Via de la Plata: 23. Morille – Salamanca. Ninguém disse que seria assim / Nobody said it was easy

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Etapa 23: Morille –  Salamanca (19 km)

Nada como acordar de manhã sabendo que teremos uma pequena etapa pela frente e o bónus de amanhã, dia de descanso. Apesar da preguicite matinal, focar-me nestes dois aspectos ajuda a dar outra energia.

O trajecto de hoje é maioritariamente a descer, de forma contínua e sem grande agressividade. No início, passamos entre quintas com o já habitual abrir e fechar de cancelas e nos últimos quilómetros, por uma estrada infinita de terra que passa entre campos. A paisagem (que se torna monótona ao fim de algum tempo), faz-me lembrar a imagem do ambiente de trabalho dos computadores que tinham instalado o Windows, com quase metade do ecrã verde e a outra com o céu com algumas núvens, se bem que neste caso, o céu está limpo. Acabamos por seguir em conjunto, sem muita distância entre nós, embora o António e o Pepe sejam os mais dianteiros. O Gordon ainda não está no seu melhor, mas tem-se aguentando bem e o dia extra ajudará a recompor-se.

A uns 6 quilómetros do fim, chegamos a um ponto emblemático desta etapa, o cimo de uma pequena colina onde se encontra uma cruz metálica com uma miniatura de Santiago e, no horizonte, a tão desejada cidade! A partir daqui, como em todas as entradas nas grandes cidades, o caminho vai perdendo beleza, aos armázens e ao crescente número de prédios, impressiona-me a quantidade de lixo espalhado no chão. Em nenhuma outra cidade vimos isto. Passamos por um túnel, um parque, caminhamos ao longo duma estrada movimentada a esta hora, passadeiras, sinais vermelhos, uma igreja e avistamos a ponte romana sobre o Rio Tormes com a cidade do outro lado. Não vejo a hora de me sentar, mas chegar aqui é uma felicidade imensa!!! Sempre tinha tido curiosidade por visitar Salamanca e ainda não tinha sido possível, além disso, ter chegado aqui, representa ter percorrido exactamente metade do caminho!! A partir daqui, em vez de somarmos os quilómetros percorridos, começará a contagem decrescente para o fim. Este pequeno “pormenor” muda tudo! :)

Passamos pelo albergue de peregrinos, pensando ficar esta noite. Apesar de só abrir mais tarde, deixam ficar as mochilas, mas está tudo meio confuso devido à praga de percevejos (chinches). As mochilas têm de ficar fechadas num grande saco de plástico o tempo todo, não as poderemos levar para o andar de cima (dos quartos), os hospitaleiros não estão no seu melhor hoje e todo o ambiente não está muito cativante para ali permanecer. Ainda assim, o António e o Pepe ficam a guardar lugar, enquanto eu e o Gordon vamos por um instante à procura do seu primeiro café do dia.

Enquanto estávamos na esplanada à espera que fosse servido o café, vemos a Heike a passar à nossa frente. Já não a víamos, a ela e à Karin, há alguns dias, pois tinham feito etapas diferentes das nossas e tinham chegado ontem a Salamanca, sendo hoje o seu dia de descanso e amanhã retomam o caminho. Disseram-nos estar numa pensão ali perto, bem no centro da cidade e com um preço muito acessível. Deu-nos o contacto, pois iríamos propor essa alternativa ao António. Combinamos encontrar-nos ao final do dia, para um café e jantar de despedida. Agora tínhamos de ir até ao albergue ter com os outros, o Pepe estava prestes a ir embora.

Afinal António e Pepe já não estavam no albergue, os hospitaleiros disseram-nos que tinham ido para a estação de autocarros. “Onde fica?” Ficava longe e não tinham um mapa que nos disponibilizassem. Fomos num passo acelerado, sempre a perguntar às pessoas na rua por indicações. O autocarro partia ao meio-dia e nós estávamos mesmo em cima da hora! Andamos, andamos, andamos, corremos (foi mais uma semi-tentativa de corrida), os pés já não doíam, estavam apenas momentâneamente anestesiados. Caramba, tinha mesmo de chegar a tempo de me despedir, nem que depois ficasse a tarde toda de cama! Finalmente chegamos à estação, esbaforidos, corremos para o número da linha correspondente ao autocarro para Málaga, não vimos nenhuma cara conhecida, continuo a tentar telefonar e finalmente, atendem. Estão num bar, perto da estação a petiscar, pois o Pepe decidiu à última da hora ir no autocarro das 14h. Que bom, estava capaz de esganá-lo, não fosse o esforço extra que teria de fazer.
Finalmente reunidos na estação, ficamos a fazer tempo pelo autocarro. Mais uma despedida!

De volta ao centro aproveitamos para almoçar, mudarmo-nos para a pensão, descansar e deambular um pouco pela cidade (a referência aos pontos de interesse fica para o post de amanhã, hoje priorizo as pessoas).

De tarde, junto à catedral encontro os austríacos Wilfrid e Rudolf. São os peregrinos que conheço há mais tempo, desde a segunda etapa e, também eles, terminam aqui o seu caminho. Só agora me apercebo verdadeiramente de que hoje o dia será de contínuas despedidas, pois são muitos os que fazendo a Via de la Plata por etapas, por aqui decidem terminar para recomeçar no próximo ano. Guardo com carinho especialmente Wilfrid, mais introspectvo e silencioso, escrevia diariamente um postal para a sua mulher. Eu não enviei tantos postais, mas como logo no início nos cruzamos numa povoação à procura da caixa de correio, a partir daí, o primeiro que a via, avisava o outro da sua localização. Já não resistia a pedir-lhe para ver a imagem do postal do dia e, ao longo deste tempo todo, houve espaço para muita coisa: touros e vacas, paisagens, sevilhanas, monumentos, tudo!

Encontro e despeço-me também das japonesas, especialmente da Takako, que falando um pouco de inglês e espanhol facilitava a comunicação. Todas elas simpáticas e bem-dispostas, na casa dos sessenta anos, tinham vindo à Europa (desta vez, a Portugal e Espanha) para uma viagem de amigas. Algumas já tinham ouvido falar do Caminho de Santiago e decidiram, assim do nada, que o iriam percorrer. O resto do grupo não quis acompanhar e continuou de férias até voltar ao Japão. Das três aventureiras, uma é alpinista no Japão, mas aqui era a que se encontrava pior dos pés, tendo mesmo de apanhar o autocarro até Zamora para recuperar até que as outras lá chegassem. Admiro a vontade e o esforço de aprenderem a língua, as palavras mais utilizadas (albergue, obrigado, por favor, etc.), enquanto estavam no caminho. Tive pena da barreira da língua, mas até onde pudemos comunicar, com palavras e mímica, assim o fizemos. Uma outra, que não recordo o nome, era especialmente danada para a brincadeira, escondendo-se quando me via ao longe nos albergues e depois pregava-me sustos, fosse no corredor, na casa-de-banho ou no quarto. :)

Também Paolo, o italiano, passa por nós e nova despedida. Está só, o Angel e o Miguel continuaram o caminho, o Chris e o Mark também tinham terminado por ali, mas já tinham partido com as suas famílias que os vieram receber. Paolo ficará mais um dia ou dois a descansar antes de voltar a casa. Traz a alegria do costume e num instante nos põe a rir às gargalhadas, mas noto algo diferente, parece-me que o descanso extra por ali tem a ver com a necessidade de colocar as ideias em ordem. Para ele, foi a primeira vez que percorreu o Caminho de Santiago, tudo foi novidade, tinha gostado, pensava que seria menos duro, não sabia se um dia voltaria a fazê-lo, mas tinha sido positivo. Sempre que me recordo dele, esboço um sorriso, um italiano galã super bem-disposto!

Por fim, e não menos triste, a despedida da Heike e Karin. Acabamos por jantar todos juntos num restaurante (tão bom, uma refeição deliciosa!). Elas continuam o caminho amanhã, mas em breve irão cortar uma parte apanhando o autocarro, pois não têm tempo de fazê-lo todo a pé, por isso, estamos certos de não as voltarmos a encontrar. Infelizmente com a Karin, tive o mesmo problema de comunicação por não saber falar alemão, enquanto a Heike dominava o inglês e não havia algum problema. Prometo-lhes que um dia irei aprender essa língua demoníaca, que na voz da Heike parece uma música doce. Aliás, até hoje, as únicas duas pessoas com quem tive esta sensação, foi com ela e com o Michael, um peregrino que conheci no Caminho Francês.

Embora não tenhamos feito nada de especial nesta jornada, foi um dia cheio de emoções e demoro a adormecer a pensar em cada um dos que partem e na forma como enriqueceram o meu Caminho.

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

Stage 23:  Morille –  Salamanca (19 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

 Nothing like waking up in the morning knowing that we will have a small step ahead and the bonus tomorrow, day of rest. Despite the morning preguicite, focus on me these two aspects helps to give another energy.
The route today is mostly down, continuously and without much aggression. Earlier, between Fifth we spent with the customary opening and closing of gates and in the last kilometers, by an endless dirt road that runs between fields. The landscape (which becomes monotonous after some time), reminds me of the image of the computers that have installed the Windows desktop, with almost half of the green screen and the other to the sky with a few clouds, although in this case, the sky is clear. Just to follow along without much distance between us, although Antonio and Pepe are the most front. Gordon is not in His best, but it has been holding up well and the extra day will help to compose herself.
At about 6 kilometers from the end, we reached an emblematic point of this stage, the top of a small hill where a metal cross with a thumbnail of Santiago and, on the horizon, as desired city! From here, as in all entries in the big cities, the path loses beauty, the warehouses and the growing number of buildings, impresses me the amount of trash scattered on the floor. In no other city we have seen this. We went through a tunnel, a park, we walk along a busy road at this time, crosswalks, stop signs, a church and we saw the Roman bridge over the Rio Tormes with the city on the other side. I can not wait to sit down, but getting here is an immense happiness !!! Had always been curious to visit Salamanca and had not been possible, moreover, have come here, it is to have traveled exactly half way !! From here, rather than add up the mileage, will begin the countdown to the end. This small “detail” changes everything! :)
We passed the pilgrim hostel, thinking stay tonight. Although only open later leave get the backpacks, but it’s all kind of confusing because of the plague of bedbugs (chinches). The bags must be enclosed in a large plastic bag all the time, do not we take upstairs (the rooms), the hospitable are not at their best today and the whole environment is not very captivating to remain there. Still, Antonio and Pepe are saving place, while me and Gordon let’s for a moment looking for their first coffee of the day.
While we were on the terrace waiting for it to be served coffee, we see the Heike going ahead. I no longer saw, to her and Karin, a few days ago, they had made different stages of our and had arrived yesterday at Salamanca and today is his day off tomorrow and resume the path. They told us to be a boarding house nearby, in the center of town and with a very affordable price. He gave us the contact, because we would propose this alternative to Antonio. We agreed to meet us at the end of the day, for a coffee and farewell dinner. Now we had to go to the hostel have with others, Pepe was about to leave.
After Antonio and Pepe were no longer at the hostel, the hospitable told us that they had gone to the bus station. “Where is it?” It was far and did not have a map that we make available. We were at an accelerated pace, always ask people on the street for directions. The bus was leaving at noon and we were even at the last minute! Walk, walk, walk, run (it was over a half-attempt at running), feet no longer ached, were only momentarily anesthetized. Heck, even had to arrive in time to say goodbye, even then stay all afternoon bed! Finally we reached the station, breathless, ran to the number of the row for bus to Malaga, saw no familiar face, still trying to call and finally meet. They are in a bar near the station snacking because Pepe decided at the last minute to go on the bus 14h. Glad I was able to strangle him, not for the extra effort that would have to do.
Finally gathered at the station, we make time for the bus. Another farewell!
Back in the center we take for lunch, mudarmo us to the inn, rest and wander a bit through the city (the reference to points of interest is for the post of tomorrow, today prioritize people).
Of late, next to the cathedral against the Austrians Wilfrid and Rudolf. Are the pilgrims who know the longest, from the second stage and they, too, end here on his way. Only now I realize truly that today will be the day of continuous farewells, because there are many who making the Via de la Plata in stages, here decide to end to start next year. Keep fondly especially Wilfrid, more introspectvo and silent, daily wrote a postcard to his wife. I sent so many postcards, but as early on we cross a village looking for the mailbox, thereafter, the first he saw, warned the other of their location. No longer resist asking you to see the day the postal image and, over all this time, there was room for much: bulls and cows, landscapes, Sevillanas, monuments, everything!
Meeting me and bid farewell also the Japanese, especially Takako, that speaking a little English and Spanish facilitated communication. All of them friendly and well-arranged, in his sixties, had come to Europe (this time to Portugal and Spain) for a girlfriends trip. Some had heard about the Camino de Santiago and decided, out of nowhere, that would go. The rest of the group did not want to follow and went on vacation to return to Japan. The three adventurers, one climber is in Japan, but here was the worst that was the feet, even having to take the bus to Zamora to recover until the other there arrived. I admire the will and the effort to learn the language, the most used words (hostel, thank you, please, etc.) while they were on the way. I had language barrier pen, but as far as we communicate with words and mime, so we did. Another, I do not remember the name, was especially damned to joke, hiding when she saw me in the distance in hostels and then preached scares me, was in the hallway, the house-of-bath or bedroom. :)
Also Paolo, Italian, passes us and new farewell. Is only the Angel and Miguel continued the way, Chris and Mark had also ended there, but had already left with their families who came to receive them. Paolo will be another day or two to rest before returning home. Brings joy custom and in an instant puts us out laughing, but I notice something different, it seems to me that the extra rest that way has to do with the need to put ideas in order. For him, it was the first time I walked the Camino de Santiago, everything was new, liked, thought it would be less hard, did not know if one day return to do so, but had been positive. Whenever I remember it, outline a smile, an Italian hunk super good mood!
Finally, and no less sad, the farewell of the Heike and Karin. We ended up dining together in a restaurant (as good, delicious meal!). They continue the way tomorrow, but soon will cut a part using bus as they have no time to do it all on foot, so we are sure not to return to find. Unfortunately with Karin, I had the same problem of communication for not knowing how to speak German, while the Heike dominated the English and there was a problem. I promise you that one day I will learn this demonic language, that the voice of Heike looks like a sweet music. In fact, until today, the only two people who had this feeling was with her and Michael, a pilgrim I met at the French Way.
Although we did nothing special on this journey, it was a day full of emotions and it takes me to fall asleep thinking about each of the departing and how enriched my path.

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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2 thoughts on “Via de la Plata: 23. Morille – Salamanca. Ninguém disse que seria assim / Nobody said it was easy

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