Experiência: Hospitaleira em Águeda

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Pré-aviso: Este post, ao contrário do que é habitual, terá alguns momentos de lamechice. No entanto, não poderia ser de outra forma. :)

A vontade de um dia ser hospitaleira começou a despontar ao longo do Caminho Francês (2011), conforme me fui dando conta do papel que os hospitaleiros podem ter na vivência do caminho dos peregrinos. Quantos albergues com boas condições por onde passei não guardo memórias e outros mais singelos acabaram por ser tão especiais! A eleição, sem sombra de dúvida, vai para o albergue de Tosantos, com um hospitaleiro muito especial, que transformou um dos meus piores dias, num dos melhores!

Conforme referido num post anterior, a oportunidade de ser voluntária surgiu um pouco sem estar à espera e, embora consciente da responsabilidade necessária e da falta de perfil indicado, lá fui à descoberta. Mas, o tempo de espera na mudança de comboio em Aveiro, fez-me pensar mais seriamente no assunto, ao ponto de me perguntar o que estava ali a fazer! A consciência, por vezes, é tramada…

Chegada a Águeda tinha o “Chefe” (o verdadeiro hospitaleiro do Albergue) à espera, que me foi deixando mais confiante.
Ao final do dia chegou o 1º grupo de peregrinos (na verdade já estava no albergue um casal, mas nunca conviveram). Eram cinco, de diferentes nacionalidades, que se tinham encontrado em etapas anteriores. Vê-los chegar, fez-me, pela primeira vez, ter vontade de também ali ter chegado a pé, de estar a percorrer o Caminho, sentir o cansaço e a alegria da entrada no albergue, de realização pessoal.
Apesar de não ser o seu papel, e falhando na minha tarefa, nessa noite, foram eles os meus anfitriões. Cozinharam, jantamos todos juntos, foi muito bom! Tive a oportunidade de estar um bom tempo à conversa com a Natalia, polaca. Logo nessa primeira noite percebi, que afinal, enquanto hospitaleira, embora o contacto com os peregrinos seja mais curto, pois não voltamos a cruzar o seu caminho, esses momentos podem ser igualmente intensos e gratificantes. Fui dormir bem mais tranquila e satisfeita.
(Thanks Natalia for my first big lesson! Hope to see you around ;) )
Me and Natalia DSC05355

A 2ª vez que me apeteceu partir foi na manhã em que partiram Carlos e Corinne. No dia anterior tinha falado um pouco com cada e a empatia não tardou. No dia da partida tomamos o pequeno-almoço juntos, eles sem grande pressa, para minha satisfação de poder estar um pouco mais na sua companhia. A partilha foi grande, até dos 2 pastéis e das bolachinhas que haviam sobrado na véspera, mas naquela altura era tudo o que havia. Pequenos, grandes gestos.
No mesmo dia, mais tarde, escreveria no meu caderninho: “A despedida foi calorosa, abraços distribuídos, desejo de um bom Caminho (no sentido maior). Fiquei na porta a vê-los partir e doeu-me o coração. Foi a 2ª vez nesta semana que me apeteceu partir, desta vez, para não perder o contacto com eles e absorver um pouco mais daquele sumo que não é terrestre. Sentei-me nas escadas [do alpendre] a pensar neles e em tantas, tantas coisas, as lágrimas a rolarem cara abaixo, chorei, chorei. Estar com eles foi um encontro muito especial, muito empático e a ideia de não os voltar a ver, nem saber da sua vida, é algo a que ainda não estou habituada neste papel de hospitaleira, nem da vida, às chegadas e às partidas. É bom porque damos um pouco do nosso coração e recebemos o deles, mas enquanto esse pedaço não volta a regenerar (tipo estrela do mar), é-me muito doloroso.”

DSC05548_Corinne e Carlos

Aos poucos, fui-me habituando à “rotina” (limpezas, voltinha na cidade, pequenas tarefas, receber os peregrinos). Mesmo assim, não houve dois dias iguais! :)
Apesar de ter ficado a conhecer os pontos-chave de Águeda (também para poder esclarecer as dúvidas dos peregrinos), não deu para grandes passeatas, nomeadamente aos arredores. Tenho curiosidade, mas turismo ficará para outra altura.
A pacatez do mês de Agosto em Águeda soube-me mesmo bem! :)

DSC05388DSC05374DSC05493Era suposto voltar ao Porto Sábado/Domingo. No fim da 1ª noite percebi que só voltaria Domingo… depois do almoço. Adiei para Domingo à tarde, Domingo à noite. Voltei 2ª de manhã. Estiquei o tempo o máximo que pude. A vontade era de ficar…
Quando saí de madrugada, não foi a porta do albergue que fechei, mas a de casa.
Se antes Águeda não constava no meu mapa, agora estará sempre presente no coração.

Muito obrigada a todos os que contribuíram para esta experiência: Miguel, o “Chefe”, pela disponibilidade, tempo e confiança; Luís; D. Natércia (Via Lusitana).

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Não posso deixar de agradecer ao meu Papá e ao meu Mano, que nem sempre compreendendo as minhas motivações, me deixam voar, ainda mais nesta semana, que era uma data tão especial para nós. Obrigada, obrigada, obrigada!! :)

Post: Reflexões enquanto Hospitaleira

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O Albergue de Águeda (no próximo post colocarei informação mais detalhada) é gerido pela Associação U Mosquito e todos os seus voluntários nunca percorreram (fisicamente) o Caminho de Santiago. Para mim, este “pormenor” é surpreendente, pois a dedicação, o empenho e o trabalho realizado é extraordinário!
Aberto há um ano e meio e mantido apenas por voluntários, apesar do exterior do edifício estar a precisar de ser restaurado e o jardim cuidado (causa uma primeira impressão menos boa), a verdade é que a prioridade foi dada ao interior, de modo a tornar o espaço o mais acolhedor e confortável possível para os peregrinos. Apesar de já estar muito bom, continua a ser preocupação constante em melhorá-lo. Bravo rapazes!

DSC05600

Contactos:

albergue.agueda@gmail.com

Site: aqui

Actualização 09/04/15: Este Albergue encontra-se encerrado (ver aqui), mas em alternativa existe o Albergue de Peregrinos Santo António.

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EN

Experience: Hospitaller in Águeda

Notice: This unusual postit’s more sentimental, however, it could not be otherwise. :)

The desire to one day be hospitable began along the French Way (2011), as I was taking in account the importance of the role that hospitallers may have in the pilgrim’s experience  of  the way. How many hostels with good conditions I do not keep memories and others more humble were so special?! My vote, without a doubt, goes to the pilgrim’s hostel of Tosantos, with a very special hospitality. One of my worst days became one of the best because of it!

As mentioned in a previous post, the opportunity to volunteer came up without expecting and being conscient of the lack of the profile. Anyway, I decided to go. But the waiting time in the  train station (Aveiro), made me think more seriously about it, to the point of asking me what I was doing there! Consciousness sometimes is poison …

When arrived in Agueda the “Boss” (the true hospitaller of the pilgrim’s hostel) was waiting for me. As long as he talked I get more confident about my new task.

At the end of the day arrived the 1st group of pilgrims. They were five from different nationalities, whom came together along the way. had found in previous steps. Watch them arriving made me feel for the first time the will of have arrived there also on foot, to be in the Way, feel the tiredness and the joy of reaching the hostel and the personal fulfillment.

Despite of not being their role ( and failing in my duty that night), they were my hosts. They cooked, we dined together, it was very good! I had the opportunity to have a long talk with Natalia, from Poland. Since this evening, I realized that while hospitable, these moments can be equally intense and rewarding, even if the contact with the pilgrims is shorter. I went to sleep much more peaceful and happy.

(Thanks Natalia for my first big lesson! Hope to see you around;) )

The 2nd time I felt the desire to go to the camino was in the morning that Carlos and Corinne left. The day before I had spoken a while with eachof them and the empathy came up. On the departure day we ate the breakfast together, with no hurry  for my satisfaction to have the opportunity to be a little bit more in their company. We shared everything we had, even the 2 pastries and cookies from the day before. Small, big gestures.

On the same day, later I wrote in my notebook: “The farewell was warm, we hugged, wished a good “Way” (in a bigger sense). I stayed at the door watching them leaving and my heart hurt. It was the 2nd time this week that I wished to go to the camino , this time, just to not lose the contact with them and absorb a little bit more of that juice that is not earthly. I sat on the stairs [porch] thinking on them and many, many other things, tears sarted to roll face down, I cried. Being with them was very special, very empathic and the idea to not see them again is something that I’m still not used to in this role of hospitaller, nor in life, arrivals and departures. It’s good because we rather our hearts and received theirs, but while this piece not regenerate back (type starfish), is very painful to me. “

Gradually I get used to the “routine” (cleanings, go to city centre, small tasks, receive pilgrims). Even so, there were no two similar days! :)
Despite of have learnt the key points of Águeda (also to be able to answer the pilgrim’s questions), I didn’t much tourism this time, but I’m curious to go back again and do it.

The peacefulness of August in Agueda was reallyyyy good to mel! :)

It was supposed to return to Oporto on Saturday / Sunday. At the end of the 1st night in the albergue,  I realized that I would go back only on Sunday… after lunch. Postponed to Sunday afternoon, Sunday night. I returned Monday morning. I craned my time as I could. My wish was to stay …

When I left at dawn, the door that was closed wasn’t the one from the hostel but from my house.
If before Agueda was not on my map, now it will always be present in the heart.

Many thanks to all who contributed to this experience: Miguel, the “Boss”, for the availability, time and confidence; Luis; D. Natércia (Via Lusitania).

I must thank my Dad and my Brother, even if not always understanding my motivations, they let me fly, even more this week, that it was such a special day for us. Thank you, thank you, thank you!! :)

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The Hostel Agueda (next post will put more detailed information) is managed by U Mosquito Association and all its volunteers never traveled (physically) the Camino de Santiago. For me, this “detail” is surprising, since the dedication, commitment and the work is extraordinary!

Update 09/04/15: This “albergue” it’s closed, but you have as option the Albergue de Peregrinos Santo António.

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5 thoughts on “Experiência: Hospitaleira em Águeda

  1. Luisa, você ainda vive o caminho a cada dia…isso é lindo!
    Mais um exemplo de que só vivendo o caminho para compreender. Vivê-lo em todas as posições.
    Espero muito um dia ter oportunidade de ser hospedeira também.
    E nosso blog está aberto para você também..

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