Via de la Plata: 2. Guillena – Castilblanco de los Arroyos. A Primeira Tentação / The First Temptation

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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Etapa 2: Guillena – Castilblanco de los Arroyos (19 km)

Desperto com o burburinho no quarto. Em qualquer outra situação, não teria apreciado acordar assim, mas estar ali é um privilégio imenso e, por isso, desperto com boa disposição, pronta para um novo dia, na companhia do José Luís.

O José Luís já tinha percorrido o Caminho Francês (aliás, como quase todos os peregrinos na Via de la Plata, repetentes que procuram mais paz e sossego), pretende chegar a Santiago, mas tal como todos nós no início desta aventura cujo objectivo parece tão longínquo, acrescenta “se tudo correr bem” (estas expressões até Salamanca, que corresponde a metade do percurso para quem começa em Sevilha, são frequentes e assumem diversas formas: “Se Deus quiser”, “Se não tiver nenhuma mazela”, “Veremos”, “Eu quero, mas…”). Noto, por isso, que é extremamente cauteloso para que nenhum imprevisto venha empatar o seu objectivo.

Esta etapa é bonita, embora sempre a subir. Felizmente, o desnível não é grande e é esbatido ao longo dos diversos Km. Fico surpreendida por tudo estar tão verde e com flores! Até então, sempre que me falavam da Via de la Plata (e a maioria das imagens que tinha visto) era com tudo meio seco/amarelo/dourado e referência a muito calor, mas ali não se notava nada disso e eu estava fascinada com o bosque.

Embora sem pressa, seguíamos a um passo constante e sem descanso. O José Luís tinha mais pedalada do que eu (como todos os outros, verdade seja dita), mas seguimos a um ritmo confortável para ambos, até que lhe faço sinal que tenho de parar um pouco. Aproveitar o tempo para um lanche, pousar a mochila e esticar a coluna. Os pés começaram a dar sinal, embora ainda nada de preocupante.

Graças à pausa, o Frank apanhou-nos e, a partir daí, seguimos juntos até Castilblanco de los Arroyos.Com ele tive a minha primeira lição de como usar os bastões tirando o maior partido deles. Aqueles 2 objectos ganharam uma nova importância e não os viria a largar até ao fim! [Gracias Frank, preciosa ayuda!]

No albergue, nova surpresa. Diziam que na Via de la Plata haviam poucos peregrinos, mas ali, com lugar para 28, estava quase tudo ocupado! Este caminho não se compara com a afluência de outros (felizmente!), mas está em crescendo e nos meses de época alta (Abril-Junho e Setembro), há um número razoável de peregrinos. No entanto, é possível fazer etapas sem ver absolutamente ninguém. :)

A tarde é aproveitada para pôr um pouco da escrita em dia, passear pela povoação e admirar-me com a quantidade de bares e cafés existentes! Viria a verificar que noutras povoações o rácio casas/bares seria similar. De facto, os espanhóis vivem muito no exterior!

No albergue, o simpático e prestável hospitaleiro, averigua quem pretende um táxi para o dia seguinte. É prática comum cortar a primeira parte da etapa, de 16km, por ser sempre ao longo da estrada e ir directamente para a entrada do Parque Natural los Berrocales. Uma parte dos peregrinos opta pelo táxi, eu decido que irei a pé. Confesso que por momentos penso nessa hipótese,mas descarto-a de imediato. O meu objectivo desde início é percorrer o caminho todo a pé e isso implica partes por vezes atractivas e outras muito aborrecidas. Mas isso faz parte de qualquer caminho, é uma peregrinação e não um percurso turístico. O hospitaleiro pergunta-me pela 3ª vez se não quero o táxi… ai, a minha paciência! Definitivamente não quero!
Frank decide pelo táxi, pois já fez este trajecto algumas vezes e prefere aproveitar as partes mais bonitas e o José Luís gostava de continuar a acompanhar o Frank, portanto opta pelo táxi também.
Para os que apanham táxi, a etapa do dia seguinte será mais longa, por isso, sei à partida que hoje é o último dia que estamos juntos.

Desta forma, falo com um outro espanhol, o Emílio, para ver se é possível começar o dia com ele e os 2 companheiros de caminho, que já tinha visto e cumprimentado ao longo do dia de hoje. Era apenas para começar, até o dia clarear completamente, pois ainda não me sentia ainda com a confiança necessária para ir só. Concordou de imediato e fiquei mais tranquila. :)

[(…) Ter por perto alguém que já conheço, é importante (…) mas vim para ser livre, para me desafiar (…). Meu querido Jesus, talvez os tenhas posto no meu Caminho para me dar a confiança inicial, mas não me parece que fosse para ficar presa. Peço-te, no entanto, que continues a colcoar as pessoas certas na minha direcção. (…)]

Pontos finais: Em conversa com o Frank, descobrimos que já tínhamos falado num grupo (Facebook) ligado à Via de la Plata, quando andava a “estudar” o percurso. Feliz coincidência encontrá-lo por ali.
Com o José Luís viria a perder o contacto. Infelizmente, alguns dias mais tarde, vim a saber que o José Luís tinha torcido um pé ao longo da etapa, foi a um posto médico e aconselharam a fazer repouso por algum tempo. Para ele, por agora, o caminho tinha terminado. Por mais que se tenha consciência de que este é um risco iminente, tentamos não pensar demasiado nisso…

Etapas Via de la Plata

LivroUm Caminho para Todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago, Via de la Plata e Camino Sanabrés

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Stage 2: Guillena – Castilblanco de los Arroyos (19 km)

I wake up with the buzz in the room. As much as you try not to make noise, it is impossible with so many people sharing the same space. If it was in any other situation, I would not have appreciated to wake up like this, but being there was an immense privilege. So, I woke up in a good mood, ready for a new day with José Luís as fellow.

Jose Luis had done the French camino (as almost all pilgrims on the Via de la Plata, this time searching more peace and quiet), aims to reach Santiago, but like all of us at the beginning of this adventure whose purpose seems so distant, adds “if all goes well” (these expressions until Salamanca, which is half of the route for whom start in Seville, are frequent and take various forms: “God willing”, “If have no illness,” “We’ll see “” I will like, but … “). Maybe that’s why I noticed that he is extremely cautious hoping that nothing  unexpected happen.

This stage is pretty, although always going up. Fortunately, the uphill is dimmed over the several Km. I’m surprised that everything is so green and has flowers! Until then, whenever I spoke about the Via de la Plata (and most of the pictures I had seen) the landscapes were dry / yellow / gold. But there was different and I was fascinated!

Although without hurry, we followed a steady pace and without rest. Jose Luis was faster than me (well, everybody was , indeed), but we followed at a comfortable pace for both, until I sign that I have to stop for a while. We ate a snack, took off the backpack and did some stretch. The feet start hurting, but nothing to worry about for now.

This break has made Frank to catch up us on the way, and from there, we followed together until Castilblanco de los Arroyos. Thanks to him I had my first lesson in how to use the sticks. Suddenly, those two objects have gained a new importance not yet recognized by me. Would not leave them anymore until the end! [Thanks Frank, precious help!]

In the albergue, new surprise. People says that Via de la Plata have few pilgrims, but there with room for 28, was almost full! No doubt that this path does not compare with the influx of others (thankfully!) But is growing and in the months of high season (April-June and September) there is a reasonable number of pilgrims. Still, you can make stages without seeing a soul. :)

During the afternoon I update the writing in my notebook, decide to write the postcards bought in Seville, walk around the village and impresses me the quantity of bars! Would see also in other provinces that the ratio houses / bars would be similar.

In the hostel, the friendly and helpful hospitable, ascertains those who want a taxi for the next day. Apparently it is common practice to cut the first part of the stage, 16km, always along the road and to go straight to the entrance of the Natural Park Berrocales. Part of the pilgrims chooses the taxi, I decide that I will on foot. I confess I thought in this option for 2 seconds, but discard it immediately. My goal from the start is to go all the way on foot and this implies some attractive and some very boring parts. But that’s part of any path, it is a pilgrimage and not a tourist route. The hospitable asks me for the 3rd time if I do not want the cab … oh, my patience! Definitely I do not!
Frank decides to go by taxi, because he made this camino a few times and as have a few days (the goal is to reach Cáceres) rather enjoy the most beautiful parts and Jose Luis as wishes to continue with Frank therefore opts for taxi too.
For those who catch the taxi, the stage will be longer, so we know in advance that today is the last day that we’re together.

So, decided to talk to another Spanish, Emilio, to see if I could start the day with him and the two traveling companions, who had seen and greeted throughout the day today. It was just to until the daybreak, as I did not feel yet with the confidence to go alone. He agreed immediately and I stayed in peace. :)

[(…) Be around to someone who already we know, it is important (…) but I came to be free, to challenge me (…). My dear Jesus, perhaps you have put them in my path to give me the initial confidence, but I do not think it was to get caught. I ask you, however, to continue to put the right people in my way. (…)]

Final thoughts: In conversation with Frank, we found out that we had already spoken in a group (Facebook) about the Via de la Plata, when I was searching for some information about it. I had no idea I would meet him there, but it was a happy coincidence.
With José Luis would lose contact but kept informed by Frank. Unfortunately, a few days later, I heard that Jose Luis had twisted a foot along the stage, went to a clinic and was advised to rest for a while. For him, for now, the camino had ended.

Stages of Via de la Plata

Book: A Camino for All – A Pilgrim’s Diary on the Camino de Santiago, The Via de la Plata and the Camino Sanabrés

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4 thoughts on “Via de la Plata: 2. Guillena – Castilblanco de los Arroyos. A Primeira Tentação / The First Temptation

  1. estou lendo com muita atencao e interesse seus posts sobre o caminho. Voce me leva consigo na viagem. Obrigada

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