Via de la Plata: 24. Salamanca – Calzada de Valdunciel. Novas caras / New faces

PT /EN

Etapa 24: Salamanca –  Calzada de Valdunciel (15,8 km)

Nunca me deixo de surpreender com o funcionamento da nossa mente! Quando o despertador dá sinal de manhã cedo, o corpo já esqueceu que houve um dia de preguiça e volta ao seu ritmo normal, refazendo mentalmente todos os procedimentos rotineiros até sair do hostal. Ainda ontem não fez nada disto e adaptou-se de uma maneira formidável ao dia de descanso!

A etapa hoje será curta, mas, ainda assim, aproveitamos para sair cedo com o fresco da manhã. Atravessamos Salamanca, agora uma cidade tão diferente da que vimos ontem, vazia, sem os estudantes em pequenos grupinhos de amigos deitados nos jardins a apanhar sol, os turistas a passearem, os bares cheios e a música um pouco por todo o lado. Vou atenta a ver se encontro um marco de correio, agora já sem a ajuda do Wilfrid, para deixar os postais que andei a escrever ontem, pois sempre são umas gramas a menos na mochila. Tenho sorte!

Gordon e António param num café para tomar o pequeno-almoço, mas eu prefiro continuar devagarinho. O esticão que dei ontem na perna, afinal, parece ser mais grave do que esperava e está-me a perturbar a caminhada. Nada que depois de “aquecer” não se resolva.

Ao fim de 6 km chego a uma pequena povoação, Aldeaseca de Armuña, sem novidades dos rapazes, mas calculo que devem estar próximo. Páro em frente do primeiro bar aberto e aproveito para ir comendo a minha sandes (do dia anterior). Eles chegam, querem fazer nova paragem, mas eu já estou ali há demasiado tempo e prefiro voltar a partir. A verdade é que estava a gostar de caminhar sozinha naquela manhã e apetecia-me continuar mais um pouco. “(…) Que bom voltar a estar só, em silêncio, atenta às setas, sem ninguém à minha frente e vivendo a adrenalina de não ter a certeza se é o caminho certo (pois em certas partes não estava assim tão bem marcado)(…)”

Começo a estranhar o atraso deles e aproveitando o caminho de terra, escrevo os seus nomes no chão, olho para a recta atrás de mim e nenhuma silhueta no horizonte… estranho! Continuo, havemos de nos encontrar algures. Uns 3km depois recebo uma mensagem a perguntar onde estou. Ora bem, no meio de campos de cultivo, sem grandes indicações, torna-se difícil dar as coordenadas. Pelos vistos enganaram-se no caminho à saída da povoação e decidiram seguir a estrada até ao ponto seguinte e fica combinado que quem chegar primeiro, espera pelos outros. Óptimo, mais um bocadinho apenas por minha conta!

Um pouco antes da chegada à aldeia, num descampado, passa um carro e pára no meio do nada, a uns 200 metros à minha frente. De onde estava, não dava para perceber o que fariam ali 2 indivíduos que, entretanto, saíram do carro e encostaram-se ao mesmo. Quando me aproximo, percebo que no lado esquerdo há um campo de futebol disnevelado (portanto não se via de onde estava antes), com 2 crianças a jogar e os homens olhavam para elas, possivelmente sendo da sua família. Este é um tipo de episódio que me passaria completamente despercebido se estivesse acompanhada ou com outros peregrinos dentro do alcance da vista. No entanto, quando se está só no meio do nada, sejam campos de cultivo ou floresta, a mente está mais alerta e os “macaquinhos na cabeça” surgem com maior frequência.

Chego a Castellanos de Villiquera, deparo-me com o primeiro bar e da rua já oiço vozes familiares. :) Descansamos e seguimos juntos por mais 4 km até Calzada de Valdunciel.

O albergue de hoje é muito pequenino (8 camas) e super acolhedor. Na verdade, estava à espera de ver muitas caras novas ao longo do caminho, pois tal como terminam muitos peregrinos em Salamanca, muitos outros também (re)começam aí, mas não foi o que aconteceu. Talvez os que começam hoje optem por fazer uma etapa maior como ainda estão frescos e saudáveis! Este albergue que pareceria insuficiente, na verdade, foi a medida certa, já que outros peregrinos que ficaram nesta aldeia optaram por livre iniciativa ficar no hostal.

Até agora vi 3 peregrinos mais jovens que eu, mas hoje, aqui, encontro mais dois e são ambas raparigas!
M. está a percorrer a Via de la Plata com um burro, o Chupito e a sua mãe, que veio acompanhá-la durante duas semanas. O seu modo de vida é muito simples, com parcos recursos financeiros. Quando lhe deixam ficar nos albergues, aproveita, caso contrário dorme na tenda, junto ao burro. M. não estuda, há muito que saiu de casa para uma vida itinerante, onde diz ser feliz. A mãe nem sempre compreende, mas tenta “entrar na onda” para não correr o risco de que os laços sejam cortados. O Chupito entrou na vida de M. um pouco por acaso. Soube através de uns amigos que havia um burro que tinha sido abandonado por já não ser útil e que toda a vida passou por vários donos que tinham uma coisa em comum: maltratá-lo. M. decidiu adoptá-lo e levá-lo para norte (através do Caminho de Santiago), anda ao seu ritmo e aos poucos tenta domesticá-lo. Pergunto se me posso aproximar para fazer uma festinha, diz que sim, mas que primeiro terei de conquistá-lo. A aproximação é lenta, ele é muito desconfiado, vou falando, dando um passo de cada vez, arrancando ervas para lhe dar e só ao fim de algum tempo, lá me deixa tocar, mas é um momento que não dura muito. Se comigo é assim, com homens é pior (diz a M. que é pela associação que faz aos seus antigos donos). A história do burrito é comovente.

A segunda moça é a Sandrine, chega muito mais tarde ao albergue, mas ainda tinha uma cama livre. Com ela terei tempo de vir a caminhar no futuro.

Aqui conheço também Loïc e Armel, casal de irmãos franceses que chamam a atenção por transportarem as suas mochilas numa espécie de carroça. São engraçados enquanto dupla, pois apesar dos seus sessentas (?) continuam a resmungar um com o outro como se fossem crianças… Ter irmãos, dá nisto! ;)

Ao final do dia houve um jogo de futebol importante na TV e toda a aldeia em peso, incluindo os peregrinos, estava no bar! De onde tinha saído toda aquela gente?!

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

_________

EN

Stage 24:  Salamanca –  Calzada de Valdunciel (15,8 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

I never cease to amaze me with the functioning of our mind! When the alarm gives signal early morning, the body has forgotten that there was a day of laziness and back to its normal pace, mentally retracing all routine procedures to leave the hostel. Only yesterday did not do any of this and has adapted a formidable way a day of rest!

The stage today will be short, but still took the opportunity to leave early in the cool morning. We crossed Salamanca, now a city so different from what we saw yesterday, empty without students into small cliques of friends lying in the gardens sunbathing, tourists to roam, the full bars and a little music everywhere. I’ll attentive to see if meeting a milestone mail, now without the help of Wilfrid, to leave the postcards that I’ve been writing yesterday as always are a grams less in the backpack. I’m lucky!

Gordon and Antonio stop in a café for breakfast, but I prefer to go slowly. The stretching I gave yesterday in the leg, after all, it seems to be more serious than expected and is disturbing me walking. Nothing after “warm” is not resolved.

After 6 km come to a small town, Aldeaseca of Armuña without news of the boys, but suppose they should be close. I stop in front of the first open bar and I take to go eating my sandwiches (the previous day). They come in, want to make new stop, but I’m already there too long and prefer to come back from. The truth is that it was like to walk alone that morning and I felt like continue a little longer. “(…) That good to be alone, in silence, listening to the arrows, with no one in front of me and living the adrenaline not be sure if it’s the right way (as in certain parts were not as well marked ) (…) “

I begin to wonder their delay and enjoying the dirt path, write their names down, look at the line behind me and no silhouette on the horizon … weird! Still, we will meet somewhere. A 3km then receive a message asking where I am. Now, in the midst of cultivated fields, without major indications, it becomes difficult to give the coordinates. Apparently they were mistaken in the way off the village and decided to follow the road to the next point and is arranged that first come first served, waiting for others. Great, just a little bit more on my own!

Just before arrival at the village, in a field, passing a car and stops in the middle of nowhere, about 200 meters ahead of me. From where I was, I could not see what they would do there two individuals who, however, left the car and touched at the same. As I approach, I realize that on the left side there is a disnevelado football field (so you could not see from where you were before), with 2 children playing and men looked for them, possibly being of your family. This is a kind of episode that I would completely unnoticed if accompanied or with other pilgrims inside of sight. However, when you are alone in the middle of nowhere, are cultivated fields and forest, the mind is more alert and “monkeys in the head” arise more frequently.

I even Castellanos de Villiquera, I find myself with the first bar and the street already hear familiar voices. :) Rested and went together for another 4 km to Calzada de Valdunciel.

The hostel is now very little (8 beds) and super cozy. Actually, I was expecting to see many new faces along the way, for as many pilgrims end in Salamanca, many others also (re) start there, but it was not what happened. Perhaps starting today choose to make a bigger step as they are still fresh and healthy! This hostel seem insufficient, in fact, was the right move, as other pilgrims who were in this village chose to stay in the hostel free enterprise.

So far seen three younger pilgrims than me, but today, here, two more meeting and are both girls!

M. is traveling the Via de la Plata with a donkey, the Chupito and his mother, who came to accompany her for two weeks. Your way of life is very simple, with meager financial resources. When they leave you to stay in hostels, leverages, otherwise sleep in the tent next to the donkey. M. does not study, he has long left home for a traveling life, which claims to be happy. The mother understands not always, but try to “get in the mood” to avoid the risk that the ties are cut. The Chupito entered the M. life somewhat by chance. I learned from some friends who had a donkey that had been abandoned for no longer be useful and that all life has gone through several owners who had one thing in common: mistreat him. M. decided to adopt it and take it to the north (through the Camino de Santiago), walk at your own pace and gradually try to tame it. I ask if I can bring to a party, she says yes, but first I will have to earn it. The approach is slow, it is very suspicious, I’m talking about, one step at a time, pulling herbs to give you and only after some time, there let me touch, but it is a moment that does not last long. With me so, with men it is worse (M. says that it is the association that makes its former owners). The story of the burrito is moving.

The second girl is Sandrine arrives much later to the hostel, but still had a free bed. With it I have time to come to walk in the future.

Here also I know Loïc and Armel, double French brothers who are remarkable for carrying their backpacks in a kind of wagon. Are funny as double because despite its sessentas (?) Continue to grumble to each other as if they were children … have brothers, give it! ;)

In the evening there was an important football game on TV and the whole village by weight, including pilgrims, was at the bar! Where had left all these people ?!

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s