Via de la Plata: 17. Grimaldo – San Gil. Nasceu uma família / A family was born

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Etapa 17: Grimaldo  – San Gil (20 km) + 2 horas

Quando saímos esta manhã do albergue, estávamos longe de imaginar tudo o que nos viria a acontecer!

Não consegui dormir descansadamente e isso reflectiu-se de manhã nalguma falta de energia. Saímos juntos do albergue, mas todos seguem mais à frente, o que até me dá jeito, porque como temos de fazer um desvio para voltar ao caminho e ainda está escuro, eu só tenho de me limitar a segui-los enquanto que quem vai à frente vai à caça das setas.

Esta manhã voltamos a atravessar alguns terrenos e a abrir e fechar cancelas. Quando os rapazes, agora três (António, Gordon e Pepe) páram para uma pausa, faço-lhes companhia e  peço para tirar fotos pois tenho a sensação de que hoje será a última etapa que fazemos juntos. Eu pretendo ir até Galisteo, eles ponderam ir para a povoação seguinte, a 10km (confesso que com pena minha, mas cada um tem de seguir o seu caminho).

Após a pausa, surge a grande questão: seguiremos os avisos do guia e dos locais de Grimaldo em relação ao desvio para Riolobos ou arriscamos atravessar a quinta?
[Nota: Como já terá dado para perceber através de alguns posts, o caminho traçado, por vezes, passa por terrenos privados, normalmente de pastagem ou cultivo. Acontece que o propietário de uma das quintas mais à frente no percurso, a “finca Larios” andou na Justiça com a Junta de Extremadura por esta ter sinalizado a sua propriedade e ganhou a batalha, não permitindo que se atravesse os seus terrenos. No entanto, a informação que circula, mesmo testemunho de outros peregrinos em grupos nas redes sociais/sites, é que não há nenhum problema e não tiveram qualquer dificuldade nesta etapa. Enfim, a verdade é que vimos setas apagadas (borradas a preto) e o desvio para Riolobos sinalizado.] Eu tinha decidido que se estivesse sozinha na altura de escolher qual das opções, seguiria pela mais segura, o desvio de Riolobos, apesar de representar pelo menos 4 km extra, mas como estava com os 3 estarolas nessa altura fomos a votações e perdi, 3 contra 1.

A parte inicial é tranquila, passamos entre gado a pastar e mais campos, o problema é mais à frente. Ao seguir por um caminho de terra batida, aproxima-se um carro, António fala com o casal que lá vinha e eles dizem que não será possível continuar por ali, a propriedade está fechada, há uma alternativa que nesta altura não é viável, trata-se de atravessar um riacho cujo caudal está cheio, seria preciso ir a nado. Assim, só há duas soluções, ou virar à direita à procura de outra quinta onde seja possível atravessar ou voltar para trás. Esta última hipótese, pelo número de quilómetros extra que implica é simplesmente angustiante! Seguimos todos pela direita, ao longo de um canal, mas agora somos cinco, já que reencontramos Brigitte, também perdida nesta espécie de labirinto.
O calor faz-se sentir com intensidade e o cansaço também, a incerteza do que nos espera leva a que o ambiente comece a ficar um pouco tenso. Andamos, andamos, andamos e todas as portas/cercas que encontramos, estão fechadas. Pepe decide parar junto a uma delas, à procura do mapa no seu Ipad para cortar caminho, nós continuamos mais um pouco na esperança de que mais à frente haja uma casa. De facto, encontramos uma, mas o proprietário é muito pouco amigável, não se disponibiliza a dar grande ajuda, nem a dar informação se existe um táxi (ou o contacto telefónico) ou transporte por ali perto (confesso que se houvesse, desta vez teria cedido!). Após alguma insistência, acaba por dizer que dá permissão para passarmos nos seus terrenos e explica-nos quais são. Poderíamos ter optado logo de início atravessar um qualquer terreno, mas isso é invasão de propriedade privada e como são tão vastos, não sabemos se algures há gado a pastar e/ou se existem cães de guarda, daí a necessidade de ser prudente. No regresso ao caminho, e ainda com o ambiente tenso, pois apesar de tudo, ainda tínhamos muito pela frente, há nova divergência entre Brigitte e António, o culminar dos últimos dias, fazendo com que ela siga num passo muito acelerado e se distancie do grupo . Foi a última vez que a vi e tive pena que as coisas terminassem desta forma.

Identificada a propriedade que procurávamos, o problema agora seria como iria eu subir os portões, ainda mais porque alguns deles são frágeis e com arame farpado, não aguentando o peso de uma pessoa ali empoleirada. António, no seu melhor, tem o dom de nos momentos mais duros ou tristes dar a volta à situação e começa a expor várias hipóteses, o que nos fez rir aos três. A verdade é que as 3 cercas que tivemos de atravessar, ao contrário de tantas outras que tínhamos visto, eram possíveis de manejar, dando a abertura necessária para passarmos sem necessidade de grandes aventuras. “Obrigada, Obrigada”, repetia mentalmente a quem me pudesse ouvir. ;)  Passamos os terrenos, com vegetação alta, uma parte estava alagada, mas nesta altura já não nos importávamos com nada, apenas queríamos sair dali e ter a certeza que íamos na direcção correcta. Ao longe avistamos Pepe, sinal de que estamos no rumo certo! Continuamos até que vemos uma seta e só aqui, depois de umas 2 horas que me pareceram uma eternidade, paramos à sombra para descansar e relaxar. O espaço não era o mais confortável, o chão estava branco da suma-à-uma,  mas tinha uns troncos de árvore que serviam de banco. Deu para descansar e festejar o retorno ao caminho com chocolate! Daqui para a frente, o ambiente era completamente outro, toda a tensão havia desaparecido.

A certa altura vemos um desvio a dizer “Albergue” e seguimos a indicação. Depois dos acontecimentos de hoje, eles desistem de continuar para a etapa seguinte, para minha alegria. Chegamos à povoação, que ao contrário do normal não tinha nenhuma tabuleta com o nome da mesma, procuramos o albergue que estava fechado. Estranhamos, mas seguimos as indicações para ir buscar a chave. Enquanto o António fez-nos esse favor, eu e o Gordy tiramos os sapatos, aproveitamos a fonte ali em frente para refrescar os pés, beber água, pôr a cabeça debaixo da torneira, enfim, quase um duche completo! Quando entramos no albergue, estranhamos não ver ninguém, é certo que nos separamos de toda a gente e os que seguiram pelo desvio deverão demorar um pouco mais a chegar, mas pelo menos o Pepe já ali devia estar, afinal de contas, tínhamo-lo visto ao longe, muito à frente de nós. Pensamos que talvez tenha decidido avançar para a etapa seguinte, o que seria estranho, visto ele ter transparecido algum cansaço e dores nos pés.

O albergue em si é uma casa, nem faz lembrar que estamos num albergue de peregrinos (no sentido de que este é mais impessoal). Os rapazes decidem ficar os dois num quarto e deixar o outro para mim, mimos! Tratamos das tarefas diárias, eles fazem a siesta, eu aproveito para estar um pouco na varanda e ler o livro assinado pelos peregrinos. Embora não perceba todas os idiomas e caligrafias, há algo que não bate certo. Há várias referências ao quão bem tratados foram “em San Gil”… hmmm, não deveria ser “em Galisteo”!? Afinal, onde estamos nós, que no guia não há qualquer referência a esta localidade?

Quando eles despertam, vamos ao bar dos cuidadores do albergue e explicam-nos que estamos a 2 km de Galisteo, o que não tem grande prejuízo para prosseguir o caminho amanhã, já que há um desvio que nos levará ao traçado correcto. Está explicado porque somos os únicos nesta povoação! Na verdade, não estamos nada mal, bem pelo contrário, temos o albergue/casa só para nós, as pessoas daqui são muito, muito simpáticas, fomos bem recebidos e ainda por cima o albergue é gratuito. Sim, este é mesmo gratuito, o único em todos os caminhos que conheci até hoje! (Normalmente as pessoas entendem que “donativo”  significa ser “gratuito”, o que é uma ideia completamente errada, já que muitos que optam por esse sistema, subsistem do que os peregrinos lá deixam. Não é por não necessitarem, é mais uma filosofia de vida. No entanto, neste caso, é mesmo gratuito, não quiseram receber nada, nem há caixa de donativos, nada. Ainda assim, deixamos algo pelo trabalho que sabemos terem, “Não há almoços grátis”.)

A meio da tarde regressamos a casa, parece mesmo que estamos em casa, que somos uma família, é estranho dadas as circunstâncias, mas é um ambiente muito bom! De repente, oiço gritar da rua “LUISAAAA”. Huh?! Poderia ser outra luisa qualquer mas reconheço a voz, é o Pepe que está à porta do albergue. Ele, tal como tínhamos visto, estava mais adiantado que nós e quando chegou ao Albergue de Galisteo, só havendo 4 camas livres, decidiu esperar à porta. Se chegássemos e houvesse lugar, ficávamos todos ali, se tivéssemos de ir para outro lado, iria connosco. Ao ver o tempo a passar e nenhum de nós aparecer, começou a achar estranho e a pensar se teria sucedido alguma coisa. Ele tinha chegado a ver a Brigitte passar pouco depois dele próprio ter chegado e ela tinha-lhe deixado o número de telemóvel para ele me entregar já que não houve tempo para uma despedida propriamente dita. Até então, ele não tinha nenhum dos nossos contactos, não havia maneira de saber onde estávamos. Quando as camas foram sendo ocupadas e só sobrava uma, ele decidiu ocupá-la e em conversas com o hospitaleiro, este disse-lhe que havia um albergue a 2 km dali. Sem saber se estaríamos ou não, apesar do cansaço e do calor, veio averiguar pessoalmente. Esta demonstração de carinho e preocupação não tem preço, não é qualquer pessoa que o teria feito e foi a cereja no topo do bolo para este dia intenso em emoções. Mais do que as palavras, ficam as acções, Obrigada Pepe, inesquecível!

Pontos finais: San Gil enquanto local não tem nada de especial, mas ficou no coração de todos nós pela amabilidade das pessoas, o cuidado, a atenção, a simpatia, a forma como nos receberam genuínamente, foi impressinante! Sim, noutros locais há pessoas muito simpáticas, sem dúvida, mas aqui foi a povoação inteira e no ar reinava uma tranquilidade que em tantos sítios não se encontra. “São as pessoas que fazem os lugares” e é por isso que fica o desejo de voltar. San Gil, no meio do nada, ficou a fazer parte do nosso mapa!

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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Stage 17: Grimaldo  – San Gil (20 km) + 2 hours

(Translation in progress… google translation for now) :\

When we left this morning from the hostel, we were far from imagining all that would happen to us!

I could not sleep at ease and this was reflected in some morning power outage. We left together from the hostel, but all follow ahead, which to me gives way, because as we have to make a detour to get back on track and still dark, I just have to limit myself to follow them while those who go to front goes hunting arrows.

This morning we return to cross some land and to open and close gates. When the boys, now three (Anthony, Gordon and Pepe) stop for a break, do them company and ask to take pictures because I have the feeling that today will be the last stage we do together. I plan to go to Galisteo, they ponder go to the next village, 10km (I confess that to my regret, but one has to go his way).

After the break, comes the big question: follow the prompts guide and Grimaldo addresses in relation to detour to Riolobos or we risk crossing the farm?
[Note: As has already given to realize through some posts, to the track sometimes passes through private land, usually pasture or crops. It turns out that the owner of a the fifth later in the route, the “finca Larios” went to court with the Junta de Extremadura for having signaled their property and won the battle, not allowing them to cross their land. However, the information circulating, even testimony of other pilgrims in groups on social networks / sites, is that there is no problem and did not have any difficulty at this stage. Anyway, the truth is we saw off arrows (blurred black) and the deviation signaled to Riolobos.] I had decided that if she were alone in time to choose which of the options, follow the safer, the diversion of Riolobos, despite representing at least 4 km extra, but as was the 3 Stooges then went to polls and lost 3 to 1.

The initial part is quiet, spent between cattle grazing and more fields, the problem is more ahead. By following by a dirt road, approaching a car, Antonio talks to the couple who had been there and they say that you can not continue that way, the property is closed, there is an alternative that is not feasible at this time, it If you cross a stream whose flow is full, it would have to go swimming. Thus, there are only two solutions, or turn right looking for another farm where you can cross or turn back. The latter, by the number of extra kilometers that implies is simply distressing! We follow all the right, along a channel but are now five, since we find Brigitte also lost in this sort of labyrinth.

The heat is felt with intensity and fatigue also the uncertainty of what awaits us means that the environment start to get a little tense. We walk, walk, walk and all doors / fences that we find are closed. Pepe decides to stop by one, to map demand in your Ipad to cut corners, we continue a little longer in the hope that later on there is a house. In fact, we found one but the owner is very unfriendly, is not ready to give great help, or to give information if there is a taxi (or telephone number) or transport nearby (I confess that if there was, this time would given!). After some prodding, ends by saying that gives permission to pass on their land and explains what they are. We could have opted early on through a any land, but this is trespassing on private property and how are so vast, there do not know if somewhere cattle grazing and / or if there are guard dogs, hence the need to be prudent. On returning to the road, and even with the tense environment because after all, we still had much to look forward, there are new divergence between Brigitte and Antonio, the culmination of recent days, causing her to follow a very fast pace and distance himself from the group. It was the last time I saw her and I felt sorry for it to end this way.
Identified the property we were looking for, the problem now would be how I would climb the gates, even more so because some of them are fragile and barbed wire, not enduring the weight of a person perched there. António, at its best, has the gift of the harder or sad moments to get around the situation and begins to expose various hypotheses, which made us laugh the three. The truth is that the 3 fences that had to cross, unlike many others we had seen, it was possible to handle, giving the opening needed to move without great adventures. “Thank you, Thank you,” mentally repeated to those who could hear me. ;) We land with tall vegetation, a part was flooded, but this time already did not care about anything, just wanted to get out and make sure we were going in the right direction. In the distance we saw Pepe, a sign that we are on track! We continue until we see an arrow and only here, after some two hours that seemed like an eternity, we stopped in the shade to rest and relax. The space was not the most comfortable, the ground was white short-to-one, but was about tree trunks serving bank. He gave to rest and celebrate the return to the path with chocolate! From now on, the atmosphere was quite another, all the tension was gone.

At one point we see a detour to say “Hostel” and follow the indication. After today’s events, they quit to continue to the next step, to my delight. We reached the village, which unlike normal had no tablet with the name of it, look for the hostel was closed. We wonder at, but follow the signs to get the key. While Antonio made us this favor, and I Gordy took the shoes, took the source there in front to refresh your feet, drink water, put his head under the tap, well, almost a full shower! When we entered the hostel, wonder at not seeing anyone, it is certain that we separated from everybody and those who followed the detour will take a little longer to arrive, but at least the Pepe already there should be, after all, We’d it seen in the distance, far ahead of us. We thought maybe it decided to proceed to the next step, which would be strange, since he had come across some fatigue and pain in the feet.

The hostel itself is a house, nor does remember that we are a pilgrim hostel (in the sense that this is more impersonal). The boys decide to stay both in a room and let the other to me, pampering! We handle the daily tasks, they do a siesta, I take to be a bit on the porch and read the book signed by pilgrims. Although not notice all the languages and calligraphies, there is something not quite right. There are several references to how well treated were “in San Gil” … hmmm, should not be “in Galisteo” !? After all, where we are, that the guide makes no reference to this locality?

When they wake up, go to the bar of the hostel carers and explain to us that we are 2 km from Galisteo, which has no major injury to proceed the way tomorrow, as there is a detour that will take us to the correct path. It is explained because we are the only ones in this town! We’re actually not bad, quite the contrary, we have the hostel / home only to us, the people here are very, very friendly, we were well received and on top of the hostel is free. Yes, this is even free, the only one in all the ways that I met today! (Usually people understand that “donation” means to be “free”, which is a completely wrong idea, since many who opt for this system, remain the pilgrims leave there. There is not need, is more a philosophy of life. However, this case is even free, would not receive anything, nor is there donations box, nothing. Still, we leave something for the work that they know, “There is no free lunch.”)

In the afternoon we return home, it seems that we’re home, we’re a family, it is strange given the circumstances, but it is a very good atmosphere! Suddenly, I hear the cry “LUISAAAA” street. Huh ?! It could be any other Luisa but recognize the voice, it is Pepe who is the hostel door. He, as we had seen, it was in advance of us and when we arrived at the hostel Galisteo, with only 4 free beds, decided to wait at the door. If we got there and place, we were all there, if we had to go somewhere else, would us. Seeing the time to pass and neither of us show up, he began to feel strange and wondered if something would have happened. He had come to see Brigitte pass shortly after his own had arrived and she had left her mobile phone number for him deliver me since there was no time for a proper farewell. Until then, he had none of our contacts, there was no way of knowing where we were. When the beds were being occupied and only one was left, he decided to occupy it and in conversations with the friendly, this told him that there was a hostel 2km away. Not knowing whether we would or not, despite the fatigue and the heat, came ascertain personally. This display of affection and concern is priceless, is not anyone who would have done and it was the icing on the cake to this intense day emotions. More than words, are the actions, Thanks Pepe, unforgettable!

Final thoughts: San Gil while location is nothing special, but it was in the heart of all of us by the friendliness of the people, care, attention, sympathy, how we received genuinely was impressinante! Yes, elsewhere there are very friendly people, no doubt, but here was the entire village and the air one tranquility that reigned in so many places is not. “It’s the people that make places” and that’s why is the desire to return. San Gil, in the middle of nowhere, it was part of our map!

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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