Partilha de Daniela Mello : “Falar do Caminho de Santiago tira boa parte do encanto que é vivê-lo”

IMG_9514Nova partilha do Brasil, desta feita, da Daniela Mello.
Um testemunho das transformações ocorridas ao longo do seu Caminho.

Para quem quiser participar, o desafio foi lançado aqui! :)

Falar do Caminho de Santiago tira boa parte do encanto que é vivê-lo.

 Mas… todas as pessoas me perguntam o que mudou na minha vida depois do Caminho de Santiago e, porque não dizer, depois do Caminho do Sol, que foi o início disso tudo.

Bem, caminhar é muito bom pra saúde; eu mesma não caminho todos os dias, mas caminhar por paisagens belas e desconhecidas, carregando a “casa” nas costas, como um caramujo, conhecendo pessoas e culturas diferentes, é transformador. ISSO! A única palavra que pode chegar mais perto da realidade: transformação.

Todas as pessoas deveriam uma vez na vida viver esta experiência, mesmo que o objetivo seja apenas fazer turismo.

Porque “vivendo” o Caminho, as metas também se transformam…

Conheci o Caminho de Santiago, como muitas outras pessoas, pelo livro do Paulo Coelho. Depois de passar cinco anos lendo livros e navegando na Internet, pensei que já sabia o suficiente para ir pra Espanha e percorrê-lo. Mas sempre adiei esse sonho…. Então, veio uma crise de pânico, conseqüência de muitos anos guardando coisas na “minha mochila interna”. O suicídio da minha mãe, o suicídio de um irmão, que considerava meu filho, a morte trágica de um outro irmão, e assim vai. Uma tia, amiga e segunda mãe, sugeriu e patrocinou uma viagem que eu deveria escolher. Escolhi o Caminho do Sol, pensando: “Se eu conseguir percorrer o Caminho do Sol um dia vou conseguir percorrer o Caminho de Santiago”. Saí de casa!

Estabeleci logo no início que queria percorrer o Caminho do Sol e vencer meus “medos”, era somente isso que eu tinha na cabeça. Tanto que saí de casa com uma frase na mochila: “que a força do medo que tenho não me impeça de viver o que anseio”.

Logo no primeiro dia, ainda na cidade de São Paulo, já me sentia outra pessoa com energia renovada: “Sair de casa é bom, eu tinha me esquecido disso”.

A vivência do Caminho do Sol foi tão intensa que quando voltei pra Brasília, vendi tudo o que tinha, fiz duas tatuagens, cortei o cabelo bem curtinho, pedi licença do trabalho e fui pra Juiz de Fora, passar “um tempo”. Queria mais e mais transformações. Estava aberta para o novo. E “viver” voltou a ser uma experiência maravilhosa.

Depois de seis meses, voltei para a vida “normal”. Trabalho e casa! Mas agora, tinha dentro de mim uma “força” que me dava a certeza de que nada impediria a realização de sonhos.

Dois anos depois estou aqui, tentando encontrar palavras para contar a experiência de percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha…

O que vou dizer, todas as pessoas que já percorreram o caminho já disseram, não é novidade pra ninguém. Lamento não ter palavras belas e diferentes para surpreender… Mas lá também aprendi que as coisas mais simples, também podem ser interessantes…

Percorrer o Caminho de Santiago é voltar a ter a consciência do que é viver. Cada passo no Caminho, representa um passo na nossa vida. Cada dificuldade que temos que enfrentar, representa nossos problemas na vida. A vivência com outras pessoas de diferentes culturas, nos faz reaprender sobre respeito. O que carregamos na nossa mochila é o que precisamos para viver, assim podemos reavaliar nosso consumismo. A mochila também é nosso coração, quanto mais sentimentos mesquinhos, mais pesada fica, quanto mais amor, mais leve. O caminho é um sobe e desce danado e assim também é a nossa vida, cheia de altos e baixos.

O caminho é cheio de paisagens exuberantes, basta estabelecer o ritmo de caminhada, dar umas paradinhas e observar! Assim também é nossa vida, cheia de coisas interessantes, mas estabelecemos um ritmo tão intenso, que nem percebemos. A língua que se fala durante todo o percurso é universal. O coração fala e todos se entendem! O corpo se adapta ao novo, no início reclama um pouco, mas as poucos também se transforma. E assim somos nós resistentes a mudança. Os pensamentos voam, como beija-flores, uma hora pra trás, no passado, outra hora pra frente, no futuro, mas dar um passo após o outro, nos faz pensar e viver o presente. Assim deveríamos fazer sempre. Pensar no passado?! Sim, porque não, afinal, somos o que somos por causa dele.Pensar no futuro?! Sim, porque não, afinal temos que plantar hoje para colher amanhã. Mas acima de tudo, viver o presente, ou nem teremos um futuro.

 Às vezes nos deparamos com uma dificuldade, o zíper da mochila arrebenta, por exemplo, mas aí aparece alguém com vários alfinetes e sua mochila fica toda enfeitada com objetos do amor incondicional. Às vezes a gente chega cansado no albergue, não tem nem vontade de levantar da cama, aí aparece alguém, senta na “beirinha” da sua cama e começa a fazer massagens nos seus pés, com um sorriso no rosto e você se rende! Às vezes, você vê alguém chorando e dá uma vontade danada de dar um abraço, e a gente vai lá e faz, e as lágrimas também se transformam, e viram sorrisos.

Ah! Lá no Caminho, encontramos muito senhores e senhoras da melhor idade, todos muito sorridentes, com olhos cheios de “experiência” e que ao nos encontrar desejam um simples e singelo “buen camino” que nos enche de ânimo para continuar seguindo as setas amarelas. As setas amarelas…

Não posso deixar de falar delas. Estão por toda parte! Árvores, postes, chão, paredes, pedras, temos que prestar bastante atenção, uma seta perdida pode significar quilômetros percorridos em vão e ter que voltar atrás, não é muito agradável. Às vezes apontam dois caminhos e temos que decidir qual a melhor opção. Assim também é a vida…

Quando voltamos do Caminho de Santiago, sentimos falta das setas amarelas no nosso dia-a-dia, mas as setas estão lá, nem sempre são amarelas, nem sempre no lugar que desejamos, nem sempre indicando o caminho que gostaríamos de seguir, mas elas estão lá.

Bem, eu sei que não falei tudo o que vivi neste Caminho, mas eu também não tinha essa intenção, queria apenas tentar passar pra você, sensações. Espero que ao ler estas palavras você tenha sentido sensações diferentes. Porque assim também é o Caminho, cheio de sensações, assim também é a vida…

O que ficou?! Ah! Fica difícil dizer, porque já se transformou…

Beijos

DANIELA “

NOTA: O contéudo (texto e fotografias) são da inteira responsbilidade do seu autor.

Outras partilhas:
– Mário C. e Teresa V.: “Sentir o Caminho”
– Cláudia Gouvinhas: “Comecei a caminhar tarde…”
– David Prior II: Camino Primitivo 2014 – la puesta a prueba tres años después
– Joana Vaz Teixeira: “Caminhando se faz o Caminho”
– Daniela Mello : “Falar do Caminho de Santiago tira boa parte do encanto que é vivê-lo”
– David Prior: “De un reto a un camino de descubrimientos y experiencias”
– Luís: “Caminho de Santiago: Grandes dúvidas e grandes desafios”
– Juciara Nepomuceno: “Três lições do Caminho”
– David Rodrigues: “KM 0 – Quando pensares que o Caminho terminou…”

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