“Um Caminho para Todos” no Diário de Notícias da Madeira

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Um Caminho para a vida

Ninguém acreditava que fosse capaz. Mas de mochila às costas, Luísa Sousa caminhou de Valença do Minho até Santiago de Compostela. Voltou ‘à estrada’ no ano seguinte com uma distância ainda maior, mas com o mesmo ponto de chegada. Para ano o desafio é percorrer os cerca de 1000 quilómetros que separam Sevilha de Santiago de Compostela.

CHEGAVAM A CAMBALEAR, cansados e com o sacrifício estampado no rosto. Quando o grupo se juntou todo na praça em frente da Catedral de Santiago, os jovens que vestiam t-shirts amarelas, abraçaram-se e começaram a gritar “Campeões, Campeões”. A imagem ficou gravada no baú das recordações da primeira visita a Santiago de Compostela. Passados seis anos, e depois de muitos quilómetros percorridos, Luísa Sousa ainda se emociona com o abraço do grupo de jovens peregrinos espanhóis. A voz treme e sente o mesmo arrepio de quando testemunhou o momento. “Vê-los primeiro a chegar todos mancos e depois a alegria de ter chegado ter sido muito maior do que tudo o que eles passaram ao longo da viagem”, explica. “Ainda hoje me arrepio quando falo disso, porque é uma imagem que ficou e que ainda motiva quando penso em Santiago e em voltar lá. Se já tinha alguma curiosidade sobre o Caminho de Santiago, nessa altura e de ver este grupo especificamente, ainda deu-me mais vontade de ir”. Foi então que combinou com a amiga, que tinha viajado com ela, que um dia iriam fazer o Caminho a pé. Marcaram no calendário o próximo ano Jacobeu, que acontece quando o dia do santo é festejado num domingo. “O ano seguinte Jacobeu seria em 2010 e decidimos que nesse ano faríamos o caminho”.

SETE DIAS, UM DE DESCANSO Quatro anos depois de ter ido de comboio do Porto até Santiago de Compostela, Luísa Sousa regressou à cidade literalmente pelos próprios pés. Um amigo acompanhou-a na aventura. Saíram de Valença do Minho, caminharam durante três dias, pararam um para descansar e fizeram-se novamente à estrada para mais três dias de caminho. “Decidimos mesmo fazer um dia de paragem. Primeiro eu não sabia se ía aguentar o caminho fisicamente e também tínhamos mais tempo e decidimos assim, para aproveitar melhor”, explica. Fizeram uma parte do denominado ‘Caminho Português’ e chegaram a Santiago de Compostela a 24 de Julho, no dia ‘rijo’ da Festa, que é em tudo semelhante às nossas. Os festejos fazem-se com missa, fogo-de-artifício, há uma feira popular e os cafés e bares estão todos abertos. “Milhares de pessoas para cá e para lá a noite toda, estranha-se ver tanta gente junta depois de ter
feito o caminho”.

DE ‘COUCH POTATO’ A CAMINHANTE Não queria nada com o desporto e caminhar uma hora já era demasiado.
Mas a vontade de fazer o Caminho de Santiago falou mais alto. “Eu era ‘couch potato”, conta Luísa meio a rir meio a falar a sério. A cerca de dois meses da partida deixou o conforto do sofá e começou os treinos. Primeiro foram caminhadas de duas horas em percursos maioritariamente planos e mesmo assim chegava ao final completamente de rastos”, recorda. Durante duas semanas o percurso foi sempre o mesmo: saía da Marina do Funchal rumo à Rotunda
da ASSICOM, na Estrada Monumental e regressava. Depois foi aumentando os percursos, que passavam a
incluir mais subidas e descidas.Mais tarde passou a levar também a mochila, para se ir habituando, até que um dia decidiu pôr à prova os seus limites e, fez pela estrada antiga, o percurso Funchal – Ribeira Brava. “Foram mais de 9 horas a andar, com todos os descansos”. “O meu pai foi-me buscar, eu limitei-me a entrar no carro e nem
disse nada, mal podia-me mexer”, conta. A aventura serviu para ganhar confiança e mostrar aos mais cépticos que era capaz de superar o desafio a que se propôs. “Eu já andava há quatro anos a dizer que ía fazer o ‘Caminho’ e toda a gente dizia que sim, mas ninguém acreditava. Viam-me no dia-a-dia sem fazer nada fisicamente mais activo, quanto
mais pegar numa mochila e fazer o Caminho de Santiago”. Tudo isto mudou no dia em que começou os treinos. O irmão, João, assim que a viu sair para treinar começou a incentivar, já o pai demorou mais umas semanas a acreditar, mas
acabou por se render às evidências. “Viram que eu estava determinada e que para mim a coisa era certa, nem colocava a hipótese de não ir”.

27 DIAS DE CAMINHO A primeira experiência deixou marcas e a vontade de voltar novamente. E assim foi, no ano seguinte, saiu de Saint Jean Pied-de-Port, nos Pirenéus. Luísa e um amigo tinham pela frente 27 dias a caminhar ao longo da auto-estrada, por entre aldeias, vilas, descampados e zonas industriais. Desta vez, por uma questão de disponibilidade, houve menos preparação. “E depois veio-se a reflectir no percurso”. Na primeira peregrinação ninguém se lesionou, para o registo ficou apenas uma bolha de água no pé que surgiu ao fim de três dias de caminhada.Mas desta vez, a noite do primeiro dia foi mal dormida. O que começou como uma ligeira dor agravou-se e quando  chegou ao albergue as coisas complicaram-se. “Depois de tomar banho e de descansar, mal conseguia levantar o pé do chão, nem pôr a perna em cima da cama, nem me virar”, conta acrescentado que passou a noite a questionar de
que maneira ía conseguir chegar ao fim. A caminhada prosseguiu, mas sempre um bocadinho condicionada pela mazela. “O problema de ter uma dor numa perna é que vamos compensando com a outra e a outra ao fim de dois dias começa a doer”, recorda. “Andei assim, de dois em dois dias uma hora era a esquerda outra hora era a perna direita”. Desistir não era uma hipótese. Recorda-se em particular da entrada na Galiza. Depois de três ou quatro dias a andar por entre campos de cereais debaixo de um calor descomunal e com a mazela a dificultar, o verde das montanhas da Galiza deram- lhe um novo alento. “Nesse dia sabíamos que tínhamos de subir a montanha, ia ser mais puxado, mas só o facto da paisagem ter mudado não sei porquê nesse dia não senti nenhuma dor”, recorda com um sorriso nos lábios, “sentia-me como a Heidi dos desenhos animados, a subir a montanha toda a contente”.

UM CAMINHO PARA TODOS Estas e outras aventuras juntam-se a dicas e conselhos úteis que publica no ‘blog’ que intitulou de ‘Um Caminho para todos’ (https://umcaminhoparatodos.wordpress.com). A ideia é a partilha de experiências e também “mostrar que realmente não é impossível, seja lá qual for a condição da pessoa há sempre uma solução”, garante. Diz que a fazer a peregrinação há pessoas de todos os cantos do Mundo e de todas as idades. Encontrou um casal sul-coreano que tinham mais de 70 anos, mas também um casal italiano com dois filhos, que não tinham mais de 10 anos. “A parte boa do caminho é que não exclui ninguém, é mesmo um caminho para todos e foi essa a razão do nome do projecto”, explica. Ainda hoje mantém contacto com David, um espanhol invisual que também fez o Caminho Francês. “Fez com um amigo que lhe dava o braço e caminhavam juntos”, conta sublinhando que para si David “é um exemplo” de que este “é mesmo um caminho para todos, seja lingrinhas ou com excesso de peso, encontramos de tudo e o mais importante é ver que desde que uma pessoa tenha o objectivo é possível”. Além do blog, que actualiza com regularidade, vai com frequência a feiras de artesanato. [Mini Fimo] Vende miniaturas feitas em fimo, as receitas servem para ajudar a patrocinar a próxima caminhada.

NOVO “CHAMAMENTO” Não sabe bem explicar o porquê da vontade que sente em voltar a Santiago de Compostela novamente, mas garante que não tinha passado à acção se não fosse também por uma questão de fé. “É uma motivação que não se explica, uma força que vem de qualquer lado e a certeza de que é para ir”. É por isso que em Março do próximo ano vai voltar ao ‘Caminho’. Sevilha é o ponto de partida e estima que em um mês e uma semana estará em Santiago de Compostela a repetir o ritual que fazem todos os peregrinos: subir as escadas e dar um abraço à imagem de Santiago que está na Catedral. Os cerca de 1000 quilómetros vão ser feitos na Primavera para ‘fugir’ ao calor do Verão e às temperaturas elevadas que se fazem sentir no sul de Espanha. Para já ainda não tem companhia para a viagem, mas diz que isso não é um impeditivo. “Costuma-se dizer que pode-se começar sozinho, mas nunca se acaba só, porque vamos conhecendo outros peregrinos”. A preparação física já começou, ainda que a meio gás e condicionada pelas condições climatéricas. A mente essa já está mais do que preparada e sem romantismos excessivos. “O caminho para mim é a analogia do caminho maior que é o caminho da vida .Há coisas boas, menos boas, mas para chegar às boas é preciso passar por outras que são menos interessantes. Tudo faz parte e quando chegamos às mais bonitas, compensam as outras”.

Diário de Notícias Madeira – Revista “Mais”
Publicado a 04/11/12

Jornalista: Graça Freitas
Fotografia: Teresa Gonçalves e do meu arquivo, de A. S e B. A.

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EN

(Translation in progress… google translation for now) :\

A Path to life

No one believed it was capable of. But backpacker’s Luisa Sousa walked Minho Valencia to Santiago de Compostela. He turned ‘on the road’ the following year with an even greater distance, but with the same end point. For years the challenge is to go through the about 1000 kilometers that separate Seville Santiago de Compostela.

They came staggering, tired and the sacrifice stamped on his face. When the group gathered around the square in front of Cathedral of Santiago, young people wearing T-shirts yellow, embraced and began to shout “Champions, Champions”. The image was recorded in the trunk of memories of the first visit to Santiago de Compostela. Six years, and after many kilometers, Luisa Sousa still moved by the embrace of the group of Spanish young pilgrims. The voice trembles and feels the same thrill of when he witnessed the moment. “Seeing them first to get all lame, then the joy of having arrived have been much larger than anything they passed along the way,” he explains. “Even today shudder when I say that, because it is an image that was and still motivates when I think of Santiago and in back there. If you have had any curiosity about the Camino de Santiago at that time and see this group specifically, still it gave me more desire to go. ” Then he combined with the friend who had traveled with her, that one day would do the walk path. Marked on the calendar next year Jacobean, what happens when the saint’s day is celebrated on a Sunday. “The following year Jacobean would be in 2010 and decided that this year we would do the way.”

SEVEN DAYS, ONE OF REST Four years have gone by train from Oporto to Santiago de Compostela, Luisa Sousa returned to the city by literally feet. A friend accompanied her on the adventure. They left Valencia do Minho, walked for three days, one stopped to rest and did so again on the road for three days’ journey. “We decided to even make a day stop. First I did not know if was going to stand the way physically and also had more time and so we decided to take advantage of better, “he explains. They made a part of the so-called ‘Portuguese Way’ and arrived in Santiago de Compostela on 24 July, the ‘hard’ day of the Feast, which is identical to ours. The festivities are made with Mass, fire Fireworks, there is a popular fair and the cafes and bars are all open. “Thousands of people here and there all night, strange to see so many people joining after
made the way. “

DE ‘COUCH POTATO’ A WALKER not want anything to do with sport and walk one hour was too.
But the will to do the Camino de Santiago spoke up. “I was’ couch potato,” says Luisa half laughing amid serious. About two months of the match left the comfort of the sofa and began training. First were hiking two hours on mostly flat paths and yet arrived at the end completely to its knees, “he recalls. For two weeks the course was always the same: out of the Funchal Marina towards Rotunda
the ASSICOM in the Monumental Road and returned. Then it was increasing the pathways that spent
include more ups and descidas.Mais later went on to also lead the pack, accustomed to go, until one day decided to test their limits and did the old road, the route Funchal – Ribeira Brava. “There were more than nine hours to walk, with all the rest.” “My father was seeking me, I limited myself to get in the car and not
say anything, could barely move me, “she says. The adventure served to gain confidence and show the skeptics that it was able to overcome the challenge it has set itself. “I walked for four years now to say who was going to do the ‘Path’ and everybody said so, but no one believed. They saw me in the day-to-day and do nothing physically active, as
More pick up a bag and do the Camino de Santiago “. All this changed the day he started training. The brother John, so the saw out to train began to encourage since his father took a few more weeks to believe, but
eventually surrender to the evidence. “I saw that I was determined and that for me the thing was certain, or put the chance of not going.”

27 DAYS OF WAY first experience left its mark and the desire to return again. And so, the following year, he left Saint Jean Pied-de-Port in the Pyrenees. Louise and a friend had to go 27 days to walk along the highway, through villages, towns, open fields and industrial areas. This time, for reasons of availability, there was less preparation. “And then it came out to reflect on the course.” In the first one pilgrim was injured, it was only for recording a water bubble foot appeared after three days caminhada.Mas this time, the evening of the first day was restless. What began as a slight pain worsened and when he reached the hostel things are complicated. “After bathing and rest, barely lift the foot off the floor, or put your leg on the bed, not me turn,” he says adding that he spent the night of questioning
How was going to make it to the end. The walk continued, but always a little conditioned by illness. “The problem with having a pain in the leg will we compensate with each other and the other after two days starts to hurt,” he recalls. “I walked thus every two days by one hour was left another hour was the right leg.” Giving up was not a hypothesis. Recalls in particular the entry in Galicia. After three or four days to walk through grain fields under a enormous heat and with a difficult illness, the green mountains of Galicia gave him a new life. “On that day we knew we had to climb the mountain, would be pulled over, but only that the landscape has changed not know why that day did not feel any pain,” he recalls with a smile, “I felt like Heidi of cartoon, up the mountain all happy. “

A PATH TO ALL These and other adventures join useful tips and advice that publishes the ‘blog’ which titled “A Path for all ‘(https://umcaminhoparatodos.wordpress.com). The idea is to share experiences and also “show that really is not impossible, whatever the person’s condition there is always a solution,” he says. He says make the pilgrimage there are people from all over the world and of all ages. He found a South Korean couple who were over 70, but also an Italian couple with two children, who had no more than 10 years. “The good part is the way that does not exclude anyone, it is a way for everyone and that was the reason the project name”, he explains. Still maintains contact with David, one blind Spaniard who also made the French Way. “He made a friend who took her arm and walked together,” said underlining that for you David “is an example” of this “it is a way for everyone, whether lingrinhas or overweight, we find everything and the more important is to see that as long as a person has the goal is possible. ” In addition to blogging, updating regularly will often the craft fairs. [Mini Fimo] sale miniatures made in polymer clay, revenues serve to help sponsor the next walk.

NEW “CALL” You do not know well explain why will you feel about going back to Santiago de Compostela again, but ensures that had not passed to the action if it were not also for the sake of faith. “It is a motivation that is not explained, a force that comes from anywhere and make sure that it is to go.” That’s why in March next year will return to the ‘road’. Seville is the starting point and estimated that in one month and one week will be in Santiago de Compostela to repeat the ritual that make all the pilgrims: up the stairs and give a hug to the image of Santiago that is in the Cathedral. The approximately 1,000 kilometers will be made in the spring to ‘escape’ the heat of summer and high temperatures that are felt in southern Spain. To have already still not company for the trip, but says this is not an impediment. “It is often said that one can start alone, but never ends only because we get to know other pilgrims.” The physical preparation has already started, although the gas and medium conditioned by weather conditions. The mind that is already more than enough and without excessive romanticism. “The path for me is the analogy of the higher path that is the way of life .There are good things, less good, but to get to the good you have to go by others that are less interesting. It’s all part and when we got to the most beautiful, outweigh the other. “

Madeira Daily News – Magazine “Mais”
Published on 04/11/12

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11 thoughts on ““Um Caminho para Todos” no Diário de Notícias da Madeira

  1. PARABÉNS PEREGRINA, SÃO ETAPAS NA VIDA A SEREM SUPERADAS, O CAMINHANTE VÊ O MUNDO MAIS COLORIDO…JÁ FIZ O CAMINHO FRANCÊS EM 2011, E PARA 2014 FAREI O CAMINHO PORTUGUÊS (PORTO-SANTIAGO) EM FIM DE MAIO E JUNHO. SE PUDER ME PASSAR DICAS DO CAMINHO, ALBERGUES, ONDE PERNOITAR, TRAJETO MAIS DIFÍCIL, FICO MUITO GRATO.
    VLAMIR MARTIN – LONDRINA – PARANÁ – BRASIL.

  2. Vlamir,
    Antes de mais, muito obrigada!
    Em relação às dicas pedidas, deixo aqui alguma informação.
    Se necessitar de algo mais, posso enviar por e-mail ou poderá entrar em contacto com a Via Lusitana (http://www.vialusitana.org/).
    Boa preparação e bom Caminho!
    luisa

    https://umcaminhoparatodos.wordpress.com/2013/09/19/albergues-do-caminho-portugues-de-santiago/

    https://umcaminhoparatodos.wordpress.com/2013/09/09/percurso-se-do-porto-araujo/

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