Via de la Plata: 4. Almadén de la Plata – El Real de la Jara. Do Paraíso ao Inferno / Paradise to Hell

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Etapa 4: Almadén de la Plata – El Real de la Jara (19 km)

O meu objectivo do dia era chegar a El Real de la Jara, optar por uma etapa curta, pois começava a sentir o cansaço a acumular-se e as plantas dos pés a acusarem o esforço. Os rapazes pretendiam ir mais longe, até Monasterio, mas isso implicava fazer 34,5km em vez de 19km. Deixei a decisão final para tomar quando chegasse a El Real de la Jara e percebesse a reacção do corpo.

Foi fácil despertar e caminhar com eles, tal como na véspera, a boa disposição era uma constante e as barreiras das diferentes línguas em nada eram impeditivas. Pedro e Emílio falavam castelhano, Doriano italiano com algumas palavras espanholas pelo meio, eu num portiñol convicto e um pouquinho de italiano. O importante era comunicar, independentemente dos erros gramaticais.

A etapa de hoje, também era muito bonita, no meio da natureza e passando por várias quintas, o que implicava abrir e fechar portões/cercas, abrir e fechar, abrir e fechar. Tantos eram os portões, que os rapazes para arranjarem forma de se entreter, começaram a ver quem chegava primeiro ao portão seguinte para cobrar a passagem, “una cerveza”. Por ser a menina do grupo, estava livre de pagar imposto de passagem, não tendo de correr para felicidade dos meus pés.

Outra distracção eram os riachos (e a partir de certa altura, até as poças de água). Parece que o Pedro tinha tendência para colocar sempre os pés dentro de água, portanto quando havia o mínimo perigo a aproximar-se, os outros avisavam “Pedro, aguaaaa”.
Ou então ouvia-se “Luísa, animalessss”. Desde o dia anterior que o guia dizia que se poderia ver veados, mas não encontramos nenhum para meu desconsolo. Ora, ali, a passar por quintas, havia inúmeros porcos, cabras, ovelhas, etc. Não era bem a mesma coisa que encontrar o “Bambi”, mas para o caso serviam.

Entre estas e outras brincadeiras, chegamos a El Real de la Jara. Dizem que a Via de la Plata é sobretudo plana, bom, diria que é muito mais plana que o caminho Francês, mas tem os seus desníveis e hoje, à chegada, sentia-me cansada e com necessidade de repousar, o corpo assim o pedia. Não foi uma decisão de ânimo leve, queria muito continuar mais um pouco com os 3 compinchas (até porque os espanhóis só fariam uma “pequena” parte, até Cáceres, o Doriano é que iria até Compostela), mas tinha de saber parar ou arriscava não chegar ao objectivo final.

Entramos na povoação e, no deixei a mochila enquanto íamos a um bar comer algo. À saída, os companheiros pedem à hospitaleira “cuide bem dela”. Ao longo do tempo que passamos juntos, estes gestos mínimos e espontâneos de ternura, cuidado e respeito, foram frequentes e senti-me mimada, mais do que mereceria. Diziam, por vezes, que tinham filhos (e filhas) da minha idade e que, se estes estivessem longe de casa, gostariam de saber que também estavam a ser bem tratados.

Lanche tomado, era hora de partir, um longo caminho ainda os esperava. O Pedro ainda quis ler a minha sina na mão e profetizou que estava para “breve” um encontro com alguém especial. Certo, Pedro! Mas… seria?

Fiquei a vê-los partir com um alemão, alcunhado de El Roncador. Parece que era o supra-sumo do ressonar, eu nunca notei (felizmente, dormia que nem uma pedra derivado ao cansaço) e diziam também que eu ao lado dele era bem discreta (nem todos viriam a concordar no futuro…). :)

Já que estava no centro, aproveitei para fazer as compras para o resto do dia e manhã seguinte, voltei ao albergue e tranquilamente fui tratando dos afazeres. Os quartos eram de pequenas dimensões, 4 camas em 2 beliches, o que à primeira vista me pareceu agradável, pois teria mais tranquilidade mesmo que o quarto se viesse a encher.

Adormeci, mas a paz e sossego não duraram muito tempo. Entram 3 peregrinos pelo quarto adentro, numa balburdia. “Acordamos-te?” Nãooo, ora essa! 2 eram franceses, mas desenrascavam bem o espanhol, o outro hispano-franco. As coisas começaram mal, eles continuaram a fazer barulho e eu decidi sair do quarto. Aproveitei o terraço para acabar de escrever os benditos postais que vinham desde Sevilha, eles apareceram, a comunicação foi breve, decidi voltar ao centro e estar em paz.

Ao final da tarde volto para o albergue, eles não estão no quarto, aproveito para me deitar cedo. Mais tarde chegam, novamente em algazarra, pelo menos um deles a cheirar a álcool, o jantar tinha sido animado. Nova tentativa de comunicação que não correu bem. Pela primeira vez sinto desconforto de estar a partilhar o quarto. Às vezes é tão mais fácil estar numa camarata cheia de gente…

Volto a sair do quarto, fico na “sala” a escrever.

Não há palavras para descrever o desconforto que senti naquele dia, talvez por um acumular de situações.. não sei, mas a verdade é que o que na altura escrevi no meu caderno, de agradável, não tem nada!

Quando bem mais tarde já não ouvia barulho, voltei ao quarto e adormeci. Foi um sono leve, inquieto e pouco reparador. Só desejava que amanhecesse para sair do albergue e fazia figas para não os voltar a encontrar, mas as coisas nem sempre correm como queremos…

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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EN

Stage 4: Almadén de la Plata – El Real de la Jara (19 km)

(Translation in progress… google translation for now) :\

My goal for the day was to get to El Real de la Jara, opt for a shorter step because began to feel tired to accumulate and the soles of the feet to accuse the effort that had long been desabituadas. Pedro, Emilio and Doriano intended to go further, to Monasterio, but it implied to 34,5km instead of 19km. I left the final decision to make when it came to El Real de la Jara and realized the reaction of the body.
It was easy to wake up and walk with them, as the day before, the good mood was a constant and barriers of different languages were nothing blockage. Peter and Emilio spoke Spanish, Italian Doriano with some Spanish words in the middle, I convinced a portiñol and a little Italian. The important thing was to communicate, regardless of grammatical errors.

Today’s stage was also very beautiful, surrounded by nature and going through several estates, which meant open and close gates / fences, open and close, open and close. So many were the gates, the young men to arrange a way to entertain, began to see who came first to the next gate to charge the passage, “una cerveza”. The first to spot the next gate began “Cancellooooo” and off they’d go, the speed to win “otra cerveza”. As the only woman in the group, was free to pay transit tax, so escusava running and my feet were grateful.
Another distraction were the streams (and from one point to the puddles). It seems that Peter had a tendency to always put your feet in the water, so when there was the least danger approaching, others warned “Peter aguaaaa”.
Or was heard “Louise, animalessss”. Since the previous day that the guide said we could see deer, but did not find any to my chagrin. In fact, not deer or any other animal, except for birds. Now, there, going through Thursdays, there were numerous pigs, goats, sheep, etc. Not quite the same thing was to find the “Bambi”, but in case served.
These and other games, we come to El Real de la Jara. They say the Via de la Plata is mostly flat, good, say it is much flatter than the French way, but it has its bumps and today, on arrival, I was tired and in need of rest, the body so requested . It was not a decision lightly, wanted to continue a little longer with 3 buddies (because the Spaniards would only make a “small” part until Caceres, Doriano is that going to Compostela), but had to learn to stop or risked not reach the ultimate goal.

We entered the village and, right there, is the municipal hostel and private. We saw the two and decided it would be in private, to have better looking and wi-fi and the price difference is minimal. We spoke to the hospitable to leave the backpack as we went to a bar to eat something. At the exit, the companions ask the hospitable “take good care of it.” Over time we spent together, these minimum and spontaneous gestures of tenderness, care and respect, were frequent and felt spoiled, more than it deserves. Said sometimes they had sons (and daughters) of my age and that, if they were away from home, would like to know who were also being treated well.
Finished his lunch, they had to go, a long way still waiting for them. Pedro still wanted to read my fate in hand and that was prophesied to “soon” a date with someone special. Okay, Peter! But … would it be?

I was to see them go to a German, nicknamed El Roncador. It seems that it was p pinnacle of snoring, I never noticed (thankfully, slept like a log derivative to fatigue) and also said I beside him was very discreet (not all would agree in the future …). :)

As it was in the center, I used to buy the supplies needed for the rest of the day and next morning, I went back to the hostel and went quietly dealing with affairs (showering, washing clothes, preparing backpack, snack, take special care of your feet and rest). The rooms were small, 4 beds in 2 bunk beds, which at first seemed nice, it would have more peace of mind even if the room were to fill.

I fell asleep, but the peace and quiet did not last long. 3 pilgrims come by into the room, talking loudly, laughing, land backpacks and then one of them asks “you agree?” Nooo, now this! They had spoken to me in Spanish and answered in that language, but among them spoke French (2 were French, but well desenrascavam Spanish, 1 Spanish-French), thinking it did not, but I could understand all the comments. Things started badly, they continued to make noise and I decided to leave the room. I took the terrace to finish writing the blessed cards coming from Seville, they appeared, communication was brief, I decided to return to the center and be at peace.

In the evening back to the hostel, they are not in the room, I take to bed early. Later arrive again in uproar at least one of them smelling of alcohol, dinner had been animated. New communication attempt that did not go well. For the first time feel discomfort of being sharing a room. Sometimes it’s so much easier to be in a ward full of people …
Again I leave the room, I’m in the “room” to write, as I make time to see if fall asleep. There seemed no way the party is over and now thought to be sleeping around with the same blanket that had brought the room.

There are no words to describe the discomfort I felt that day was by an accumulation of situations (very tired, farewell to the 3 stooges, initial lack of empathy, …), do not know, but the truth is that what I wrote at the time in my notebook, nice, has nothing!

When much later no longer heard the noise, I went back to the room and fell asleep. It was a light sleep, restless and somewhat refreshing. Just wanted dawn to leave the hostel and fingers crossed was not the return to find, but things do not always go as we want …

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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2 thoughts on “Via de la Plata: 4. Almadén de la Plata – El Real de la Jara. Do Paraíso ao Inferno / Paradise to Hell

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