Partilha de Joana Vaz Teixeira: “Caminhando se faz o Caminho”

Machu Picchu 4Há uns meses atrás conheci a Joana num evento sobre viagens. O facto de estarmos fora do Porto e haver uma viagem de regresso conjunta, foi uma excelente oportunidade para saber alguns pormenores sobre a sua aventura de 3 meses pela América do Sul. Ela tinha chegado há relativamente pouco tempo, o brilho nos olhos e o entusiasmo a recordar essa experiência ainda eram bem visíveis. Tenho uma especial admiração por olhos reluzentes e por quem é capaz de sair da sua zona de conforto!
Quando aqui foi lançado o desafio de partilha de experiências, surgiu-me logo o seu nome, apesar de saber que ainda não percorreu o Caminho de Santiago. Nem precisa, pois o mais importante para mim, são os exemplos de superação de dificuldades, desafio, porque, afinal, os limites somos nós que os escolhemos, seja em que caminho for.
O texto é algo longo, mas vale a leitura até ao fim. A mim, fez-me viajar, ter vertigens e desejar ainda mais fazer este trilho (na certeza porém, de que vou morrer de medo)! Obrigada Joana pelo testemunho :)

Para quem quiser participar, o desafio foi lançado aqui! :)

Autora: Joana Vaz Teixeira, Blog

Caminhando se faz o Caminho

O grupo estava todo reunido na entrada do hostel em Aguas Calientes. O nosso guia Kenneth preparava-se para nos dar as recomendações finais para o dia seguinte – em poucas horas estaríamos a acordar para começar a caminhada final para o Machu Picchu. Nas últimas duas horas eu tinha conseguido duas grandes vitórias: uma, o primeiro banho em três dias, a segunda, finalmente tinha conseguido comer algo digno de se chamar uma refeição (apenas frango grelhado sem tempero e arroz cozinho, mas ao menos já aguentava alguma coisa no meu interior). Estava eu a divagar nos meus pensamentos quando Kenneth começou a dar as indicações para o dia seguinte: quem ia subir ao Machu Picchu a pé tinha de acordar às 4h uma vez que a caminhada começava a partir da vila meia hora mais tarde. Havia a opção de ir de autocarro e quem optasse por não ir a pé, poderia dormir mais uma hora.

– Devias ir de autocarro Joana – disse M. ao meu lado.

– Achas?

– Sim, tu estás fraquissíma. Estiveste doente e mal comeste mais que uma refeição nestes três dias. Eu acho que podes não aguentar a subida. O melhor é ires de autocarro.

Eu não disse nada. A ideia não me agradava. Mas eu estava confusa, cansada, fraca. Será que eu não ia conseguir? A maior parte do nosso grupo confirmava que iria a pé, montanha acima. Apenas três colegas começavam a manifestar interesse em ir de autocarro.

– Estás a ver, a D., o M. e o A. vão de autocarro. Não irias sem ninguém conhecido… – acrescentou M.

Ainda fiquei com menos vontade de ir de autocarro. Não pelos que optavam por não ir a pé. Mais importante que a companhia no autocarro, era decidir se eu queria mesmo fazer a subida dessa forma. Ir de autocarro significava desvalorizar o esforço dos últimos três dias. A caminhada tinha sido dura para mim, que além de não estar com uma forma física totalmente adequada para estas aventuras, tinha ficado doente com uma intoxicação alimentar bastante forte. Mas tinha-me aguentado nos últimos dias e agora não subir ao Machu Picchu pelo meu próprio pé seria uma frustação enorme.

– Vá lá Joana, decide.

Fechei os olhos e por segundos voltei ao início da semana, aquela segunda-feira dia oito de Outubro, em que o despertador tinha tocado bem cedo e rapidamente tivemos de arrumar as mochilas grandes (que ficariam no hostel até ao nosso regresso do Machu Picchu), preparar as mochilas pequenas com os bens necessários para os quatro dias de caminhada e tomar um rápido pequeno-almoço. À hora combinada, 6:30, estávamos prontos, mas como haveríamos de experienciar muitas outras vezes durante a viagem, seguiu-se o inevitável atraso sul-americano. Quando nos recolheram no hostel fomos encaminhados para uma carrinha que já tinha bastantes pessoas lá dentro. Fomos buscar mais quatro rapazes a um outro hostel, e de seguida, ainda no centro da cidade de Cusco fomos até um local onde vários peruanos carregavam bicicletas para o tejadilho da nossa carrinha. Seriam as bicicletas para o primeiro dia do Inka Jungle Trail que iríamos fazer. A ideia era ir até Abra Malaga (a cerca de 4.316m de altitude) de carro e aí colocar os equipamentos e começar a descida de bicicleta. Depois da carrinha carregada com todo o equipamento e com os treze elementos do grupo o nosso guia deu-se a conhecer. Chamava-se Kenneth (nome para turistas, com certeza), era magrinho e moreno e usava uns óculos que lhe davam mais ar de bibliotecário do que guia de trilhos selvagens no Peru. Mais tarde perceberíamos que todos o tínhamos substimado pela avaliação que fizemos apartir do seu aspecto físico. A caminho de Abra Malaga, e montanha acima deixando Cusco para trás, começou a chover, primeiro uma chuva miudinha e depois uma chuva quase torrencial.  Comecei a sentir que o passeio de bicicleta montanha abaixo não ia correr bem. Eu não ando de bicicleta regularmente. Aliás, eu tinha andado de bicicleta pela primeira vez em mais de dez anos há uns meses atrás em Valência, mas estava um dia radiante de sol e havia inúmeras ciclovias – tinha sido um passeio pelo parque, como se diz. Montanha abaixo e com chuva não ia ser o mesmo e isso começava a preocupar-me, e muito. Como a chuva era cada vez mais forte ao chegarmos a Abra Malaga continuamos o percurso dentro da carrinha, e só quando abrandou um pouco é que paramos para nos equiparmos, tirarmos as fotografias da praxe e seguirmos. Apenas dois minutos depois de termos começado o passeio as minhas calças estavam completamente molhadas: a chuva era imensa e o corta chuva que eu vestia era impotente face a vento e chuva. Dois minutos depois tive de parar pois as lentes de contacto dançavam nos meus olhos, fazendo-me temer o pior. Isto tudo agravado pelos berros de M., que atrás de mim e com a melhor das intenções me tentava dar indicações para eu não cair ribanceira abaixo (quando me encostava muito à faixa esquerda) nem ir contra a montanha escarpada (quando me encostava muito à faixa direita). Retomei o passeio, mas sentia a bicicleta a não obedecer ao meu comando, com o piso muito escorregadio debaixo das rodas. Uns minutos mais tarde as lentes sairam do sítio, eu fiquei sem ver nada, assustei-me e com a atrapalhação e a insegurança caí de encontro à montanha. A queda foi aparatosa, mas tive sorte e só ganhei uma valente nódoa negra na perna direita acima do joelho, e como bónus, consegui recuperar as lentes. Neste momento, decidi desistir do passeio de bicicleta, disse a M. e fui para a carrinha que seguia atrás do grupo com dois dos assistentes do guia. Fiquei triste e a sentir-me frustada com a desistência, mas continuar era arriscado para mim. Um outro rapaz do grupo, um irlandês juntou-se a mim na carrinha – no breve trajecto que tínhamos feito uma pequena pedra tinha saltado para o seu olho e ele não se sentia em condições de continuar. Uns minutos mais tarde um casal (ele americano, ela porto-riquenha) juntar-se-ia a nós, desistindo por não aguentar frio e chuva: quando entraram na carrinha tremiam sem parar. Os quatro que iam dentro da carrinha iniciaram um convívio alegre e de partilha de histórias que havia de continuar mais tarde. Quando o grupo fez uma paragem para comer uma sopa quente, M. juntou-se a nós desistindo de andar de bicicleta à chuva. A sopa, um prato muito aguado com uma bola branca esponjosa e impossível de reconhecer por nós europeus haveria de ser muito invocada na viagem, e falar dela ainda me faz sentir enjoada. Mas isso é para mais tarde; voltemos ao Inka Trail. Os restantes colegas conseguiram aguentar a prova até ao final, e a chuva deu uma trégua no último terço do percurso, premiando os resistentes com um final de passeio deslumbrante montanha abaixo, com uma bela paisagem ao redor, e o vento fresco que cortava o ar com o cheiro intenso a terra inundada de água. Ao final da manhã e já sem chuva juntamo-nos todos para almoçar, e calças, meias e sapatos foram estendidos à nossa volta numa tentativa de secar um pouco a roupa. Mas a reunião seria breve pois parte do grupo iria fazer rafting de tarde, sendo que os restantes (eu, M., o irlandês J., o espanhol A., e o casal D. e T.) iríamos com o Kenneth montanha acima para Santa Maria onde passaríamos a noite com uma família local – aliás a única família a viver naquele ponto da montanha. Subimos cerca de quarenta minutos, atacados por mosquitos e sofrendo pela falta de preparação física. O casal D. e T. sofria com o excesso de bagagem: erradamente tinham percebido que haveria um carro de apoio o tempo todo e seguiam na caminhada com três sacos de viagem, sendo um deles bastante incómodo e grande para transportar. Por onde subíamos nunca um meio de transporte poderia passar: era íngreme e escarpado, e muito estreito; nada além dos nossos corpos cabia naqueles degraus. A subida custou-me imenso e pela primeira vez pensei que talvez não conseguisse fazer todas as caminhadas deste trail. Chegados ao topo da montanha, Kenneth apresentou-nos a família que nos acolhia: pai, mãe e três crianças. As condições eram mínima: os banhos eram no exterior e não havia nem electricidade nem água quente. Os quartos eram muito básicos. Eu, M.,  D. e T. ficaríamos num quarto com 4 camas num primeiro andar. E os restantes colegas distribuídos por outros 2 quartos no rés-do-chão. Para aceder ao meu quarto tinha de subir sobre umas tábuas muito frágeis colocadas umas sobre as outras e aparentemente soltas. Depois de termos explorado os quartos juntamo-nos na mesa que ficava no pátio exterior a beber cerveja e a contar histórias. Ali iniciar-se-ia uma ligação tão intensa e tão curiosa com um grupo de pessoas que partilhou uma aventura no meio das montanhas peruanas durante 4 dias. Estavamos num topo da montanha, não se viam casas por perto. Para obter mantimentos o dono da casa tinha de descer pelo mesmo caminho que nós subimos, caminhar até ao local de venda mais próximo e voltar a subir. E ele haveria de o fazer mais tarde quando as cervejas acabaram. À nossa volta ouviam-se ecos de animais, e o pôr-do-sol imenso que nos rodeou, fez-nos perceber de uma forma maravilhosa que estavamos isolados de quase tudo o que nos era familiar nas nossas vidas normais. Sem net e sem TV, e sem os ecrãs e os teclados que nos facilitam a fuga do convívio com os outros, íamos contar as nossas histórias. Eu haveria de partilhar a minha história com eles, em conversas individuais ou em grupo, e mais tarde à hora do jantar, quando todos nos apresentamos, uns em espanhol outros em inglês eu aperceber-me-ia da proximidade que existia entre as histórias daqueles estranhos. Eu, portuguesa a viver em Londres há quase 6 anos, tinha vivido o fim de um relacionamento de 5 anos e a carreira estava num impasse. Ataques de ansiedade tinham sido a gota de água para me fazer cortar o cordão umbilical com aquele emprego e mais tarde com Londres. M. falou da carreira que não avançava e da falta de algo com sentido profundo na sua vida. S., era belga tinha 27 anos e viajava há 3: tinha vivido na Austrália e na Nova Zelândia, viajado na Ásia, e depois de Argentina e Bolívia, subia para o Peru e América Central. Suspirei ao escutá-lo. A sua viagem terminaria no início de 2014 e regressaria à Bélgica para uma realidade que certamente seria diferente daquela que tinha deixado há três anos atrás. Os irlandeses J. e J. estavam em impasses nas carreiras. O espanhol A., o mais velho do grupo com cerca de 50 anos, tinha sido esfaqueado há um ano atrás numa noite de trabalho em Madrid e nesse momento em que sentiu a vida na sua forma mais frágil decidiu que ia fazer aquelas coisas que tinha constantemente adiado ao longo de meio século de vida. Os restantes eram miúdos mais novos em busca de aventuras despreocupadas. Bebemos mais e conversamos muito. Em inglês. Em espanhol. Fomos dormir cansados mas desejosos de um novo dia com mais caminhada naquelas montanhas maravilhosas da selva peruana.

Eu fui-me deitar enjoada e fraca. O jantar não me tinha caído nada bem e eu ainda recuperava de domingo passado e da enorme má disposição que senti resultado da altitude (dores de cabeça, enjoos e dificuldade em respirar – e nem as folhas de coca ou o chá de mate de coca tinham ajudado). Acordei várias vezes com dores no estomâgo, muitas cólicas e uma vontade incrível de vomitar. Mas nem me atrevi a tentar sair da cama pois não tínhamos luz e eu não me atreveria a atravessar as ripas de madeira na entrada do nosso quarto com apenas a minha pequena lanterna. Fui embalando o corpo abanando-o e tentando acalmar-me para voltar a dormir. Fi-lo várias vezes ao longo da noite.

De manhã, pouco depois de acordar e ter ido ao quarto de banho muito rudimentar com um pano a fazer de porta, percebi que estava muito mal. Sentia-me fraca, não aguentava nada no estômago. O meu pequeno almoço foi um pouco de chá e uma bolacha. Os outros comiam panquecas e preparavam-se para a caminhada. Kenneth fez-nos pinturas no rosto, como se fôssemos guerreiros. Todos sorriam. O meu sorriso era o mais amarelo; não de falsidade ou aborrecimento, mas porque me sentia fraca fisicamente. Falei com Kenneth e contei-lhe o que se passava. Ele respondeu sem rodeios: eu ia ter de caminhar com o grupo. Não havia outra hipótese: no topo da montanha onde nos encontravamos só havia uma forma de deslocação – a pé. Eu teria que tentar manter um ritmo que o meu corpo aguentasse e beber muita água pois poderia desidratar. À minha frente estavam quatro horas de caminhada de manhã e mais três de tarde. Começamos por subir cerca de quinze minutos e foi-nos dito que o pior tinha passado; a partir daí era a descer…. durante quase sete horas. Mas descer na montanha, por caminhos íngremes e muito estreitos é bem pior que subir: os pés falham, escorrega-se, há tonturas e fobias das alturas com as quais se tem de lutar. Curiosamente, eu que tenho vertigens não senti em momento algum qualquer receio e até me aproximei dos precípicios para tirar as fotografias, o que deixava M. num estado de nervos total e a resmungar comigo. Ele estava a levar mesmo a sério a tarefa de tomar conta de mim. A caminhada de quatro horas foi penosa mas a vista era linda: a montanha imensa com os seus tons castanhos recortada por escassa vegetação e o céu azul ponteado de nuvens de um branco fofo, a enquadrar a paisagem. Quando paramos para almoçar tiramos botas e meias e aproveitamos para descansar os pés nos flip flops. Eu continuava a não conseguir aguentar nada no estômago, e apenas comi três ou quatro colheres de arroz e um pouco de pão. Pouco mais de uma hora depois de termos parado retomamos a caminhada, que incluía atravessar uma ponte que abanava demais para o meu gosto, e uma travessia sobre o rio de cable car. Bem, chamar aquela caixa cable car é talvez generoso demais: era uma caixa de madeira onde cabiam duas pessoas de cada vez e que era puxada por duas pessoas com um sistema de cordas que me pareceu suspeitamente rudimentar. Seguiu-se uma parte do trajecto sobre umas pedras muito pequenas e escorregadias no lado do rio. Era tudo tão estreito que tínhamos de nos agarrar à parede rochosa e apoiar uns nos outros para não cair. Depois de muito esforço, principalmente meu e de M. (que também estava adoentado e febril), chegamos às mais maravilhosas piscinas naturais em que estive na minha vida: umas hot springs naturais no meio da montanha. Rapidamente troquei de roupa, coloquei o bikini, passei no chuveiro e entrei nas águas deliciosas e quentes, onde ficaria 1 hora inteira até a pele engelhar e ficar completamente enrugada. Mas eu não me importei e durante aquela hora conversei com os colegas do grupo e brinquei, esquecendo-me do esforço medonho daquele dia. Tinha valido a pena: por aquele momento, tudo tinha valido a pena. Tudo. A paisagem era deliciosa: estavamos num vale rodeados de montanhas e assistimos a um maravilho pôr-do-sol mergulhados nas águas quentes que nos ajudavam a relaxar os músculos doridos e cansados. Quando saímos da piscina juntamo-nos a parte do grupo que animadamente bebia cervezas e contava histórias. Uma hora depois estavamos numa pequena carrinha a caminho do hostel dessa noite em Santa Teresa, com as luzes a piscar e em (des) harmoniosa cantoria. Já na aldeia, e na hora do jantar a minha fraqueza atingiu o seu máximo e eu comecei a acreditar muito seriamente que talvez não fosse conseguir acabar o trail: não consegui comer nada, só o cheiro do jantar dava-me vómitos, e depois da refeição eu e M. fomos com o Kenneth ao posto médico local. A enfermeira vivia naquele espaço com o filho e estava a dormir quando batemos à porta. Ela não falava inglês e Kenneth foi o nosso tradutor: apesar de arranharmos o espanhol estavamos numa situação em que queríamos que as nossas palavras fossem bem entendidas para recebermos o tratamento mais eficaz. A enfermeira explicou que me ia dar uma injecção que era um mix de várias coisas. Assustei-me: e se ficava pior? Mas a fraqueza era tanta e eu já só conseguia estar ou curvada ou deitada, que aceitei na hora. De regresso ao hostel caí na cama e dormi sem parar até à manhã seguinte. Acordei melhor, apesar de fraca e sem apetite nenhum, ao menos já não sentia a vontade constante de vomitar e consegui tomar chá e comer meia panqueca. A febre de M. começou a acalmar. Iniciamos a caminhada desse dia, que seria mais leve. Apenas andamos cerca de uma hora e depois paramos. Quando nos preparavamos para re-iniciar a caminhada através linha férrea, começou a chover de forma intensa pelo que atrasamos a partida. Como não párava de chover, tivemos de caminhar mesmo assim, debaixo de chuva. Apesar das condições atmosféricas não serem as melhores e de eu estar molhada e cheia de frio, o cenário à nossa volta era deslumbrante: rodeados de montanhas, e com uma vegetação que agora se tornava frondosa e abundante, de cor viva e intensa, a chuva e as imensas nuvens no céu criavam uma imagem digna de postal. A caminhada acabou por se tornar muito agradável e eu percebi que sem a chuva o cenário nunca seria tão deslumbrante, pois a vegetação não estaria tão brilhante e eu não me sentiria tão viva – estranho como as dificuldades nos fazem sentir vivos. Pouco depois chegaríamos a Aguas Calientes, o povoado que recebia todos os que caminhavam para o Machu Picchu, oferecendo-lhes tecto para o descanso antes da recta final.

– Eu vou a pé M…. está decidido – Disse eu, ainda hesitante, mas com uma força inexplicável que vinha de dentro e contrariava a vontade fraca do meu corpo.

Fomos dormir e quando às 4h ouvimos Kenneth a chamar, a sensação que invadiu corpo e mente foi a de despertar de uma breve sesta, e não o de sair de uma boa noite de sono antes da subida ao Machu Picchu, o local sagrado dos Incas. Começamos a caminhada com as lanternas ligadas, cerca de 20 minutos a caminhar em plano, logo sem grande dificuldade. Ao fim desse caminho chegamos à ponte onde se inspeccionam os passaportes e onde se iniciava a subida. Os degraus eram bastante irregulares e altos, o que dificultava a subida. Em poucos minutos tudo se agravou porque me custava respirar e porque estava a ficar muito enjoada. De novo, os problemas de altitude, agravados pela má forma física e pelo estado de fraqueza e de recuperação da doença. Eu fui-me atrasando e M. ficou comigo. As duas finlandesas do grupo ficaram também para trás – uma estava doente e a outra carregava uma mochila bastante pesada. M. puxou por nós, dando dicas para rentabilizar a caminhada, cronometrando o tempo desejável de paragem para não deixar o corpo arrefecer e incentivando-nos a continuar. A recta final, esta subida ao Machu Picchu, foi a pior parte do trail, a que mais me custou. Mais do que caminhar sete horas com cólicas e vómitos. Aqui o esforço físico era tão violento que me apetecia chorar, e custava-me tanto respirar. Mas com M. sempre ao meu lado continuei, fui buscar forçar onde não sabia tê-las. Praguejei e disse a mim própria que eu ia conseguir. Eu tinha de conseguir, nem que demorasse horas. E subi e subi e subi e quando vislumbrei a entrada no complexo do Machu Picchu tudo passou. As dores, os vómitos, os enjôos, tudo desapareceu. Paramos para trocar de t-shirts pois as que tínhamos usado na subida estavam ensopadas e comemos qualquer coisa rápida, apenas para repôr energias. De seguida entramos no interior do Machu Picchu para a mais maravilhosa das visões. Não há postal, poster, fotografia que alguma vez consiga fazer justiça à beleza e à dimensão desta maravilha. E nunca um filme poderá transmitir o que se sente ao entrar em Machu Picchu, ao subir à porta do Sol e ao ver o complexo do mesmo ponto que os Incas o viam quando lá chegavam. Não há dinheiro que pague o sabor bom de se saber que se chegou lá em cima ao topo pelos próprios pés e por isso estarei eternamente grata por aquela força desconhecida que me fez decidir não ir de autocarro, e subir no mais violento esforço físico que me foi exigido até hoje. Mas que valeu mil vezes a pena. Pelo caminho. Pela chegada. E porque todas as chegadas são especiais, ao permitirem novas partidas. Afinal, é caminhando que se faz o caminho.

NOTA: O conteúdo (texto e fotografias) são da inteira responsabilidade do seu autor.

 

Outras partilhas:
– Mário C. e Teresa V.: “Sentir o Caminho”
– Cláudia Gouvinhas: “Comecei a caminhar tarde…”
– David Prior II: Camino Primitivo 2014 – la puesta a prueba tres años después
– Joana Vaz Teixeira: “Caminhando se faz o Caminho”
– Daniela Mello : “Falar do Caminho de Santiago tira boa parte do encanto que é vivê-lo”
– David Prior: “De un reto a un camino de descubrimientos y experiencias”
– Luís: “Caminho de Santiago: Grandes dúvidas e grandes desafios”
– Juciara Nepomuceno: “Três lições do Caminho”
– David Rodrigues: “KM 0 – Quando pensares que o Caminho terminou…”

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2 thoughts on “Partilha de Joana Vaz Teixeira: “Caminhando se faz o Caminho”

  1. Para além da debilidade retratada que transforma a caminhada em dificuldade acrescida, o que leio é uma aventura que acaba por ser um encontro.

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