“Mas o que é ganhar?”

Nos últimos dias li o livro de Killian Jornet, “Correr ou Morrer”, campeão mundial de skyrunning e da Ultra-Trail do Monte Branco.

O livro tem trechos fantásticos, que mostram a verdadeira essência do desportista, que está ao alcance do comum dos mortais e não apenas dos de alta competição! Quem já não experimentou os sentimentos descritos abaixo? Ainda não? Então está na hora!! ;)

Mas o que é ganhar? Qual é a verdadeira vitória? (…)
A verdadeira vitória não reside em cortar a fita da meta, não é subir ao degrau mais alto do pódio. Nada disto faz com que as pernas tremam de medo e emoção. Ou, quando muito, pode fazê-lo quando recordamos o que vivemos antes. A vitória, a real, é a que reside nas profundezas de cada um de nós. É a que não conseguimos acreditar que, apesar da preparação e do nosso empenho, podemos alcançar, mas que acaba por acontecer. É como se, apesar de conscientemente e com a calculadora na mão, passadas muitas horas de preparação, passados muitos dias de treino, de nos convencermos de que somos capazes de ganhar, ou simplesmente de acabar a corrida, houvesse uma coisa no nosso inconsciente a dizer-nos constantemente que é impossível, que é demasiado bom, demasiado grande, demasiado incrível para ser verdade. Que o que queremos conseguir não passa de um sonho. E quando atravessamos a meta, quando olhamos para trás e vemos que é real, que somos de carne e osso, e que aquilo que só parecia possível em sonhos se tornou realidade, é que nos apercebemos de que esta é a verdadeira vitória.
Ganhar não que dizer acabar em primeiro lugar. Não quer dizer bater os outros. Ganhar é vencermo-nos a nós próprios. Vencer o nosso corpo, os nossos limites e os nossos medos. Ganhar significa superar-nos a nós mesmos e tornarmos os nossos sonhos realidade. Houve muitas corridas em que acabei em primeiro lugar mas em que não me senti um vencedor. Não chorei ao atravessar a meta, não saltei de alegria, nem as minhas emoções foram uma tempestade sem rumo. Tinha, simplesmente, de ganhar a corrida, acabar à frente dos outros e, antes e durante a corrida, sabia, tinha a certeza de que chegaria em primeiro lugar. Sabia que não era um sonho, e em nenhum momento me perguntei o que seria não ganhar. Era fácil, como um cozinheiro que abre o seu restaurante de manhã e que sabe exactamente como o bife lhe vai sair. Não há nenhum desafio, não há qualquer sonho do qual tenhamos de acordar mais tarde. E isto, pelo menos para mim, não é ganhar. Pelo contrário, vi grandes vencedores, pessoas que se ultrapassaram a si próprias e que cruzaram a linha da meta a chorar, sem forças, mas não de esgotamento físico e sim, sobretudo, por terem conseguido acabar o que sabiam que, no fundo, só era fruto dos seus sonhos. Vi pessoas sentarem-se no chão depois de atravessarem a meta do UTMB e ficarem sentadas nesta posição durante horas com o olhar perdido, com o maior sorriso dentro delas, sem acreditarem bem que aquilo que acabavam de fazer não era uma rasteira mental. Sabendo que ao acordar podiam dizer que sim, que conseguiram, que venceram todos os receios e que desceram dos sonhos para os tornar realidade. Vi pessoas que, apesar de chegarem depois de os primeiros já terem tomado duche, almoçado e de até já terem dormido a sesta, se sentem vencedoras, e não trocariam o que sentem por nada deste mundo. E invejo-as, porque, no fundo, não é por isso que corremos? Para saber que somos capazes de vencer os nossos medos, e que a fita que cortamos quando atravessamos a linha da meta não é sustida por assistentes mas sim pelo que os nossos sonhos determinam? A vitória não é sermos capazes de levar o nosso corpo e mente ao limite para descobrir que estes limites nos permitiram descobrir novos limites? E levar mais longe, pouco a pouco, os nossos sonhos?”

Outros livros de desportistas:
– “Correr ou Morrer”, Kilian Jornet: IIIIIIIV
– “A Mais Alta Solidão”, João Garcia: I
– “Mais Além: Depois do Evereste”, João Garcia: III
– “Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo”, Haruki Murakami: IIIIII
– “Vagabundo dos Mares”, João Rodrigues: I
– “Uma Mulher no Topo do Mundo”, Maria da Conceição: I
– “Portugal de perto”, Nuno Ferreira: I

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