Via de la Plata: 27. Zamora – Montamarta. Lar doce Lar / Home sweet Home

PT /EN

Etapa 27: Zamora –  Montamarta (18,6 km)

Esta manhã temos direito a pequeno-almoço comunitário! A maioria das pessoas aproveita esta benesse e, depois da noite de ontem, voltamo-nos a reencontrar todos à mesa. À saída, as hospitaleiras despedem-se de nós, mas a italiana, dá um abraço caloroso a cada peregrino. É-lhe natural o gesto e faz a diferença em cada um de nós. Ainda aconchegados com este mimo, colocamos as mochilas e damos início a uma nova etapa.

A parte inicial é feita por estrada, afinal, estamos a sair de uma grande cidade. Ao quilómetro 2,5 deparamo-nos com um marco indicativo da distância que falta até Santiago “377”. Uau, não deixo de me impressionar com o número, “já só faltam 377 km!!”. Pensar assim só tem sentido quando vimos de muito longe, pois muitos “caminhos completos” de tantos peregrinos (incluindo o meu 1º caminho), não chegam a este número. “Just  a walk in the park”, segundo o Gordon. De facto, nesta vida, tudo é relativo!

Vamo-nos afastando do centro e da confusão, primeiro num caminhito paralelo à estrada, depois entrando numa zona um pouco mais rural, mas ainda assim, desinteressante.

Ao fim de 7 km estamos em Roales del Pan e logo à entrada da povoação, há uma casa sui generis com figuras sobejamente conhecidas por todos nós. Coabita o S.Tiago com a Branca de Neve e os Sete Anões, vários animais, peregrinos, o Capuchinho Vermelho, etc. É algo que chama a atenção, mas não fico encantada com o que vejo, pelo contrário!

Apesar de nos cheirar a pão à passagem pelo centro da aldeia, nada está aberto e não há uma única pessoa na rua, por isso, decidimos continuar o caminho após uma breve pausa.

Daqui até ao final da etapa, percorremos um caminho quase em linha recta entre campos, do mais monótono que se possa imaginar!
Passa por nós um peregrino espanhol, com quem não cheguei a falar, mas ontem, no final do jantar comunitário no albergue, num momento de partilha colectiva sobre os motivos que nos levaram ao caminho, ele comentou estar a fazê-lo em memória de uma amiga que faleceu com cancro. Eles tinham-se conhecido uns anos antes, num outro caminho e ela, já doente, superava-se diariamente. A partir do momento que se conheceram ele acompanho-a e tornaram-se amigos na “vida real”. Por esta altura fazia o aniversário da sua morte e ele decidiu percorrer o Caminho de Santiago em sua memória. Termina a sua partilha a soluçar, muito emocionado e acabou por nos contagiar a todos.

António segue mais à frente com ele, por algum tempo, eu e o Gordon mais para trás. Hoje caminhamos os dois lado a lado por muito tempo, quase sempre em silêncio. Por vezes ocorrem-me dúvidas existenciais e pergunto-lhe se posso interromper os seus pensamentos, “You silly, of course!”. São momentos de excepção, também me sabe bem partilhar o silêncio com ele, não é de todo incomodativo ou ensurdecedor!

Finalmente chegamos a Montamarta, o tempo está incerto, já deu sol, já esteve nublado e quando chegamos começa a ameaçar chuva.

Os meus compinchas (Antonio e Gordon) hoje preferem fugir do albergue e optar por um hostal (não é que tenhamos alguma recomendação negativa sobre o mesmo, mas apetece-lhes um pouco mais de sossego) e como o valor é aceitável, acedo a ficar com eles. Vamos à “procura da chave” na morada indicada e, no regresso, há uma nova peregrina também interessada em lá ficar, a Krystyna, da Polónia. Vi-a ontem no albergue, mas estava sentada na outra ponta da mesa e não chegamos a falar. A casa tem no 1º andar um espaço comum com 6 camas, um sofá e uma televisão e, no rés-do-chão, dois quartos privados, casa-de-banho, sala, cozinha e terraço. Nada mau! Nós decidimos ficar no 1º andar e a Krystyna que não estava a perceber nada da conversa, pergunta-me onde vou ficar, se ficar no espaço aberto também ela fica, caso contrário, optará pelo quarto privado. Sorrio e faço-lhe sinal de que eles são de confiança e que temos caminhado juntos nos últimos tempos. Ela começou em Zamora, veio sozinha para o caminho e este detalhe mostra apenas que é prevenida. Como sempre vou repetindo, o Caminho é seguro (pelo menos até hoje é a minha percepção), mas é necessário ter bom senso, o bom senso do dia-a-dia!

Saímos para almoçar e o sol dá o ar da sua graça. Nesta pequena povoação, é impressionante o tamanho do restaurante! Vive dos que param para abastecer o depósito e descansar de longas viagens, sendo uma zona de serviço e, principalmente, dos trabalhadores das obras da estrada que ligará Zamora a Benavente que estão em curso nos arredores. Quando estas terminarem, provavelmente, o restaurante irá fechar. Esta realidade encontraremos também em etapas posteriores onde as obras são abundantes nesta fase.

De volta a casa, ainda aproveito para estar um pouco no terraço a fazer as lides domésticas, mas a ameaça torna-se realidade e começa a chover. Não há muito a fazer e cada um descansa à sua maneira. Krystyna fica na cama a ler no seu Ipad, o Gordon passa pelas brasas, o António ocupa meio sofá em frente da TV e eu ocupo a outra metade com uma mantinha nas pernas. Pouco me interessa o que está a dar na televisão, já faz tanto tempo que me desliguei por completo deste aparelho e apesar de estar a olhar em frente, os pensamentos vão noutras direcções. Acabo por aproveitar para “estudar” o dia seguinte. Avisaram-nos que teremos de atravessar um riacho que está com um caudal de grandes dimensões, sendo o melhor seguir pela Nacional até o ultrapassarmos. Também encontraremos alguns desvios devido às obras e lama, muita lama devido à chuva. Eu pondero seguir sempre pela estrada, as solas das minhas sapatilhas estão a desaparecer e caminhar na lama torna-se ainda mais difícil, embora os pés em ambos os pisos, fiquem ensopados em dois tempos. Bom, mas este problema deixo para amanhã, hoje só quero aproveitar este quadro familiar que me faz sentir tão confortável. Aliás, estamos todos aqui tão bem que alguém pergunta “Se amanhã continuar a chover, tiramos um dia de folga e ficamos cá em casa?”

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

_________

EN

Stage 27: Zamora –  Montamarta (18,6 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 This morning we are entitled to Community breakfast! Most people take this boon and then last night, we turn to rediscover all the table. At the exit, the hospitable farewell to us, but the Italian, gives a warm hug to each pilgrim. Is it natural gesture and makes a difference in each of us. Still huddled with this treat, we put our backpacks and we begin a new stage.
The initial part is made by road, after all, we are coming out of a big city. At kilometer 2.5 we are faced with an indicative landmark of the distance to reach Santiago “377”. Wow, I never cease to impress me with the number, “since only missing 377 km !!”. Think like that only makes sense when seen from far away, as many “full paths” of many pilgrims (including my 1 way), do not reach this number. “Just a walk in the park,” according to Gordon. In fact, in this life, everything is relative!
Let’s get away from the center and the confusion, first in caminhito parallel to the road, after entering a slightly more countryside but still unattractive.
After 7 km we are in Roales del Pan and at the entrance of the village, there is a sui generis house with figures widely known by all of us. Cohabits with the S.Tiago Snow White and the Seven Dwarfs, various animals, pilgrims, Little Red Riding Hood, etc. It is something that draws attention, but I’m not blown away by what I see, on the contrary!
Although the smell of bread to pass through the village center, nothing is open and there is not a single person on the street, so we decided to continue the journey after a brief pause.
Between now and the end of the stage, pursue a path almost in a straight line between fields, the more monotonous imaginable!
Passes us by a Spanish pilgrim, who did not get to speak, but yesterday, at the end of the Community dinner at the hostel in a moment of collective sharing of the reasons that led us to the path, he said to be doing it in memory of a friend who died of cancer. They had met a few years earlier, in another way and she was already ill, excelled daily. From the moment they met him up there too and became friends in “real life”. By this time was the anniversary of his death and he decided to walk the Camino de Santiago in his memory. Ends its shares to sob, very moved and ended up in infect everyone.
Antonio goes ahead with it for a while, me and Gordon further back. Today the two walked side by side for a long time, often in silence. Sometimes occur to me existential doubts and ask her if I can interrupt your thoughts, “You silly, of course!”. These are moments of exception, also knows me well share the silence with it, it is not at all troublesome or deafening!
Finally we come to Montamarta, time is uncertain, has given sun was already cloudy and when we begin to threaten rain.
My buddies (Antonio and Gordon) today prefer to get away from the hostel and opt for a hostel (not that we have any negative recommendation on it, but fancy them a little more quiet) and as the value is acceptable, acedo to stay with them. Let the ‘key demand “in the indicated address and, in return, there is a new pilgrim also keen to stay there, the Krystyna, Poland. I saw her yesterday at the hostel, but was sitting at the other end of the table and did not get to talk. The house has on the 1st floor a common room with 6 beds, a sofa and a TV, and on the ground floor, two private rooms, en-suite, lounge, kitchen and terrace. Not bad! We decided to stay on the 1st floor and Krystyna I was not noticing anything of the conversation, asks me where I’m staying, stay in open space also it is, otherwise opt for private room. I smile and make you sign that they are reliable and we have walked together in recent times. It began in Zamora, came alone to the path and this detail shows only that is prevented. How will I ever repeating, the path is safe (at least until today is my perception), but you must have good judgment, common sense of the day-to-day!
We went out to lunch and the sun gives the air of grace. In this small town, it’s amazing the size of the restaurant! Lives of those who stop to fill the tank and rest for long journeys, with a service area, and especially of workers in the railway works that are underway in the vicinity. When these are completed, probably, the restaurant will close. This reality also find in later stages where the works are abundant at this stage.
Back home, yet I take to be a bit on the terrace to do household chores, but the threat becomes reality and it starts to rain. Not much to do and each rests in its own way. Krystyna is in bed reading to your Ipad, Gordon goes through embers, Antonio takes up half the couch in front of the TV and we take the other half with a leg kept. Little care what is taking on television, it’s been so long that hung me completely this unit and although it is to look forward, thoughts go in other directions. Just by availing to “study” the next day. They warned us that we will have to cross a stream that is flowing at large, and the best to follow the National to the outdo. We will also find some deviations due to construction and mud, muddy due to rain. I ponder always follow the road, the soles of my sneakers are disappearing and walk in the mud becomes even more difficult, although the feet on both floors, be soaked in two stages. Good, but I leave this problem for tomorrow, today just want to enjoy this familiar framework that makes me feel so comfortable. In fact, we are all here as well someone asks “If tomorrow continue to rain, we took a day off and we here at home?”

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

Anúncios

2 thoughts on “Via de la Plata: 27. Zamora – Montamarta. Lar doce Lar / Home sweet Home

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s