O essencial é subjectivo

Postal Natal WH“Isto foi uma palhaçada!”, dizia alguém descontente com a sessão matinal no Museu Nacional Soares dos Reis.

No passado dia 6 de Dezembro, durante todo o dia, estive num encontro organizado por “As Vozes do Silêncio – Les Voix du Silence“, sob o tema “Uma Vida como a Arte – Existimos!!! Nós somos pessoas!”, sendo que a comissão organizadora era de moradores de rua (vulgo sem-abrigo), embora (muito) apoiados por técnicos.

Este evento esteve dividido em duas partes. De manhã, o debate com representantes de diferentes áreas: habitação, Segurança Social, Câmara Municipal, Núcleo para a Integração da Pessoa Sem Abrigo, artistas e moradores de rua.

Tive o privilégio de presenciar duas das reuniões preparatórias deste evento, ouvir alguns receios e depois ver o produto final no auditório do Museu.
O C. dizia que “Gostava de ver a plateia cheia de doutores, pessoas importantes, mas eles não devem ir.” C., mas foram! Desta vez foram alguns, pode ser que na próxima levem outros, cada vez apareçam mais e a comunidade vá despertando também!
Tentei colocar-me no papel da equipa organizadora, no orgulho que deviam estar a sentir, pois o nervosismo inicial e a alegria ao longo do dia, eram bem visíveis! Se eu levei tempo a digerir este evento, estou certa que eles tão cedo não o esquecerão.

Nós, enquanto peregrinos, por vezes, parecemos que andamos a “brincar aos pobrezinhos”, a vangloriar-nos do nosso CV dos Caminhos, com X quilómetros percorridos, apenas com uma mochila às costas, supostamente, apenas com as coisas essenciais. Mas, lá dentro, o equipamento é o mais moderno possível, porque pesa pouco, seca rápido, é transpirável, etc. Depois ao final do dia, espera-nos um repasto, o menú do peregrino, com direito a tudo, pois é necessário recuperar energias. E voltamos para casa mais ricos interiormente, com esta experiência.
Então e os “moradores de rua” que não têm opção de fazer um interregno de uma semana ou um mês para experienciar o que é viver “apenas com o essencial”, dada a sua realidade já ser essa, quão ricos não serão?! E se assim é, porquê a necessidade de um evento com o nome “Existimos!!! Nós somos pessoas!” No mínimo, deveria dar que pensar!

Poupem-me as típicas respostas: “moram na rua porque querem”, “são toxicodependentes”, “sofrem de doenças mentais”, etc. Sim, há desses e depois há todos os outros também!
É fácil demonizar-se quando não se conhece, formar falsas ideias, criar preconceitos e discriminar. É preciso, por isso, passar a mensagem, dar a conhecer a realidade, que não é tão distante assim. Engane-se quem pensar o contrário!

A título de curiosidade, o conceito de sem-abrigo é vasto e abarca o cidadão que “se encontra sem tecto, vivendo no espaço público, alojado em abrigo de emergência ou com paradeiro em local precário ou sem casa, encontrando-se em alojamento temporário” (in Estratégia Nacional para a Integração da Pessoa Sem Abrigo).

Na conclusão do evento, o Professor Américo Mendes fez um apanhado de várias coisas que foram ditas e que gentilmente cedeu (já que não tirei apontamentos):
– “Ninguém desiste. Chegamos até aqui. Agora vamos até ao fim.” (António Ribeiro) -> A propósito de prosseguir com a organização deste evento.
– “Trabalhem mais connosco. De letra estamos fartos. Queremos ajudar. Somos nós que temos que estar lá. Vamos chateá-los [os dirigentes].” (Vítor)
– “A rua não tem que ser um lugar de exclusão.” (João Páris)
– “Se não fosse o amor estaria a viver na rua.” (Rui Spranger, actor)
– “Uma casa só o é se lá couberem todos.” (D. Manuel Clemente)
– “Está instituído neste país um sistema onde, na dúvida, o pobre não tem razão.” (Manuel Pizarro)
– “Quando há um problema é preciso passar pelos artistas.” (Eric Marais)
– “Também somos pessoas de bem.” (António Ribeiro)

Hoje recebi este parágrafo no e-mail e pareceu-me totalmente apropriado para este post: “Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!” (Papa Francisco)

“Isto foi uma palhaçada!” Doeu-me ouvir isto e, ao mesmo tempo percebi que ainda há muito trabalho a fazer e que não nos podemos acomodar!

(Fonte Imagem: WelcomeHOME)
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2 thoughts on “O essencial é subjectivo

  1. Infelizmente e tão verdade…. é urgente formar mentalidades para as boas mudanças, e que bom que haja pessoas como tu que o fazem de uma forma extraordinária e através de uma escrita brilhante!! ADORO!!

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