Camino Sanabrés: 36. A Gudiña – Laza. Caminhar, uma terapia / Walking as a therapy

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Etapa 36: A Gudiña – Laza (42 km)

À saída da pensão é notório que choveu durante a noite, as ruas estão lavadas e o reflexo da iluminação no pavimento tem um brilho diferente. Apesar de agora termos uma benesse, não é preciso ser grande entendido na matéria para perceber que será por pouco tempo já que as núvens estão carregadas. Saio com a Krystyna, ajudamo-nos mutuamente a colocar os ponchos, os rapazes já se adiantaram para um café 100 metros à frente. Vou até lá, até porque coincide com o caminho, mas do lado de fora da montra faço sinal de que vou continuar, o pequeno-almoço já tomei no quarto com as minhas compras da véspera e como vem sendo hábito, prefiro aquecer os motores tranquilamente e aproveitar o silêncio matinal.

A poucos metros dali, numa praceta, um marco de pedra com duas vieiras a apontarem para direcções distintas já que aqui, o caminho bifurca. Pela esquerda, o trajecto mais longo até Santiago, por Verin, com 278 km e, pela direita, por Laza, apenas nos separam da meta 195 km. A opção de todos nós viria a ser a segunda.

Os primeiros quilómetros desta etapa são pela berma da estrada, não há alternativa. Devido ao nevoeiro cerrado, coloco a “bandeira” verde alface presa no bastão para servir de alerta sempre que se aproxima um carro e ainda levo a lanterna que emite sinais de luzes intermitentes. Não é genial, mas é o que se arranja. Noto que vêm todos um pouco mais atrás de mim, Krystyna, Antonio, Gordon, Loïc e Armel e isso faz-me acelerar o passo, hoje quero mesmo estar tranquila. O nevoeiro e a chuva que denunciam bem estarmos já na Galiza não são apenas exteriores, por dentro, a tempestade consegue ser maior.

A abstracção é quase total do que se passa à minha volta, até porque o nevoeiro não dá hipóteses de perceber o que nos rodeia e a chuva, os pés molhados, as dores e o desconforto de caminhar nestas condições, fazem-me focar ainda mais em mim e em alguns assuntos que precisam ser resolvidos. Hoje é o dia! A “cegueira” ajuda a sentir pouco, parece que os pés estão dormentes e vêm forças nem sei bem vindas de onde que me fazem caminhar a um ritmo pouco usual nos últimos tempos.
Vejo o Michel à minha frente, está parado a ver se alguém passa, estico a mão em sinal de cumprimento, mas não abrando, não faço tenções de parar. Mais tarde encontro a Daniela, e faço o mesmo.

Apenas abrando quando há um desvio em que finalmente existe opção de ir por um trilho. Não pretendo ir por ali, tal como aconteceu nos dias anteriores, mas espero para ver as opções dos outros (e poder ficar mais alerta). Com as condições atmosféricas que se fazem sentir, quando a Krystyna opta pelo trilho, sendo a única pessoa a fazê-lo, acho pouco prudente. É certo que ela é uma caminhante experiente, acostumada e destemida, só desta forma já percorreu vários caminhos e sempre sozinha, mas, ainda assim, considero um risco desnecessário.

Continuamos todos, volto a ser a “lebre” por algum tempo, até o Antonio se aproximar e querer falar. As respostas são em monossílabos, aceno com a cabeça e volto a partir.

O guia diz que veremos o “espectacular embalse de As Portas”, de facto, nota-se que há qualquer coisa lá em baixo, no vale, mas o nevoeiro é impiedoso e não permite confirmar o que leio, tendo de confiar nas suas palavras. (Mais tarde vi fotos deste trajecto num dia de bom tempo e é realmente magnífico!).

Começamos a descer para Campobecerros, o Antonio passa por mim a todo gás, já o conheço tão bem, está chateado! Bom, esse será um assunto para mais tarde. Finalmente na localidade, ao fim de 20 km, paramos todos no primeiro bar. É sui generis, não muito grande para todos nós que aparecemos mais ou menos ao mesmo tempo, com as capas e os ponchos molhados, uma confusão! A um canto que destoa com todo o resto do espaço, ao lado duma salamandra, está uma senhora de mais idade sentada numa poltrona, com um napron na zona dos braços, também ela tricota qualquer coisa, tem uma cabeça de veado atrás pendurada e uma gaiola com um canário. Deixa-nos a todos vidrados nela, mas fala e age sem se sentir o centro das atenções.

Seguimos caminho, continua a chover a maior parte do tempo, continua o nevoeiro, embora agora menos cerrado, mas o trajecto é pouco apelativo, passando por vários desvios, obras e, consequentemene, lama.

Quando ao quilómetro 28 chegamos As Eiras, já resolvi tudo o que havia para resolver por dentro. Vemos um restaurante, acabamos por entrar os quatro suspeitos do costume (Krystyna, Gordon, Antonio e eu). Enquanto os outros dois vão à casa-de-banho, com o Antonio fica tudo em paz, nada que uma conversa de olhos nos olhos não resolva. Eles almoçam, eu apenas descanso, a adrenalina passou e todo o esforço feito até ali abate-se sobre mim, se ainda encher o estômago, sei que os últimos quilómetros me vão custar muito mais.

Saímos do restaurante, o tempo clareou um pouco, mas nenhum de nós se atreve a guardar os ponchos e ainda bem, pois voltariam a ser necessários. Agora conseguimos ter percepção da paisagem que nos rodeia, estamos entre montanhas, tudo tão verde, faz-me lembrar a Madeira! Agora seguimos os quatro juntos até o final, reina a boa disposição e até o sol dá o ar da sua graça.
Não sei se foi o tempo que se reflectiu no meu interior ou inverso, sei apenas que hoje, os dois andaram lado a lado.

Esta etapa tem as distâncias mal contadas. Já de si é uma etapa longa com 34,5km, mas devido a todos os desvios, sobe para cima de 40km e segundo o GPS do Loïc que tudo controla ao pormenor, hoje fizemos 42km. Pouco me importa o número ao certo, só sei que foram muitos passos e as pernas assim o confirmam. A mim bastavam-me 28, nessa altura já estava em paz, não precisava que a terapia continuasse por mais 14km! :)

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

Stage 36: A Gudiña – Laza (42 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

Just off the board it is clear that it rained during the night, the streets are washed and the reflection of light on the floor has a different brightness. Although we now have a boon, it does not take great skill in the art to realize that it will be for a short time because the clouds are loaded. I leave with Krystyna, help one another to put the ponchos, the boys have moved forward to a cafe 100 meters ahead. I am going there, because coincides with the path, but outside storefront sign that I will continue, breakfast ever made in the room with my purchases from yesterday, and as has been habit, I prefer warm up quietly engines and enjoy the morning silence.
A few meters away, in a small square, a stone landmark with two scallops pointing to different directions as here, the path forks. The left, the longest route to Santiago, by Verin, with 278 km and the right, by Laza, only separate us from the target 195 km. The option to all of us would be the second.
The first kilometers of this stage are by the side of the road, there is no alternative. Due to thick fog, put the “flag” green lettuce stuck at bat to serve as a warning whenever you approach a car and still take the flashlight that emits signals flashing lights. Not great, but it is what it is arranged. I notice that all come a little behind me, Krystyna, Antonio Gordon, Loïc and Armel and it makes me accelerate the pace today really want to be quiet. The fog and the rain that well already being denounced in Galicia are not only outside, inside, the storm can be higher.
Abstraction is almost full of what is happening around me, because the fog does not give chances to realize that surrounds us and the rain, wet feet, the pain and discomfort of walking in these conditions, make me even more focus me and some issues that need to be resolved. Today is the day! The “blindness” helps to feel ill, it appears that the feet are numb and have forces do not even know where welcome that make me walk to an unusual pace of late.
I see Michel before me, is stopped to see if anyone passes, stretch a hand in greeting sign, but not abrando, I have no intention of stopping. Later against Daniela, and do the same.
Abrando only when there is a deviation that finally there is option of going for a rail. I do not intend to go that way, as happened in previous days, but I hope to see the options of others (and power become more alert). With weather conditions that are felt when Krystyna opts for rail, being the only person to do so, I think unwise. It is true that she is an experienced, used and fearless hiker, only in this way has toured various ways and always alone, but still consider an unnecessary risk.
We keep everyone back to being the “hare” for some time, until Antonio to approach and want to talk. The answers are in monosyllables, nod and go back from.
The guide says that we will see the “spectacular dam of The Doors” in fact, we note that there is something down there in the valley, but the fog is ruthless and does not allow confirm what I read, having to rely on his words . (Later I saw pictures of this journey a day of good weather and it’s really magnificent!).
Started down to Campobecerros, Antonio passes me the whole gas already know so well, I am upset! Well, this will be a matter for later. Finally in the locality, after 20 km, we stop all in the first bar. It is sui generis, not so great for all of us who showed up at about the same time, with the covers and wet ponchos, a mess! In one corner that clashes with the rest of the space, alongside a salamander, is a lady older sitting in an armchair with a napron At Arms zone, she also knits anything, has a deer head hanging back and cage with a canary. Let us all glazed it, but speaks and acts without feeling the center of attention.
Followed path continues raining most of the time, the fog remains, although now less closed, but the route is unappealing through various deviations, works and consequentemene, mud.
When we arrive at km 28 As Eiras, I took care of all that was to solve inside. We see a restaurant, just to enter the four usual suspects (Krystyna, Gordon, Antonio and I). While the other two go to the en-suite, with Antonio is all alone, nothing a conversation eyes of the eyes can not solve. They eat lunch, I just rest, adrenaline passed and all the effort done until there looms upon me, if still fill the stomach, I know that the last kilometers will cost me more.
We left the restaurant, the weather cleared a bit, but none of us dare to keep the ponchos and thankfully, it would again be necessary. Now we can have perception of the landscape around us, we are among mountains, everything so green, reminds me of Madeira! Now follow the four together until the end, reigns good mood and even the sun gives the air of grace.
Maybe it was the time that was reflected within me or inverse, just know today, the two walked side by side.
This step has badly told distances. Already is a long step with 34,5km, but due to all the deviations, rises up 40km and according to Loïc GPS that controls everything in detail, today we 42km. I do not care the number for sure, just know that there were many steps and legs so confirm. To me sufficed me 28 at that time was already in peace, I did not need therapy continued for another 14km! :)

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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One thought on “Camino Sanabrés: 36. A Gudiña – Laza. Caminhar, uma terapia / Walking as a therapy

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