Livro “Vagabundo dos Mares”

JR

Não conheço o João Rodrigues, mas de certa forma ele sempre esteve um pouco presente ao longo da minha vida. Não sei precisar a partir de quando o seu nome se tornou familiar, mas a verdade é que a sua presença assídua nos meios de comunicação regionais, embora a secção de Desporto nunca tivesse sido a minha preferida, fez-me começar a ganhar o hábito de ir ver as suas classificações nas mais variadas provas.
Assim, quando vi o anúncio do lançamento do seu livro “Vagabundo dos Mares – Em busca do ideal Olímpico”, foi com grande expectativa que aguardei a sua leitura, para conhecer um pouco mais da sua vida enquanto desportista olímpico. E não fiquei decepcionada, bem pelo contrário!

No livro é descrita vários estágios de preparação para os Jogos Olímpicos de Londres, as dificuldades inerentes à modalidade, a distância de casa (da família, amigos e da Madeira, pela qual nutre um amor incondicional), o esforço físico e sobretudo psicológico, mas também as recompensas, a camaradagem, a superação pessoal contínua, o aperfeiçoamento técnico, a satisfação de dever cumprido, a possibilidade de conhecer mundo.

A exemplo de outros livros de desportistas que tenho vindo a ler (referidos abaixo), o que gosto especialmente nos relatos é verificar que nunca há as condições ideais para fazer seja o que for, mas estes heróis transformam as dificuldades em oportunidades e, embora os momentos menos bons e de dúvidas existenciais, não desistem. A mim, dão-me ânimo para continuar a minha pequena jornada. Não tenho ídolos, mas aprecio estes heróis do dia-a-dia! :)

“Assim, um destes dias, reavaliei os meus compromissos. Eles passam sem sombra de dúvida por potenciar um dom que desenvolvi, que é a arte de velejar. Identifico-me, tem sentido, sinto-me feliz quando o faço e há uma margem enorme de progressão. Por isso, apesar de reconhecer a suposta inutilidade, esterilidade e importância nula – que pretendo de certa forma compensar partilhando aquilo que faço – continuarei a trabalhar nesse sentido. Enquanto me for possível e enquanto houver gente que acredite no meu trabalho.” (Pg. 32)

“Nos quatro dias seguintes, senti-me literalmente a desintegrar. Quando me deitava, sentia-me oco, vazio por dentro, partido em mil pedaços, mas ao mesmo tempo sentindo com profunda nitidez a pele a roçar nos lençóis, os músculos, os ossos, as articulações. E de manhã, ficava meia hora deitado de barriga para cima tentando me convencer a levantar. Quantas vezes me perguntei: Porquê? Porque é que estou a fazer isto a mim mesmo? Para quê? Qual a razão? Faz algum sentido? Mas, invariavelmente, acabava por me levantar. Senti-me no entanto um autómato nestes derradeiros dias em Weymouth. Continuei a fazer tudo o que era necessário, mas esta ausente, como se me estivesse a observar a preparar o pequeno almoço, a montar a vela, a velejar, sem estar realmente ali. Talvez tenha sido uma forma de me abstrair. A única coisa que martelei na minha mente, dia após dia, hora após hora, regata após regata foi: só mais um dia, só mais uma regata, só mais uma bolina, só mais uma cambadela, só mais um pouco, só mais um sopro…” (Pg. 47)

“Opções, tudo são opções. Têm sempre o seu risco, mas não vale a pena tomá-las se não for com total comprometimento. Se não for para darmos o melhor de nós mesmos, de que vale levantar pela manhã? Nem todos podem ser campeões Olímpicos ou do mundo ou da Europa, mas todos, todos nós, podemos ser campeões da vida.” (Pg. 62-63)

“Senti então uma alegria contagiante, uma energia inesgotável vinda de dentro de mim, ardendo perpetuamente. Percebi então o significado de tudo o que havia feito até àquele momento. Sim, era por isso que tinha nascido e vivido.” (Pg. 140)

[Depois da longa travessia Madeira – Selvagens] “A partir do momento que pisei terra, senti-me basicamente perdido, sem saber muito bem o que fazer. Apesar do cansaço, não me apetecia dormir. Desmontei tudo, coloquei nos respectivos sacos e deitei-me ao sol, mas não sentia alegria como previra e deveria! E isso foi estranho, mesmo muito estranho. Mas depois concluí que, provavelmente, o melhor de tudo aquilo foi precisamente fazê-lo!” (Pg. 219)

[Ainda após a travessia Madeira – Selvagens] “Já no topo [da encosta], quando olhei para o oceano, apercebi-me de que a viagem de regresso ao Funchal não seria pacífica. Subi até ao farol e contemplei o horizonte, na direcção que seguira no dia anterior. Procurava sentimentos, quase um sentido maior para aquilo que fizera, mas nada surgia. Como se o esforço físico e mental que arranquei das entranhas, me tivesse tornado insensível. E por várias vezes repeti para mim mesmo que não seria capaz de o fazer de novo. (…) tal como dias mais tarde o Comandante Amaral Frazão me disse, tenho “excesso de entusiasmo”. E esse excesso de entusiasmo, leva-me a fazer coisas que à partida se afiguravam impossíveis. Mais, ao fazê-las, muitas das minhas fraquezas vêm ao de cima e, para as ultrapassar, sou capaz de me consumir completamente. Isso assusta-me.” (Pg. 220 – 221)

“E não me arrependo nesse assunto nem na maioria dos que compõem esta manta de retalhos chamada de vida. Vejo muitos erros, tantos que ainda hoje, e creio que para sempre, sinto os efeitos emocionais dos mesmos. Mas também consigo perceber a forma como ultrapassei esses períodos e de como, no limite, aprendi a conhecer-me um pouco melhor e mesmo a ter mais compaixão pelas minhas inúmeras falhas.
Também vejo momentos únicos, fosse a competir, a treinar ou simplesmente a perder-me por esses mares fora. Momentos em que me senti parte integrante dos elementos e em que toquei, por mais ténue que tenha sido esse toque, a felicidade.
Assim sendo, não poderia mudar nada, porque sei que tudo o que aconteceu me modificou e me tornou na pessoa que hoje sou. E embora não consiga discernir se para melhor ou para pior, o certo é que gosto daquilo em que me tornei e principalmente daquilo que ainda sonho ser.” (Pg. 286)

Outros livros de desportistas:
– “Correr ou Morrer”, Kilian Jornet: IIIIIIIV
– “A Mais Alta Solidão”, João Garcia: I
– “Mais Além: Depois do Evereste”, João Garcia: III
– “Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo”, Haruki Murakami: IIIIII
– “Vagabundo dos Mares”, João Rodrigues: I
– “Uma Mulher no Topo do Mundo”, Maria da Conceição: I
– “Portugal de perto”, Nuno Ferreira: I

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