Camino Sanabrés: 31. Santa Croya de la Tera – Rionegro del Puente. Montanha-russa / Roller coaster

PT /EN

Etapa 31: Santa Croya de la Tera – Rionegro del Puente (29 km)

Desperto com dores na perna, mais que as habituais. Ontem, por me sentir tão bem, talvez tenha exagerado no ritmo e hoje o corpo ressente-se. Das primeiras tarefas diárias nos últimos dias, tem sido tomar a medicação para começar a actuar logo, mas hoje o efeito tarda a aparecer. Para compensar as dores de um lado, começo a caminhar de forma pouco correcta, o que inevitavelmente, começa a trazer problemas do outro lado. O dia, definitivamente, não começa no seu melhor a nível físico, acabando por afectar o estado emocional.
Desde logo aviso o Gordon e o Antonio de que não os acompanharei ao longo do dia, não tenho pedalada para isso, vou necessitar de mais pausas e a etapa é longa. Ainda assim, nos primeiros quilómetros seguimos com pouca distância e reencontros, seja por esperarem por mim, retirarem algo das bolsas ou tomar o pequeno lanche da manhã. Assim, depois de passarmos Santa Marta de Tera, trilhos entre floresta, um pouco de alcatrão, passar pela área recreativa La Barca e atravessar o canal, chegamos a Olleros de Tera, ao quilómetro 13,7, onde encontramos a Krystyna.

Descansamos um pouco e depois cada um segue ao seu ritmo, eu continuo com dores, tomo mais pastilhas, mas já nada parece resolver. Depois de passar uma igreja, e seguindo por mais um trilho entre vegetação, deparamo-nos com a barragem de Nossa Senhor de Agavanzal. Toda esta área é muito bonita e enquanto aprecio a natureza, abstraio-me do mal-estar físico. Há quem aproveite para pescar, acampar ou tomar banho no “lago” (reservatório artificial de água devido à barragem). Aproximo-me para verificar a temperatura da água e, embora um pouco mais fria (fria comparada com o calor que se faz sentir), até é agradável. Aproveito para me refrescar um pouco e seguir viagem. Esta zona é formidável, merece uma visita sem dúvida alguma!

Encontro Gordon mais à frente, a fazer uma pausa e também ele a desfrutar esta paisagem. Acabamos por caminhar juntos os últimos dois quilómetros até Vilar de Farfón, onde entramos no albergue, que também serve de café para os peregrinos naquela pequena povoação. Logo à entrada, reconhecemos as mochilas do Antonio e do Michel, também eles ali pararam.

(…)Mais tarde paramos no pequeno albergue de Craig e Dorothea e gostei muito do pouco que vi. São um casal cristão da África do Sul, viveram uns anos na Índia em missão e depois de fazerem o Caminho de Santiago decidiram ter um albergue, embora sem os recursos financeiros necessários. Dizia o marido que durante dois anos rezou por essa intenção, para que encontrassem um albergue algures no Caminho, et voilà! O seu entusiasmo e testemunho, faz-me lembrar de alguém muito próximo(…).

Ficamos um pouco com o casal que nos recebe tão bem! A pausa já vai longa e voltamos a partir, embora o Michel ainda prolongue a sua estadia. Custa-me sair dali, estava-me a sentir em casa, tão confortável e com curiosidade das histórias de vida daquela família.

(…) Ía neste estado de espírito de quem encontrou um oásis e tem pensa de deixá-lo, quando o A. faz um comentário desagradável direccionado a mim. Não foi o conteúdo, mas a forma como o disse. Enfureceu-me e sempre que isso acontece, fico sem palavras. Irritou-me tanto! (…)
Dei uma resposta seca, o G. tentou fazer uma piada para amenizar o clima, mas desta vez não, os (meus) limites de tolerância tinham sido ultrapassados. Na altura ía a caminhar na frente, páro, faço-lhes sinal para passarem e deixo-me ficar para trás, até os perder de vista.
(…) Por duas vezes parei a reflectir se deveria ou não voltar para trás, para o albergue e seguir o meu caminho sem eles e ver o que tinha para me oferecer aquela casa.(…) O primeiro impulso era ficar logo ali, ainda estava perto do albergue, tinha certeza de que seria bem recebida, tinha gostado do projecto de vida deles e da forma como falavam. A curiosidade de “beber” um pouco mais daquela fonte e desfrutar da quietude daquele lugar. Por outro lado, não sentia que as coisas devessem terminar assim depois de tantos dias juntos, de tantas peripécias, embora estivesse triste com a situação. Ficar ali era deixar algo por resolver, não ter oportunidade de me despedir do G. como deveria ser (o A. ainda poderia encontrar em Compostela, pelos dias extra que ficaria por lá) e seria mais fácil desistir do que ir ao seu encontro.
Depois de uma longa reflexão, a minha decisão está tomada, coloco a mochila às costas e sigo até Rionegro del Puente como tinha programado.

Segui lentamente o meu caminho, sem pressa alguma, entre trilhos rodeados de paisagem tão bonita! Recebo um telefonema do meu pai, que me acompanha por longos momentos enquanto caminho, falamos de muitas coisas, nada a ver com o que ali se passava, mas no final, quando desliguei, estava em paz e quando cheguei ao albergue, já estava como nova!

Entro pela camarata dentro e vejo o Gordon a olhar em frente, entre o espantado e agradado por me ver ali, “Luisa!”. Pensava ficaria em Vilar de Farfón, aliás, também ele chegou a ponderar essa hipótese, não fosse estar apertado de tempo e depois ter de fazer uma etapa maior no dia seguinte.
Escolho uma das camas livres, começo a desarrumar a mochila para preparar as coisas para o duche, quando aparece o Antonio. “Vais ficar aí, não preferes a cama que te guardei no cantinho como gostas?” Era a sua forma de dar as boas-vindas, sem dar o “braço a torcer”.

Foram almoçar ao restaurante do outro lado da rua (Gordon, Antonio, Krystyna, Michel, Loïc e Armel) e só quando terminei as minhas tarefas, juntei-me a eles. Não me apetecia comer muito, apenas algo simples que desse conforto ao estômago. Mas o Chef da Asociación Gastronómica “Me Gusta Comer”, não tinha nada simples e insistia em preparar-me algo, surpreender-me com um prato. Depois de alguma insistência, vi que era uma batalha perdida e notava-se que ele tinha muito gosto em oferecer algo. O restaurante para ele não é um negócio (até porque os preços são muito acessíveis), mas um autêntico prazer e é com alegria genuína que nos recebe a todos. Foram momentos muito bem passados e um lugar a voltar num próximo caminho!

Pela tarde, a Krystyna queria ir à biblioteca e nós, sem nada para fazer, acompánhamo-la. Vimos um aviso de que havia uma exposição de pintura naquele mesmo edifício e pergunto se posso ir ver. A funcionária acede a conduzir-nos, mas assim que chegamos, no espaço que antecede a exposição há uma mesa de ténis de mesa com raquetes e bolas! “Gordon, jogamos?” Não jogava ping pong há séculos e foi um recuar instantâneo à meninice, tão bom! Entretetidos, nunca mais nos lembramos das pinturas, só quando o António e a Krystyna se juntaram a nós a brincadeira chegou ao fim, a funcionária estava com ar de querer fechar aquela parte do edifício, portanto fomos embora.
Cada um foi à sua vida, a K. Ainda fica na biblioteca, o A. foi descansar, eu peço gelo num bar para por na perna e aproveito para usar a wi-fi e o G. fica a fazer companhia e a conversa sabe bem.

Ao final do dia ainda vou à Missa do Peregrino e depois a um bar, em busca de algum sossego para escrever, o que não durou muito, pois era dia de jogo (Real vs ? .. só me lembro de ouvir e ver constantemente o Cristiano Ronaldo na TV). Aos poucos o bar encheu, tornou-se barulhento, até a minha mesa do fundo num cantinho se tornou cobiçada e sai para ir dormir, o dia foi cheio, estava cansada!

Pontos finais: Quando no início (Preparação para o Caminho) refiro que tentarei com que este seja o MEU caminho, nunca é no intuito de ser egoísta, em solidão, afastada dos outros, etc. Hoje, depois de sair do albergue de Vilar de Fárfon, nas duas paragens que fiz, foi na tentativa de perceber qual seria esse mesmo Caminho, a razão vs primeiro impulso, um caminho que tem sido construído vs uma miragem de oásis. Olhando para trás, embora numa próxima vez queira parar naquele lugar e conhecer melhor os hospitaleiros, sei que não poderia ter tomado decisão mais acertada. “Caminhar com” nem sempre foi fácil (para mim e para eles), mas foi muito enriquecedor.
Penso, que só ao final do dia de hoje, me convenci de que há verdadeiramente possibilidade de chegarmos juntos a Santiago e tirarmos a bendita foto.

Etapas Via de la Plata + Camino Sanabrés

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés
_________

EN

Stage 31: Santa Croya de la Tera – Rionegro del Puente (29 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 Waking with pain in the leg, more than usual. Yesterday, for feeling so well, may have exaggerated the pace and today the body resents. The first daily tasks in recent days, has been taking medication to start acting soon, but now the effect is slow to appear. To compensate for the pain on one side, begin to walk correctly bit, which inevitably begins to cause problems on the other side. The day definitely does not begin at its best physical, and ultimately the emotional state.
Immediately notice the Gordon and Antonio that he would not accompany you throughout the day, I have to ride it, I will need more breaks and the stage is long. Still, in the first kilometers we followed with walking distance and reunions, either wait for me, something withdraw the bags or take the small snack in the morning. Thus, after passing Santa Marta de Tera, between forest tracks, a little tar, go through the play area La Barca and cross the canal, we come to Olleros de Tera, at kilometer 13.7, where we find the Krystyna.
We rested a bit and then everyone goes at their own pace, I still in pain, I take more pills, but since nothing seems to solve. After passing a church and following for over a rail between vegetation, we are faced with the barrage of Our Lord Agavanzal. This whole area is very beautiful and while I appreciate the nature, abstract me from physical discomfort. There are those who enjoy fishing, camping or bathe in the “lake” (artificial water reservoir due to the dam). Approach me to check the water temperature and, although a bit cooler (cool compared to the heat that is felt) until is nice. I take this opportunity to freshen up a bit and move on. This area is great, well worth a visit without a doubt!
Gordon encounter later on, to pause and he also enjoying this landscape. We ended up walking together the last two kilometers to Farfón Vilar, where we entered the hostel, which also serves coffee for pilgrims in that little village. At the entrance, we recognize the backpacks of Antonio and Michel, they too stopped there.
(…) Later we stopped at small hostel Craig and Dorothea and enjoyed the little I saw. Are a Christian couple from South Africa, lived some years in India on mission and after making the Way of Santiago decided to have a hostel, albeit without the necessary financial resources. He said the husband for two years prayed for this intention, to found a hostel somewhere in the Way, et voila! Their enthusiasm and testimony reminds me of someone close (…).
We were a little with the couple that gets along so well! The break will have long and returned from, although Michel also extend your stay. It costs me leave, was me feel at home, so comfortable and curiously the life stories of that family.
(…) Was going in this state of mind of those who found an oasis and has thought of letting him when the A makes a nasty comment directed to me. It was not the content but the way he said it. It infuriated me and whenever it happens, I am speechless. It angered me so much! (…)
I gave a curt reply, G. tried to make a joke to lighten the mood, but this time, not the (my) tolerance limits had been exceeded. At the time was going to walk in front, I stop, I make them sign to go and let me get back to the out of sight.
(…) Twice I stopped to think whether or not to go back to the hostel and go on my way without them and see what they had to offer me the house. (…) The first impulse was to stay right there, it was still close to the hostel, I was sure it would be welcomed, liked of their life project and the way they spoke. Curiosity to “drink” a little more of that source and enjoy the stillness of the place. On the other hand, I felt that things were to end like this after so many days together, so many adventures, though he was sad about the situation. Staying there was something left unresolved, have no chance to say goodbye to G. as it should be (the A could still find in Compostela, the extra days would be there) and it would be easier to give up than to go to meet him.
After a long reflection, my decision is made, place the backpackers and follow up Rionegro del Puente as he had planned.
Slowly follow my way, without hurry, surrounded between rails in such a beautiful landscape! I get a call from my father, who came with me for long moments as I walk, talk of many things, nothing to do with what was going on there, but in the end, as I hung up, I was alone and when I got to the hostel, was already as new!
I enter the dormitory in and see the Gordon to look forward, among the amazed and pleased to see me there, “Luisa”. Thought would be in Farfón Vilar, incidentally, also he came to consider this hypothesis, it was not being tight time and then have to make a bigger step the next day.
Choose one of the free beds, start littering the backpack to get things ready for the shower, when Antonio appears. “You’ll be there, I do not prefer the bed that kept you in the corner as you like?” It was his way of giving the welcome, without the “arm twisting”.
They went to lunch at the restaurant across the street (Gordon, Antonio, Krystyna, Michel, Loïc and Armel) and only when I finished my chores, I joined them. I did not feel like eating much, just something simple that would give comfort to the stomach. But the Chef of the Gastronomic Association “Me Gusta Comer” had nothing simple and insisted on preparing me something, surprise me with a plate. After some prodding, I saw it was a losing battle and noticed that he was very happy to offer something. The restaurant for it’s not a deal (because the prices are very affordable), but a real pleasure and it is with genuine joy that gets us all. It was well past time and a place to return in the near way!
In the afternoon, the Krystyna wanted to go to the library and we, with nothing to do, then accompany her. We saw a notice that there was an exhibition of paintings at the same building and ask if I can go see. The employee accesses lead us, but once we got in the space before the exhibition there is a table tennis table with rackets and balls! “Gordon, we play?” Not playing ping pong for centuries and was an instant back to childhood, so good! Entretetidos, never remember the paintings, only when Antonio and Krystyna joined us the game is over, the employee was air of wanting to close that part of the building, so we left.
Each Foii to your life, yet K. is in the library, the A was rest, I ask for ice in a bar by the leg and take the opportunity to use the wi-fi and the G. is doing company and the conversation knows well.
At the end of the day still go to Pilgrim’s Mass and then to a bar, looking for some quiet to write, which did not last long, it was game day (vs Real? .. Just remember hearing and constantly see Cristiano Ronaldo on TV). Gradually the bar filled, became noisy until my bottom desk in a corner became coveted and leaves to go to sleep, the day was full, was tired!
Endpoints: When at the beginning (Preparation for the Way) I mean I’ll try that this is MY way, it is never in order to be selfish, in solitude, away from others, etc. Today, after leaving the Fárfon Vilar hostel, the two stops that I was trying to figure out which would be the same way, the reason vs first impulse, a path that has been built vs one oasis mirage. Looking back, although a next time want to stop there and get to know the hospitable, I know I could not have taken right decision. “Walking with” has not always been easy (for me and for them), but it was very enriching.
I think that only the end of the day, I became convinced that there truly chance to get together to Santiago and we take the blessed picture.

Stages of Via de la Plata + Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s