Via de la Plata: 21. Calzada de Béjar – Fuenteroble de Salvatierra. Viagem ao centro de mim / Journey to the center of me

PT /EN

Etapa 21: Calzada de Béjar –  Fuenteroble de Salvatierra (20,2 km) 

Não há dois dias iguais e, se ontem o estado de espírito e os pés colaboraram, hoje, esperava-me exactamente o oposto.

Transcrevo directamente do meu caderninho:
“… Mais um dia de conflito interior!
Acordei sem energia e sem vontade para caminhar. Os pés ressentidos e ainda um pouquito doloridos, embora mais recuperados que de vezes anteriores. Fui sempre atrás, num ritmo muito lento, sem vontade de me juntar aos outros. Não era propriamente cansaço, apenas falta de energia, de vontade, de pensamentos negativos. (…)
O António, como sempre, é muito perspicaz e apesar de ter desacelerado o passo, não puxou conversa nas poucas alturas que estivemos juntos. A certa altura escreveu “Luisa” no chão e fez-me sorrir. (…)
O resto do trajecto foi apenas penoso, com os músculos das pernas super contraídos, uma bolha entre os dedos do pé e mais dúvidas, mais cansaço, mais incertezas.
Em jeito de desespero e de aliviar o stress, bati com os bastões no chão, chorei, chorei, chorei, em pensamentos berrei “Que queres de mim? Que queres de mim? Estou aqui! Ecco me, ecco me! Seja o que for, estou aqui, mas ajuda-me a perceber qual o caminho!” Vim até cá porque senti que era isso que tinha de fazer. Não sei explicar o porquê, nem aos outros, nem a mim, mas vim porque assim o senti e agora que aqui estou, sinto-me um bocado vazia (claro que estou a gostar, a paisagem é linda, as pessoas simpáticas, etc., mas preciso de mais, isso não me é suficiente.) Preciso de Te sentir, de ter alguma espécie de sinal de que estou no caminho certo, de que estás comigo (eu sei que sim, mas caramba, sou tão pequenina que preciso continuamente da Tua mão).
Hoje é o dia da Mãe, em Fátima. Estava à espera de sentir algo mais, de estar melhor, de Lhe poder oferecer algo melhor e, no final de contas, só barafustei e portei-me como uma criança mimada. Que raio de presente para se oferecer!
Enfim, amanhã é outro dia e espero voltar a sorrir e a estar bem com os outros peregrinos, que me conhecendo de outros dias, disseram que hoje estava com cara muito triste. Há dias assim…”

Da caminhada em si, de facto, não guardo grandes recordações, apenas que no trajecto que percorremos, víamos montanhas ao longe com neve. Impressionante ver neve “logo ali” quando estamos sob um calor imenso!

Durante o dia o Gordon não esteve em grande forma, parecia que tinha gripe, estava sem energia, dores musculares, suores, mas mesmo assim percorreu a etapa completa. Ao chegar ao albergue, mencinou que não se sentia bem, os hospitaleiros colocaram-no num quarto sozinho para poder descansar tranquilamente (e também não contagiar ninguém), prepararam-lhe chá, deram medicação e mais tarde o almoço. Teve os mimos todos que merecia! Diz que se não se sentir melhor, pondera ficar um dia extra a descansar ou mesmo abandonar o caminho. Compreendo perfeitamente, mas não deixo de sentir como um murro no estômago.

Ao final do dia, decido ir à missa do peregrino, na igreja que fica a 100 metros do albergue. Todos falam do Padre Blas e do trabalho fabuloso que tem feito em prol do Caminho, mas infelizmente, nestes dias não está pela povoação.
O grupinho de peregrinos está composto e para meu espanto, António e Gordon também se juntam, sinal de que se sente um pouco melhor, calculo.
No final, o Padre, que só falava espanhol, decide fazer um pequeno discurso para os peregrinos e pergunta quem poderá traduzir. Acabo por me encontrar ao lado dele, no degrau acima a fazer a tradução simultâne em inglês e francês. A certa altura distraio-me por uma fracção de segundos ao ver as caras compenetradas de todas aquelas pessoas naquilo que dizia e ocorre-me um “Quem diria?!” Nunca na vida pensei viver um momento assim, a fazer de tradutora! :) Bom, estes pensamentos paralelos e o facto de me parecer que o senhor repete pela terceira vez a mesma ideia apenas com a ordem das palavras alteradas, faz com que me desconcentre completamente e, em desespero de causa, olhe para o António. Ele, dos que ali conhecia, era o único poliglota que faria melhor figura nesta tarefa, bem melhor que eu e assim me safou! Nesse final de tarde e nos dias seguintes, teria alguns colegas a agradecer a disponibilidade por ter ido fazer a tradução, embora, honestamente, não achasse que tivesse sido grande trabalho. “Se nós pudemos compreender algo, foi porque alguém fez a tradução, por isso, obrigada!”  :)

Pontos finais: Ponderei se deveria transcrever os apontamentos do meu caderno e, se acabei por o fazer, é apenas com o intuito de, uma vez mais, deixar claro que ter Fé, ser Cristão, abraçar uma Religião (qualquer que seja), não é um dado adquirido, pelo contrário, é um caminho que se tem de percorrer continuamente. Este tema acabou por ser variadas vezes discutido ao longo da minha peregrinação, mas também no dia-a-dia quantas vezes oiço comentários de “quem está fora” sobre a fé dos outros. É entendida como uma tatuagem feita à nascença, uma sina ou uma lavagem cerebral, em que se segue por não ter poder de discernir e ter vontade própria ou “por não ter outro remédio”. Sinto que é justamente o oposto. Desconfio é de quem diz nunca ter dúvidas, seja em que lado da barreira estiver e de quem não é capaz de respeitar as crenças dos outros. Respeitar não é acreditar, muito menos compreender, é tão simplesmente dar liberdade e espaço para cada um ser como é. Tanto no dia-a-dia, como no caminho, nem sempre encontrei esse respeito, é pena…

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

_________

EN

Stage 21: Calzada de Béjar –  Fuenteroble de Salvatierra (20,2 km) 

Everyday is so different, if yesterday the mood and feet collaborated today, I would experience exactly the opposite.

I quote directly from my notebook:
“… Another day of inner conflict!
I woke up without energy and unwilling to walk. The feet still sore, even if a little bit better than other days. I was always behind in a very slow pace, unwilling to join the others. I was not exactly tired, just lacking in energy, will and negative thoughts. (…)
António, as always, is very insightful and although he has slowed the pace, de did not start a conversation in the few times we were together. At one point he wrote “Luisa” on the floor and that made me smile. (…)
The rest of the journey was just painful, with the legs muscles contracted, a blister between the toes and more doubts, more fatigue, more uncertainty.
In despair and to relieve stress, I hit with the batons on the floor, cried, cried, cried, in thoughts I screamed “What do You want from me? What do You want from me? I’m here! Ecco me, ecco me! Whatever it is, I’m here, but help me to understand which is my way! ” I came here because I felt that this was what I had to do. I can not explain why, nor to others and nor for me, but I came because I felt that this was what I had to do. And now that I’m here, I feel a bit empty (of course I’m enjoying, the landscapes are beautiful, the people friendly, etc. but I need more, this is not enough.) I need to feel You, to have some kind of sign that I’m on the right path, that You are with me (I know you do, but damn, I’m so insignificant that I continually need Your hand to guide me).
Today is the day of Our Lady, in Fátima (Portugal). I was expecting to feel something more, to be better, to be able to offer to Her something better and, in the end, I had only murmured and behaved like a spoiled child. What a gift to offer!
Anyway, tomorrow is another day and I hope to smile again and to be well with the other pilgrims. The ones that know mw longer said that today I waswith a very sad face. Tomorrow will be better … “

From the walk itself, I do not keep great memories, only that during the path we have done, we saw mountains with snow. Impressive to see snow “right there” when we are under of heat!

During the day Gordon was not in great shape, it looked to be a flu, he was without energy, muscle aches, sweating, but still he walked all the stage. At the albergue, he said to the hospitables (hospitaleiros) that he was not feeling good and they put him in a private room to rest quietly, prepared him a tea, given medication and later, the lunch. He had all the pampering he deserved! If tomorrow he is not feeling better, he ponders to stay an extra day to rest or even abandon the camino. I fully understand, but I couldn’t avoid to feel it like a punch in the stomach.

At the end of the day, I decide to go to Pilgrim’s Mass in the church which is 100 meters from the albergue. Everyone talks of Father Blas and the fabulous work he has been doing on behalf of the Way, but unfortunately these days he is not in the village.
For the mass there is a little group of pilgrims to my amazement, António and Gordon also join, a sign that he feels a little better, I suppose.
In the end, the Father, who spoke only Spanish, decides to make a little speech to the pilgrims and asks who can translate. In a few moments I just find myself next to him,doing the translation in English and French. I get distract in a fraction of a second when I see the serious faces of all those people and it occurs to me a “Who would ever say I would be here?!” Never thought to live such a moment, to be a translator! :) Well, these parallel thoughts and the fact that it appeared to me that the priest was repeating the same idea for the third time only changing the order of the words, made me to completly distract and, in desperation, I search for Antonio. He was the only polyglotthere that would best figure in this task, much better than me and so he helped to translate the final speech! In this late afternoon and the following days, I would have some pilgrims thanking me for the availability to translate, though honestly I did not think it would have been a great job. “If we could understand something, it was because someone did the translation, so thank you!” :)

Final thoughts: I pondered if I should transcribe the notes from my notebook and if I finally did, it’s just in order to, once again, make clear that to have faith, to be a Christian, embrace a religion (whatever it is), it is note something taken it for granted, on the contrary, it is a path that has to be done continuously. This issue was discussed various times throughout my pilgrimage, but also in day-to-day how many times I hear comments from who is “outside” about the faith of the others. It is understood as a tattoo done at birth, a fate or brainwashed in what people follow by not having power to discern or “not to have a choice.” I feel it’s just the opposite. I suspect who says never doubt, no matter in which side it is and who is not able to respect the beliefs of the others. Respect is not to believe, much less is to understand, is simply to give freedom and space for everyone be as they are is. Both in day-to-day, as in the way, not always met this respect, it is a pity …

 Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s