Papá [Natal] de todos os dias

DSC00239“Papá”

Sentada na cadeira que lhe é tão familiar, olha distraída para a pequena janela. Vê-se um infinito de céu e mar. Enquanto aguarda a leve turbulência típica da chegada à ilha, faz como de costume, um passeio pelos motivos que a levam a ter uma vida vai-e-vem.
O culpado é o pai!
Numa época não tão distante assim, em que viajar era pouco habitual, o pai, por motivos profissionais, passava muito tempo em viagem ou a programar todos os detalhes, a arrumar e a desarrumar malas e a contar peripécias. Era um tema central e recorrente na sua casa. No entanto, apesar das partidas e chegadas serem uma constante, a sua ausência nunca deixou de ser sentida. Era uma lacuna impossível de ser preenchida com qualquer outra coisa, insubstituível. Ela, pequena, tantas vezes ficou a ver da varanda o táxi a partir, a levar o seu pai, que sentado no banco de trás dizia adeus até se perder de vista. Ao lado da mãe e do irmão, agarrada ao seu peluche de eleição mantinha-se firme, mas assim que ficava só, as lágrimas, invariavelmente, corriam. Ficava a contar os dias em contagem decrescente para o seu regresso. Nunca se habituou à distância.
As chegadas eram vividas com ansiedade, a preparação de um desenho colorido ou qualquer outro mimo ao gosto do pai para o receber. “Papá!” Quanta alegria saber que correu tudo favoravelmente e ver com os próprios olhos que ele estava bem, pois as curtas chamadas telefónicas ou as breves palavras lidas e relidas, quase memorizadas dos faxes, não davam essa segurança. Ele, ao longe, só contava as coisas boas, mas aquando da chegada, referia peripécias arriscadas, como o caso do ladrão a querer esconder-se no hotel durante a madrugada e a forçar as portas dos quartos ou os prolongados interrogatórios nos aeroportos de países comunistas à procura de possíveis espiões. Naquela pequena cabeça as histórias ganhavam uma outra dimensão, só sossegando quando o tinha por perto. “Papá!” Recebia normalmente uma lembrança da viagem, um brinquedo ou um doce típico, preciosidades desconhecidas de um mundo outrora tão distante. Peluches da Disney, canetas coloridas, jogos, bombons de massa pão ou chocolates da Suíça. Não gostava de tudo por igual, o pai nem sempre acertava nos seus gostos, mas pouco importava, era fascinante a oportunidade de poder experienciar aquela diversidade. E depois, na falta de fotografias, os postais trazidos, com direito a histórias e explicações. Ela, pequena, viajava nas palavras do pai, vivia aventuras, conhecia estranhos, temia com os percalços, mas sabia que tinham um final feliz, afinal estava sentada ao colo do seu herói.
O culpado é o pai! Lançou sementes de curiosidade que foram crescendo e adensando. Ao crescer, a urgência de partir não tardou. Primeiro para estudar, depois para conhecer, visitar, trabalhar, reencontrar e encontrar-se.
Agora, trocaram de papéis, é ela que se ausenta e ele que anseia a chegada. A saudade continua a ser inquilina estranha para ambos, um pouco mais atenuada pelas novas formas de comunicar. Ele reclama sempre com cada ausência, mas é quem a percebe melhor. Ela, sabe que nunca viaja só e que o seu destino tem morada certa, são eles, os pais e o irmão. Precisou de viajar mundo para estar mais próxima deles, ser melhor filha e melhor irmã. Aprendeu que cada viagem não é mais do que uma viagem dentro de si própria.
O avião abana um pouco e fá-la despertar dos seus pensamentos. Já vê a paisagem que tão bem conhece e tenta localizar a sua casa, entre a montanha e o mar. Ajeita-se na cadeira e sorri. Está a chegar, falta pouco para o reconfortante abraço.

Nota: Texto escrito graças a um desafio lançado pelo Bernardo Conde, uma fotografia, um texto. Mais novidades em breve.
Devido ao conteúdo, pareceu-me o presente ideal para o meu pai e hoje aqui partilho :) Boas Festas!

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2 thoughts on “Papá [Natal] de todos os dias

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