenomenal, as árvores, as flores, os contrastes das cores e o odor, cheira tão bem! Perco-me um pouco entre fotografiass e paragens para apreciar aquele cenário enquanto recupero o fôlego e não perco a atenção da estrada, pois há curvas fechadas e com pouca visibilidade, mas, felizmente, há muito poucos condutores a esta hora.
Conforme vou ganhando altitude, é bonito ir vendo o vale cada vez mais lá em baixo e o sol a aparecer no horizonte dando um brilho extra ao que já é belo por si próprio. O Criador esteve inspirado nesta zona!
A certa altura passa um peregrino em bicicleta. Se já não é fácil subir a pé, então em bicicleta parece-me um esforço hercúleo e aceno-lhe “Ânimo! Ya falta menos!” Ele sorri, mas não se desconcentra, seria a morte do artista. :)

O caminho torna-se menos inclinado, vejo uma carrinha parada na berma da estrada e pergunto se ainda falta muito até Albergueria, pois a descrição do guia corresponde ao trilho e ali não tenho nada que me ajude a identificar em que parte da etapa estou. Poderia controlar pelo tempo, mas esse não é muito fiável pelo meu andamento mais espaçado nas subidas. O senhor diz-me que em 10 minutos, “nem tanto”, estarei lá. “A sério? Que maravilha!” Ganho novo fôlego, mas os 10 minutos transformam-se em 20, em 30, em 40. Penso que ele se referia a ir de carro ou de motoreta. Chego à conclusão, agora que estou quase a chegar a Santiago, de que não vale a pena perguntar às pessoas se está quase, se o caminho está bem sinalizado, se é seguro, etc., porque a quase totalidade delas nunca fez este caminho. Por vezes conhecem apenas o troço até às suas terras ou algo ali perto para um passeio, mas muitos nem sabem por onde passa o caminho, apesar de diariamente (pelo menos na época alta) passarem peregrinos com mochila às costas. Parece não haver grande interesse em pelo menos se informarem sobre o que fazem aqueles tolos por ali e poder ajudar com alguma dica.

Chegada a Albergueria, à entrada do primeiro bar (que é um local simbólico no Caminho Sanabrês), El Rincón del Peregrino, reconheço a mochila do Michel e deixo a minha ao lado, para que os meus companheiros a vejam quando chegarem. As paredes do bar estão “forradas” com vieiras assinadas por quem cá passa. Como, nesta altura, já não há espaço disponível, as vieiras são colocadas nas paredes do albergue (mas este não cheguei a visitar). Além do Michel, reencontro o Daniel, um moço dinamarquês, de vinte e poucos anos, que em Zamora fez o favor de trocar comigo do colchão de baixo do beliche, para o das alturas. Ele pernoitou aqui, toma calmamente o seu pequeno-almoço, não gosta de madrugar e anda ao sabor do vento. Diz que raramente anda acompanhado, é um espírito livre que gosta mesmo é de estar só. Não fala muito, embora seja um bem-disposto e nem se agarra muito a ninguém, definitivamente faz o seu caminho.

Finalmente chegam a Krystyna, o Antonio e o Gordon! É tão bom quando chego primeiro, pois permite-me fazer uma pausa decente! :)

Saímos todos e como já dizia alguém, “tudo o que sobe, desce”, portanto não tarda a que tenhamos de começar a descer e perdemos muita altitude num curto espaço de tempo, o que para os joelhos, pés e pernas maltratadas, não é o ideal. A Krystyna também se ressente bastante na descida, chego mesmo a ficar preocupada, pois ainda não a tinha visto assim nestas condições menos boas. Faz-me sinal para avançar, ela irá mais devagar. Ainda resisto, mas também quando sou eu não gosto de sentir pressão, por isso avanço sempre a olhar para trás a ver se está bem, até que me distancio um pouco.
Esta parte da etapa é também líndissima, entre trilhos no bosque e mais árvores e arbustos e flores e a povoação ali em baixo à nossa espera! É simplesmente lindo!

Em Vilar de Barrio (19,3 km) voltamo-nos a reunir num bar, estamos tantos! Além de nós, o Alessandro (italiano), Daniel, Michel, Daniela e Sandrine. A Krystyna decide terminar a etapa por aqui, não se sente em condições de prosseguir, trocamos contactos, pelo menos em Santiago nos voltaremos a encontrar!

Agora o caminho é mais plano, mas embora ainda com vegetação, torna-se monótono pelas longas rectas, o sol abrasador e a paisagem sempre idêntica. A certa altura o que se destaca mesmo ao longe, é o ruído feito pelo porcos numa quinta e o cheiro nauseabundo! Tento acelerar o passo, mas o cheiro alastra-se por toda aquela zona, um quilómetro antes e um quilómetro depois de passar a quinta, é impressionante!

Em Padroso, a menos de 4 km do fim, procuramos desesperadamente por um bar, é urgente beber algo fresco! Encontramos um, muito simples, que parece já ter tido melhores dias. A mobília está gasta, os azulejos nas paredes são de outra geração, tem pouco stock, talvez apenas o preferido dos clientes daquela pequena povoação. A senhora recebe-nos muito bem, mas tem uma mobilidade muito reduzida e acabamos por sermos nós a ir buscar as coisas ao balcão, a fazer-nos de casa e estender-lhe uma cadeira para que se sente connosco. O Antonio tem dom para em pouco temp  tirar o melhor da história de vida de cada um e, desta vez, não foi diferente. Uma vida marcada por dificuldades agora acrescidas pela sua saúde debilitada e do marido. Fica contente por nos ter ali, por ter alguém com quem falar um pouco e é com carinho que nos despedimos. “Somos uns sortudos por podermos caminhar, embora todas as dificuldades, o cansaço e o calor, pelo menos podemos ter uma mochila às costas e saúde para caminhar.”

Continuamos por mais um trilho, novamente a subir, a subir. De repente olho para a frente e vejo o Gordon ao fundo, parado, a olhar para uma rocha e a falar sozinho. “Hmm, estará bem?” Aproximo-me devagar, não quero interromper nenhum momento e assim que chego perto dele, vejo que a Sandrine está sentada algures no topo da rocha. Sem dúvida que dali tem uma vista privilegiada sobre os arredores. Decide descer e acompanhar-nos até Xunqueira de Ambía.

Pontos finais: A nota feita acima no texto sobre o desinteresse das pessoas que moram ao longo do caminho, infelizmente, não é apenas na Via de la Plata, mas um pouco por todos (talvez com maior excepção no Francês, pela massificação do mesmo). Não vai longe o tempo em que se pensava que as setas serviam para assinalar casas para os assaltantes lá irem direitinhos. Ou pessoas que juram nunca terem visto setas amarelas em lado nenhum, como por exemplo, na Rua de Cedofeita, no Porto, em que o que há mais por ali, são setas pintadas (ao ponto de serem ruído visual). Ou alguém achar que sou louca quanda digo que é possível atravessar o país seguindo apenas setas que estão por todo o lado. Enfim, é certo que quem não está sensibilizado para o tema, estes sinais passam despercebidos, principalmente nas grandes cidades. Mas, nas pequenas povoações, algumas delas que apenas resistem porque os peregrinos continuam a lá passar, não custava ter algum interesse para saber dar indicações. Pelo menos algo do género “eu não sei onde passa o caminho, mas vejo as pessoas seguirem por ali”, em vez de um simples “não sei”. Ainda hoje falei com um amigo que está no Caminho do Interior e ele sublinhava tudo isto. Há um par de anos foi anunciado que o caminho tinha sido marcado e foram criados albergues, saíram notícias em todo o lado pelo grande feito, mas hoje, pouco tempo volvido, a sinalização é escassa, ninguém sabe dar indicações, não há infra-estruturas de apoio ao peregrino, fontes, manutenção, etc. Ainda não se percebeu toda a potencialidade  que os caminhos podem ter a nível do desenvolvimento de uma povoação, de uma cidade, de um país. Ficamos todos a perder!

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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Stage 37: Laza – Xunqueira de Ambía (33,2 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 This morning, before leaving the hostel, I say farewell Loïc and Armel and ask to take a photo, although we are still a bit sleepy. The Armel has not feeling very well of a leg in recent days and not worse, decide to slow down and make shorter stages. They do not intend to stop in Santiago, but follow up Finisterra because they live in Brittany (France) near the other Finisterre and thus range from the Finisterre Finisterre, in a symbolic act.
We left the hostel at the appointed time (a point in favor of us is that we are all off and no one has to wait for anyone, by the way, if it were otherwise, we would hardly continued to go out every day in group) and go through the first 4 km along to Soutelo Verde. Before coming to this small town, we crossed again a well-known river, this time, the Tamega!
Here we part, Antonio and Krystyna follow the trail to check the status of it, me and Gordon follow the road. Later in Tamicelas (6.9 km), we turn to find everyone. In fact, we were almost always close because the rail is parallel to the road. This time, Gordon decided to also go through the nature and I follow the road alone. As in previous days, besides the mud, the guide points out some parts that may be harder a “steep slope” and “constant gap.” How much can not force the leg, opt for the road although it is a little less direct, with curve and counter-curve, at least it allows me to keep a steady pace and without much effort. The reunion is scheduled sometime in Albergueria.
This step is simply magnificent !!! First is always going up for 5.3 km (winning almost 400m altitude), so I’m much more comfortable when walking, then it’s pretty cool to skim the cold, but not enough to both, because the sun begins to emerge, the landscape is phenomenal, the trees, the flowers, the contrasts of color and odor, smells so good! I get lost a bit of fotografiass and stops to enjoy that scenery as I recover my breath and not lose the attention from the road as there are closed and with little visibility curves, but fortunately there are very few drivers at this time.
As will gaining altitude, it is beautiful to go see the valley more and more down there and the sun appeared on the horizon give an extra sparkle to what is already beautiful on its own. The Creator was inspired in this area!
At one point passing a pilgrim in cycling. If it is no longer easy to climb on foot, then by bike seems a Herculean effort and nod her “Courage! Ya lack less! “He smiles, but it disconcentrates, would be the death of the artist. :)
The path becomes less likely, I see a truck stop on the roadside and wonder if there is still much to Albergaria, for the guidance of the description corresponds to the rail and there have nothing to help me identify where part of the stage I am. I could control the time, but this is not very reliable for my progress more spaced uphill. You tell me in 10 minutes, “not so much”, will be there. “Really? How wonderful! “Gain new life, but the 10 minutes become 20, 30, at 40. I think he meant to go by car or scooter. I conclude now that I’m about to get to Santiago, that is not worth asking people if it is almost, the path is well marked, it is safe, etc., because almost all of them never made this way. Sometimes only know the thing up to their lands or something nearby for a walk, but many do not know where to spend the way, despite daily (at least in high season) passing pilgrims with backpackers. There seems to be great interest in at least be informed about what they do those fools around and be able to help with any tips.
Albergaria arrival at the entrance of the first bar (which is a symbolic place in Sanabrês Path), El Rincón del Peregrino, I recognize the backpack Michel and let my next door, so my teammates to see when they arrive. The walls of the bar are “lined” with scallops signed by anyone here goes. As at this time there is no space available, the scallops are placed on the walls of the hostel (but this did not get to visit). Besides Michel, reunion Daniel, a Danish boy, twenty-somethings, who in Zamora made the favor to exchange with me the bottom bunk mattress to the Heights. He spent the night here, quietly take your breakfast, do not like to get up early and walk the wind. He says walking rarely accompanied, is a free spirit who really likes to be alone. Does not talk much, although it is a feel-good nor clings much to anyone, definitely makes its way.
Finally they reach Krystyna, Antonio and Gordon! It feels so good when I come first because it allows me to make a decent break! :)
We left all and as someone once said, “what goes up, comes down,” so not long to we have to get down and we lost a lot of altitude in a short time, which for the knees, feet and battered legs, is not ideal. The Krystyna also resents enough on the descent, I even get worried because he had not yet seen these less good condition. It makes me sign to move forward, it will slow down. Still resist, but when I am I do not like feeling pressure, so advance always looking back to see if it is well, until distance myself a bit.
This part of the stage is also beautiful, between tracks in the forest and more trees and shrubs and flowers and the village down there waiting for us! It’s just beautiful!
In Vilar de Barrio (19.3 km) we turn to gather in a bar, we are so many! Besides us, Alessandro (Italian), Daniel, Michel, Daniela and Sandrine. The Krystyna decides to end the stage here, does not feel able to continue, trade contacts, at least in Santiago will return us to find!
Now the path is flatter but although with vegetation, it becomes monotonous by long straights, the scorching sun and the landscape always identical. At one point which stands out even from a distance, is the noise made by pigs on a farm and the stench! I try to pick up the pace, but the smell It spreads through the whole area, one kilometer before and one kilometer after passing the fifth, it’s amazing!
In Padroso, less than 4 km from the end, desperately looked for a bar, it is urgent to drink something cool! We found a very simple, which seems to have had better days. The furniture is worn, the tiles on the walls are from another generation, has little stock, maybe just preferred customers that little village. You receive us very well, but has a very limited mobility and end up being we get things over the counter, making us home and extend him a chair to sit down with us. Antonio has a gift for little in temp take the best of each life story, and this time was no different. A life marked by difficulties now compounded by poor health and her husband. Is pleased to have us there, to have someone to talk a bit and it is with love that we parted. “We are a lucky to be able to walk, although all the difficulties, fatigue and heat, at least we can have a backpackers and health to walk.”
We continue for another track, again to rise, to rise. Suddenly look forward and see Gordon in the background, still, to look at a rock and talking to himself. “Hmm, you’re right?” I approach slowly, do not want to disrupt any time and as soon as I get close to him, I see that Sandrine is sitting somewhere in the top of the rock. No doubt that there is a privileged view of the surroundings. Decides to go down and accompany us to Xunqueira de Ambía.
Endpoints: The statement made above in the text of the disinterest of the people who live along the way, unfortunately, is not only in the Via de la Plata, but rather by all (perhaps more than the French, the mass thereof) . It does not go away over time when it was thought that the arrows served to mark houses for burglars go there direitinhos. Or people who swear they had never seen yellow arrows anywhere, such as in Cedofeita Street in Porto, where there’s more there, are painted arrows (to the point of visual noise). Or someone thinks I’m crazy Quanda say it is possible to cross the country following only arrows are everywhere. Anyway, it is certain that those who are not aware of the issue, these signs go unnoticed, especially in large cities. But in small towns, some of them only resist because the pilgrims continue to go there, did not cost have some interest to know how to give directions. At least something like “I do not know where it passes the way, but I see people follow that way”, rather than a simple “do not know”. Even today I spoke with a friend who is on the Path of the Interior and he emphasized this. A couple of years ago it was announced that the road had been marked and hostels were created, came news everywhere by great accomplishment, but today, just loped time, the signage is scarce, no one knows how to give directions, there is no infrastructure support to the pilgrim, supplies, maintenance, etc. Not yet realized the full potential that the paths may have the level of development of a village, a city, a country. We all lose!

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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